A autora Liv Strömquist (Emil Malmborg/Divulgação)

Quadrinhos,

Zodíaco cabeça

Em A astrologia, Liv Strömquist une humor e visão crítica em um ensaio sobre a crença nos signos e apresenta quem é quem na fila dos astros

30jul2025 • Atualizado em: 19ago2025 | Edição #97

Aos céticos, o menos óbvio: a HQ A astrologia, de Liv Strömquist, não é apenas um almanaque sobre a influência dos astros na personalidade dos mortais, é também um ensaio sobre por que, trezentos anos depois do Iluminismo, as pessoas ainda se interessam pelo tema. E vai além, ao convocar ninguém menos que o filósofo alemão Theodor W. Adorno para ajudá-la a responder a questão.

Convidada da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) deste ano, a sueca de 47 anos entrou para a bibliografia obrigatória do feminismo no Brasil desde o lançamento, em 2018, de A origem do mundo: uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado (Quadrinhos na Cia). Em 2023, o livro foi adaptado aos palcos em uma elogiada montagem, idealizada pela atriz Luisa Micheletti.

Com a repercussão, foram lançados, pela mesma editora, A rosa mais vermelha desabrocha: o amor nos tempos do capitalismo tardio ou por que as pessoas se apaixonam tão raramente hoje em dia (2021) e Na sala dos espelhos: autoimagem em transe ou beleza e autenticidade como mercadoria na era dos likes & outras encenações do eu (2023) — todos, inclusive o recém-lançado A astrologia, traduzidos para o português por Kristin Lie Garrubo.

Socióloga de formação, Strömquist criou um estilo literário próprio, que combina feminismo, visão crítica ao estado das coisas e ao capitalismo, referências pop, biografias de figuras históricas, além de textos cabeçudos, citados com referência bibliográfica nas últimas páginas. A astrologia segue esse formato.

Piscianos nas ilustrações de A astrologia de Liv Strömquist (Divulgação)

Dividido em partes, o livro começa esmiuçando as principais características de cada um dos doze signos, traçando um perfil com informações bastante conhecidas até mesmo por quem tem pouco apreço pelo zodíaco. Outra seção é dedicada às melhores combinações astrológicas para o amor. Em ambas, ela exemplifica seus pontos com anedotas envolvendo personagens inusitados, como Charles Moulton, o inventor da Mulher-Maravilha, e as duas mulheres com quem formava um trisal, Elizabeth Marston e Olive Byrne; o guru Osho; e a filósofa Ayn Rand.

Se algumas passagens podem soar exageradamente deterministas, a parte final do livro nos lembra que o grande apelo de Strömquist é a forma leve, divertida e sincera com que aborda seus objetos de análise — pedindo, por exemplo, a opinião de sua mãe e sua sogra sobre um livro de astrologia. Além da profundidade com que desdobra e questiona teorias. Na HQ em questão, a própria astrologia.

Strömquist levava o assunto a sério até se ver atormentada por uma inquietação em relação ao signo do filho que esperava — ela temia não ser uma boa mãe para um pisciano. Resolveu dar um tempo no esoterismo. O tempo passou, o zodíaco ganhou uma nova camada de popularidade, e a quadrinista percebeu que seus conhecimentos astrológicos poderiam ser úteis — assim nasceu o livro.

Socióloga, a autora criou um estilo próprio, que combina feminismo e crítica ao capitalismo

Hoje, a autora vê os signos não como uma forma de prever o futuro, mas de analisar o comportamento humano e rir dele, além de engatar uma boa conversa. Em entrevista em vídeo com a Quatro Cinco Um, não se furtou a fazer um diagóstico baseado nos astros: minha combinação amorosa é excelente, mesmo meu namorado sendo o pior tipo de virginiano, o signo mais chato do zodíaco, segundo o livro.

Cancerianos nas ilustrações de A astrologia de Liv Strömquist (Divulgação)

É verdade que você deixou a astrologia de lado?
É um vaivém. Eu estava muito interessada em astrologia uns quinze anos atrás. Comecei a estudar sem pretensão e, com meu grupo de amigos, fazíamos piadas, tentávamos adivinhar o signo das pessoas. Com o tempo percebi que estava começando a acreditar demais, até desenvolver preconceitos com base nos signos. Quando engravidei, fiquei com medo de que meu bebê fosse de Peixes — não era sobre a saúde, mas sobre o signo. Foi quando percebi que precisava parar. Fiquei todo esse tempo sem pensar nisso, até que comecei a ver muitos memes sobre astrologia no Instagram e pensei: por que não posso brincar também? Fiz piadas, as pessoas começaram a pedir um livro e acabei escrevendo. É um livro inteiro de piadas astrológicas sobre a humanidade contemporânea. Mas senti que precisava de um olhar mais crítico, então incluí um capítulo final com uma perspectiva mais analítica.

