Quadrinhos,
Como alimentar fantasmas
Tessa Hulls faz, de uma história familiar marcada por migração e silêncio, um exercício de memória e elaboração
25jun2026 | Edição #107O vencedor do Prêmio Pulitzer de 2025, na categoria Memória ou Autobiografia, foi um livro sobre imigração — imigração chinesa, mais especificamente. Uma história sobre três mulheres de uma família. Foi a primeira vez, aliás, que uma hq levou o prêmio na categoria. E, ainda assim, ou talvez justamente por tudo isso, Meus fantasmas: uma autobiografia em quadrinhos chegou ao Brasil, pela Quadrinhos na Cia, sem alarde.
O livro acompanha três gerações e as marcas que passam de uma para a outra, nem sempre de forma visível. No centro da narrativa está Sun Yi, avó da autora, uma jornalista em Xangai que vê sua vida desmoronar com a vitória comunista em 1949. Depois de anos de perseguição, ela foge para Hong Kong com a filha pequena, escreve um livro de sucesso sobre a própria sobrevivência e, pouco depois, sofre um colapso mental, que a leva a ser internada. Essa ruptura não se encerra nela, mas atravessa tudo o que vem depois.
A autora se afasta da lógica da reparação e se aproxima de algo mais difícil: sustentar a ambiguidade
A filha, Rose, cresce em um ambiente instável, até que consegue uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. É lá que tenta reconstruir a própria vida enquanto passa a cuidar da mãe, carregando um trauma nunca nomeado por completo. No livro, essa relação aparece muitas vezes como uma duplicação: há uma versão “normal” da mãe e outra, assombrada, que irrompe sem aviso e reorganiza tudo ao redor.
Já Tessa Hulls, a terceira figura da linhagem, cresce tentando se orientar entre essas duas presenças. Durante anos, busca se afastar dos fantasmas da família e passa a viver em constante deslocamento. Primeiro pelos Estados Unidos e depois por outros países — chega, aliás, a assumir uma persona caricata de liberdade norte–americana autointitulada “cowboy”. Aos trinta anos, no entanto, percebe que distância não significa necessariamente liberdade. E decide voltar.
É desse retorno que nasce o livro: uma tentativa de olhar para trás sem desvios e de entender o que foi herdado e o que ainda pode ser transformado. Ao costurar memória pessoal e história política, Meus fantasmas mostra como o trauma se infiltra nas relações mais íntimas e como, apesar disso, ainda pode haver alguma forma de vínculo, linguagem e cuidado. Em diálogo com uma tradição de romances gráficos autobiográficos — que passa por Persépolis (trad. Paulo Werneck, Quadrinhos na Cia, 2007), de Marjane Satrapi, e Você é minha mãe? (trad. Érico Assis, Quadrinhos na Cia, 2013), de Alison Bechdel —, o livro de Hulls se distingue pela escala e pela densidade com que encara o próprio material.
Sem idealizações
Em vários momentos, o livro sugere que escrever é uma forma de tentar conter o que transborda. A avó de Hulls, depois de fugir da China, passa a escrever de maneira compulsiva — como se, ao registrar tudo, pudesse reorganizar um mundo que já tinha desmoronado. Há nisso algo de profundamente trágico: a escrita como tentativa de recuperar o controle da própria história e, ao mesmo tempo, como prova de que esse controle já foi perdido. O gesto de Hulls herda essa ambivalência. Narrar não resolve, mas é algo que se impõe.
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Existe uma recusa em suavizar a maneira como Hulls constrói suas personagens. O livro não passa pano — nem para a avó, cuja vida antes da doença mental é abordada, em alguns momentos, como a de uma mulher dura, manipuladora e capaz de gestos cruéis. Ao insistir em zonas sombrias, a autora evita qualquer idealização fácil e torna essas figuras mais humanas e, por isso mesmo, mais incômodas.
A tensão aparece também naquilo que não pôde ser dito. Hulls não falava chinês e, durante anos, nunca conseguiu de fato conversar com a avó. O que se herda, nesse caso, não são apenas relatos, mas silêncios. O trauma se transmite não só pelo que é contado, mas também pelo que não encontra tradução. Chama atenção, ainda, o que fica de fora. Os homens quase não aparecem e, quando aparecem, é pela ausência. São as mulheres que sustentam, que lembram, que carregam — e também as que absorvem o impacto das histórias, que não se encerram.
Essa densidade se reflete na forma. O livro é visualmente carregado: páginas cheias, texto abundante, traços que oscilam entre o esquemático e o caótico, com o preto dominando a composição. Há certo excesso deliberado, como se a própria materialidade do quadrinho traduzisse o emaranhado emocional que se tenta narrar. A leitura, então, não é leve — exige fôlego, atenção e alguma disposição para se perder.
No fim, fica a sensação de que o tempo não se organiza de forma linear. O passado não está atrás, resolvido, mas se infiltra no presente a todo instante. Ao voltar a essa história, Hulls não está apenas olhando para trás, mas tentando intervir. E intervém com uma coragem rara: ao expor o sofrimento e os equívocos de cada uma — avó, mãe e filha —, o livro se afasta da lógica da reparação e se aproxima de algo mais difícil, que é sustentar a ambiguidade.
Num mercado saturado pela autoficção, o gênero, acrescido do desenho como em Meus fantasmas, ainda encontra maneiras de surpreender. Talvez porque não se trate apenas de contar uma história, mas de dar forma ao que, por muito tempo, permaneceu sem linguagem.
Matéria publicada na edição impressa #107 em julho de 2026. Com o título “Como alimentar fantasmas”
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