Ilustração de Nejishiki, de Yoshiharu Tsuge (Divulgação)

Literatura japonesa,

O mal-estar da civilização

Publicada pela primeira vez no Brasil, HQ que mudou para sempre os rumos do mangá adulto no Japão é devaneio em estado bruto

27ago2025 | Edição #97

Em uma tarde qualquer, o mangaká Yoshiharu Tsuge cochilou sobre o telhado de uma loja de ramen vizinha ao seu apartamento. Como morava no segundo andar, tinha o hábito de sair pela janela, esticar um colchonete e descansar ao ar livre. Naquela tarde, diz ter sonhado durante a siesta. O sonho virou gibi. E, depois desse gibi, nada mais ficou no lugar no cenário dos gekigás, os chamados mangás adultos do Japão.

A história que surgiu daquela soneca começa com um garoto que sai do mar com um ferimento causado por uma água-viva. Ao fundo, um bombardeiro cruza o céu cor de laranja. Nas páginas seguintes, em busca de um médico que possa dar um jeito de estancar o sangue que jorra de um dos seus braços, o menino vaga por cortiços, viaja de trem e encontra uma mulher que ele desconfia ser a sua mãe. Elementos do folclore japonês são mesclados a imagens da ocupação americana, numa paisagem que parece oscilar entre pesadelo e profecia. Há um sentimento constante de deslocamento, como quem acorda no meio de um sonho e tenta, em vão, lembrar o que aconteceu.

Nejishiki é uma das onze histórias reunidas no livro homônimo lançado este ano pela editora Veneta (o título pode ser traduzido como “estilo do parafuso”, mas também é conhecido no Ocidente como “Screw Style”). Com tradução de Luis Libaneo, prefácio de Thiago Borges e apresentação de Rogério de Campos, a publicação apresenta ao público brasileiro uma seleção inédita de obras de Tsuge, autor fundamental para entender a virada subjetiva, política e estética do mangá japonês. Até agora, só uma de suas obras tinha sido publicada no Brasil, O homem sem talento, que chegou aqui pela mesma editora em 2023.

O mangaká Yoshiharu Tsuge (Divulgação)

Yoshiharu Tsuge nasceu em 1937, em Tóquio. Estreou ainda jovem no mercado editorial japonês, com a HQ Hakumen Yasha [O demônio da máscara branca], publicada em 1955 para o circuito kashihon, sistema de aluguel de livros que democratizou o acesso à leitura no pós-guerra. Trabalhou nessa rede por quase dez anos, produzindo em ritmo industrial (ele chegou a desenhar mais de mil páginas só em 1960), até ser recrutado como assistente de Shigeru Mizuki, mestre do mangá de horror e do folclore. Só que, para alcançar o protagonismo e a voz que lhe são característicos, ele precisou de um empurrãozinho: o surgimento da revista Garo.

Os personagens de Tsuge são como herdeiros distorcidos dos anti-heróis de Kafka ou Dostoiévski

A publicação japonesa de mangás alternativos, veiculada entre 1964 e 2002, é considerada um marco na história dos quadrinhos no Japão. Fundada por Katsuichi Nagai, seu objetivo inicial era divulgar o trabalho do artista Shigeru Mizuki e promover mangás com forte conteúdo social, político e experimental, voltados para um público adulto e intelectualizado, em contraste com o comercial, dirigido ao entretenimento juvenil. Ali publicaram autores como o próprio Tsuge, Seiichi Hayashi, Sanpei Shirato e muitos outros que misturavam autobiografia, crítica social, simbolismo, erotismo e surrealismo.

Mais do que uma revista, Garo virou símbolo da contracultura japonesa dos anos 60 e 70, sendo comparada a publicações underground do Ocidente, como a raw, de Art Spiegelman, ou as revistas do movimento underground comix nos Estados Unidos.

A explosão criativa promovida pela Garo não veio do nada. Ela dialogava diretamente com o clima de efervescência cultural e política vivido pelo Japão no período. O país vivenciava um boom econômico impulsionado por um modelo de industrialização que deixava para trás a tradição rural e mergulhava sua juventude em um cotidiano cada vez mais urbano, burocrático e alienante. Esse contraste entre a ancestralidade e a modernidade brutal foi um dos motores do imaginário de Tsuge, que canalizou em seus quadrinhos essa tensão latente como uma espécie de mal-estar civilizatório ilustrado.

Fragmentos

Na revista, o mangaká encontrou um espaço onde pôde romper com os padrões narrativos e visuais do mainstream. Publicada em 1968, Nejishiki é o ápice dessa virada: um marco cultural que desafiou a estrutura linear e explorou o simbolismo do inconsciente. Misturando memórias, sonhos e atmosfera de pesadelo, a história é frequentemente interpretada como uma metáfora do trauma do pós-guerra, da sexualidade reprimida e da busca por sentido em um mundo absurdo. Tsuge enxergou antes de todos o que os quadrinhos poderiam ser. Não usou armas, nem palavras de ordem. Usou imagens fragmentadas, oníricas e inquietantes.

Ilustração de Nejishiki, de Yoshiharu Tsuge. Publicada originalmente em 1968, a HQ mudou o cenário dos gekigás, os chamados mangás adultos no Japão (Divulgação)

Nejishiki gerou reações intensas no público japonês. A crítica mais progressista viu em Tsuge uma espécie de médium de seu tempo, um artista capaz de revelar as fraturas internas da sociedade japonesa por meio de narrativas que parecem devaneios, mas acertam no coração da experiência contemporânea. Não foram poucos os leitores que se reconheceram naquela angústia muda, naquela jornada sem destino claro. Outros, por sua vez, acusaram a obra de niilismo e misoginia, críticas que ainda hoje dividem opiniões. É difícil falar de Nejishiki sem recorrer a metáforas. Talvez seja justamente este o maior trunfo da obra: ela escapa a qualquer síntese fácil.

Seus personagens não têm caráter e tampouco aspiram à redenção. São sujeitos em ruínas, abandonados a seus próprios devaneios. Esses protagonistas, muitas vezes homens introspectivos, fracassados ou à beira do delírio, podem ser lidos como herdeiros distorcidos dos anti-heróis existencialistas de autores como Kafka ou Dostoiévski. Mas a linguagem aqui é outra: é o traço que hesita, o silêncio entre os quadros, o vazio preenchido por ruído gráfico e angústia latente. Há algo de Robert Crumb em sua disposição de se expor, de mergulhar no grotesco e no desconfortável — ainda que Tsuge nunca flerte com a ironia ou o humor, mas sim com a desesperança.

As onze histórias reunidas no volume operam como fragmentos de sonho que vamos recuperando aos poucos ao longo do dia — ou aquilo que vemos quando nos deparamos em estado de paralisia do sono. Ler Tsuge é como atravessar a névoa de um sonho e, ao sair, perceber que o mundo lá fora continua estranho. Suas histórias, muitas vezes incômodas por seu retrato cru da sexualidade e da alienação, não nos entregam respostas, apenas a certeza de que algo pulsa por trás do absurdo. Algo que, como um parafuso mal encaixado, insiste em ranger dentro da gente.

Editoria com apoio Japan House São Paulo

Desde 2019, a Japan House São Paulo realiza em parceria com a Quatro Cinco Um uma cobertura especial de literatura japonesa, um clube de leitura e eventos especiais.

Quem escreveu esse texto

Clara Rellstab

É jornalista, roteirista e repórter do Uol.

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “O mal-estar da civilização”