Por que a astrologia voltou a fazer tanto sucesso?
A vida contemporânea é extremamente imprevisível. As coisas acontecem de forma muito aleatória, todo mundo vive isso. São tempos apocalípticos, como se não houvesse futuro. É difícil acreditar no que vem por aí. E a astrologia é uma forma de se relacionar com isso, até porque nada parece muito crível. Nem os pais, nem as autoridades, nem os pesquisadores, ninguém sabe de verdade o que vai acontecer com a Inteligência Artificial, o clima ou mesmo com o governo Trump. Há muita insegurança e, de alguma forma, a astrologia parece tão plausível quanto qualquer outra coisa.

O que você e seus amigos buscavam na astrologia quinze anos atrás?
O que realmente está no cerne da astrologia é o interesse pelos humanos. A ideia é que somos de alguma forma governados pelos planetas, astros e constelações, mas ninguém fala sobre esse aspecto. Falamos sobre relacionamentos, pessoas e como elas são. E esse é um tópico de grande interesse: entender quem eu sou, quem é essa pessoa… É uma maneira divertida de analisar as personalidades. A astrologia é essa linguagem social para discutir como as pessoas são, o que é sempre um ótimo assunto.

‘Uso a astrologia como moldura para satirizar a humanidade, nunca me interessei por previsões’

A astrologia costuma ser rejeitada em ambientes intelectuais. Como você, socióloga, lida com isso?
Há algo sobre o baixo status da astrologia que eu gosto. Horóscopo é associado a donas de casa dos anos 1950, mulheres, cultura gay… É um pouco camp [algo caricato e exagerado] e sem prestígio.

É um tipo de conhecimento usado por pessoas que talvez não tenham conexão com a academia ou com esses outros tipos de linguagem. E eu gosto dessa maneira mais divertida de falar sobre as pessoas e de como elas se relacionam. No mais, acho que dá para comparar astrologia ao álcool: pode ser divertido entre amigos, excelente em uma festa, mas usar em excesso, principalmente sozinho, pode viciar. É muito fácil ficar preso nesse assunto.

Trabalhei em um site feminino e às vezes nos perguntávamos se faziam sentido reportagens sobre aborto e equidade salarial ao lado do horóscopo. Como vê essa associação?
Não acho que é algo que precisa estar junto. Claro que existem astrólogas feministas, mas não acho que seja uma “causa”. No livro, uso a astrologia como moldura para satirizar a humanidade. Nunca me interessei por previsões de horóscopos, só pelos traços de personalidade. Mas é curioso como a ideia de previsão é ligada às mulheres. Talvez porque seja uma forma de lidar com a falta de poder ou de controle. Quando você está apaixonada e ansiosa, por exemplo, tenta encontrar algum sinal, alguma direção. É similar a atletas que têm um ritual ou amuleto. Esse tipo de superstição pode ser uma maneira de lidar com situações de muita pressão.

Arianos nas ilustrações de A astrologia de Liv Strömquist (Divulgação)

O que Adorno tem a acrescentar sobre a astrologia?
O que ele diz é muito atual. Ele escreve que o Iluminismo fez as pessoas rejeitarem a superstição e passarem a querer evidências. Depois a própria ciência virou uma espécie de religião, e a superstição voltou. Em muitos aspectos, podemos ver isso no capitalismo tardio: a superstição é uma parte importante, por exemplo, do empreendedorismo e dessa cultura em torno dos negócios.

Hoje, empresários contam histórias místicas — um sonho, um sinal ou um ritual — para justificar suas decisões. Eu costumava ouvir um podcast de entrevistas com empreendedores extremamente bem-sucedidos, quase todos contavam alguma história supersticiosa. Em uma entrevista, uma mulher contou que começou seu negócio de barras energéticas veganas depois de uma experiência de morte simbólica em que pessoas mortas disseram que ela deveria abrir a empresa. É cômico! Por que os espíritos se interessariam pelos resultados comerciais dessas pessoas? É uma espiritualidade capitalista, centrada no sucesso individual. Esse é o pior tipo de espiritualidade, e às vezes a astrologia também é usada assim.

‘Há uma espiritualidade capitalista centrada no sucesso individual; às vezes a astrologia é usada assim’

A astrologia costuma ser usada para justificar atitudes, do tipo “sou de Escorpião”, querendo dizer “sou vingativa”. Você era, ou é, esse tipo de pessoa?
Às vezes. Escorpião, por exemplo, é associado a sexo e vingança. Mas as pessoas também criam suas próprias interpretações dos signos. Tem gente que diz “não namoro leoninos” porque teve uma experiência ruim. Esse é o lado negativo. Quanto mais a gente se aprofunda na astrologia, mais opções têm, porque não é apenas o signo solar, há o ascendente, a lua, todas as casas. Quando se olha para tudo isso, sempre existe uma maneira de explicar qualquer tipo de comportamento ou traço de personalidade.

Meu namorado é Virgem, que você descreve como o signo mais chato do zodíaco, mas ele tem Vênus em Câncer, o que você diz ser excelente para relacionamentos…
Vênus em Câncer é ótimo! É um signo leal, familiar, afetuoso. É uma característica muito boa para um namorado, eu recomendaria!

Quem escreveu esse texto

Tereza Novaes

É jornalista e videomaker.

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025.