Literatura infantojuvenil,
Pais também choram
Estreia de Luiza Romão na literatura infantojuvenil desestabiliza estereótipos e reafirma que futebol é coisa também de menina
29jun2026 • Atualizado em: 26jun2026 | Edição #108É difícil acreditar, mas há menos de cinquenta anos era oficialmente proibido para mulheres jogar futebol. No Brasil e em vários lugares do mundo, meninas e mulheres não podiam entrar em campo e acabavam ficando por fora do assunto. É desse vergonhoso e nada longínquo passado que a autora Luiza Romão e a ilustradora Sílvia Nastari partem para compor Ontem vi meu pai chorar (Quelônio).
Em uma noite da década de 1970, Gigi, protagonista esperta do livro, acordou com um estrondo. Um barulho estranho e inédito que fez as paredes do quarto e do coração dela tremerem. Gigi entreabriu a porta na ponta dos pés e flagrou uma cena inusitada: o pai, “aquele homenzarrão sempre tão forte e tão certo”, aos prantos.
O rádio tocava, provavelmente, os comentários de pós-jogo enquanto o pai de Gigi se esgoelava segurando um pano listrado em preto e branco, mas ela não conectou uma coisa com a outra. Como poderia entender que era por futebol que ele chorava se os meninos paravam de falar de time, campo e bola toda vez que uma menina chegava perto?
No dia seguinte, o pai continuava meio para baixo, mas insistiu que não era nada. Curiosa que era, Gigi não se deu por vencida, e decidiu investigar por conta própria o que raios poderia ter acontecido com ele.
Começou pelo pano listrado: ela já tinha visto aquilo antes. Onde mesmo? Logo se lembrou de que o seu Antônio, porteiro da escola, usava uma camiseta com as mesmas listras e as mesmas letras “S. E. F.”. Mas com ele tampouco houve conversa: seu Antônio, portando a tristeza da mesma derrota do pai, lascou-lhe um “isso nem é coisa de menina”.
Faz pouco tempo que as mulheres passaram a ser tratadas como iguais nas arquibancadas
Vasculhando a biblioteca, Gigi encontrou na capa da Gazeta Esportiva outros homens de camiseta listrada chorando. Leu tudo, mas pouco entendeu: ela nunca tinha ouvido falar de escanteio, arbitragem e as outras palavras com as quais se fala de um bom e velho jogo de futebol.
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Na volta para casa, se deparou com homens comemorando na barbearia. Mas como havia gente sentindo o exato oposto do seu pai? A diferença é que esses vestiam camiseta listrada em preto e vermelho, felizes e saltitantes. Para ir da tristeza à felicidade bastava então mudar de cor?
Em uma tentativa desesperada de participar do que ainda não conseguia entender, Gigi começou a gritar as palavras que tinha aprendido na reportagem. De novo deu com o “e isso lá é assunto de menina?”. E então foi ficando compreensivelmente furiosa.
Na próxima ida à escola, ninguém reconheceria Gigi. Se aquele mistério não era assunto de menina, então a solução era se vestir como um menino. De bermuda, camisetão e boné, se sentou em frente à quadra. Ah, ela veria, sim, um jogo de futebol, do começo ao fim. Ou ao menos essa era a intenção.
Faltava um na partida. De repente — coração na boca — Gigi entra em campo. Seria essa a sua grande chance? Ela provaria assim, de imediato, que era capaz de jogar?
Samambaias
Romão sabe que esse final feliz não existe. Se uma garota nunca deu um chute na bola, não tem como fazer milagres. Gigi — junto de todas as meninas escanteadas por décadas — escorrega na cara do gol. Dessa vez, precisa escutar um ardido “você joga pior que uma garotinha”. Humilhada e ofendida, ela se pergunta desde quando ser garota é xingamento.
E então Dora, a merendeira da escola, coloca, enfim, o time das mulheres em campo. E um time de fato: as Samambaias são as boleiras do bairro, que não podiam fazer muito estardalhaço porque — lembra? — o futebol era inacreditavelmente proibido para mulheres.
Aprendendo as regras e o vocabulário do futebol, Gigi vai compondo uma bela partida com as ilustrações de Sílvia Nastari. Entre um passe e um cabeceio das Samambaias, recortes de jornais de época ilustram impedimentos que vão muito além do campo: “Proibidas as mulheres de jogar futebol”; “Pe’ de mulher não foi feito p’ra se metter em shooteiras!”; “O football mata a graça da mulher”.
Hoje, essas manchetes soam absurdas, mas eram bem reais até 1979, quando finalmente caiu a proibição de mulheres em campo, vigente no país desde 1941. Ainda sentimos seus efeitos: faz pouco tempo que o futebol feminino passou a ser valorizado e que as mulheres passaram a ser tratadas como iguais nas arquibancadas. E não é coincidência que só recentemente as torcidas passaram a se empenhar em respeitar as diferenças em seus cantos.
Futebol é lugar de perder e ganhar, de suar a camisa, chutar e driblar, assim como as arquibancadas são lugar de gritar, sofrer, rezar e abraçar. O encontro entre o campo e a torcida é o lugar do milagre.
Nesse mundo bem nosso, pai e filha torcem juntos, esbravejam, pulam e choram. Ontem vi meu pai chorar, do futebol para a vida, desestabiliza estereótipos ao mostrar que podemos, enfim, ver mulher marcar gol e homem se debulhar em lágrimas.
Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Pais também choram”
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