Ilustração de 'Dormindo entre cadáveres', de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci (Divulgação)

Quadrinhos,

Na linha de frente

Em coautoria com quadrinista, médico relata experiência de estrear na profissão durante a pandemia num hospital de campanha em Rondônia

03set2025 • Atualizado em: 05set2025

“DOUTOR, NÃO ME DEIXA MORRER!”, grita o paciente do leito 3 da UTI 2. Ele se chama Edson Souza, tem 49 anos e está prestes a ser intubado. São 3h15 da manhã. A enfermeira acabou de despertar Luís, médico que dormia no beliche dos plantonistas. Ela adianta que o paciente está dessaturando.
Luís explica a Edson que terão de intubá-lo. A resposta do paciente sai quase sem ar: “O que for preciso… não aguento… mais…”. Também pede que avisem sua filha. Olhando nos olhos do médico, repete: “Por favor, não me deixa morrer”.

Seguem-se vinte páginas de Luís e outros profissionais em torno do paciente. São poucas falas. Muitos closes nos olhos, nos aparelhos, nas mãos tentando encaixar o laringoscópio. O pulso de Edson para. Começam as tentativas de ressuscitação. Os quadros grandes ficam cada vez menores. O desenho fica mais rabiscado, como se os movimentos ficassem mais rápidos, como se o mundo perdesse definição. Até que a enfermeira diz: “Doutor… já deu meia hora. Já chega”. Uma imagem grande fecha a sequência de quase trinta páginas: Edson está imóvel na maca, de olhos fechados.

Essa é uma das cenas que não saem da memória após a leitura de Dormindo entre cadáveres, de Luís Moreira Gonçalves e Felipe Parucci. Tanto pela narrativa tensa em quadrinhos, que transmite a aflição e o empenho nas tentativas de ressuscitar uma vítima de Covid-19, quanto por ser uma cena real, tenebrosamente real, que se repetiu milhares de vezes em centenas de UTIs do mundo em 2020 e 2021.

(Divulgação)

A HQ é o relato de Gonçalves, o médico Luís da cena acima, sobre os meses em que atuou como clínico geral no Hospital de Campanha da Zona Leste em Porto Velho, Rondônia. Nascido em Portugal e residente em São Paulo, ele trabalhou no local de fevereiro a abril de 2021, o pico das mortes por Covid-19 no Brasil. Naquele abril, elas ultrapassaram 3 mil por dia.

‘Houve uma altura em que três pacientes tiveram parada cardíaca e tivemos que nos dividir’

“Tive plantões em que cinco, seis, sete pessoas morreram”, Gonçalves conta em entrevista por vídeo, de São Paulo. Colegas o estimularam a registrar o que vivenciou.

“Estranhamente, não há tantos registros como pensei que fossem ser feitos”, diz, referindo-se a relatos de profissionais de saúde. “Não faltam livros de pessoas que passaram um tempo em casa, tiveram epifanias, descobriram como fazer pão. É tudo legítimo, não quero desmerecer.” Mas há poucas crônicas sobre “estar na linha de frente, com duas ou três máscaras por cima, a ver gente morrer”.

Coletivo

A narrativa começa com o inverso de hospitais, intubações e tensão. Nas primeiras páginas, o desenhista e corroteirista Felipe Parucci ilustra sua rotina durante a pandemia, quando morava em Florianópolis: tocar guitarra, andar de bicicleta… “Tinha um emprego que me permitia trabalhar de casa tranquilamente, um apartamento em que morava sozinho, cartão de crédito para pedir iFood”, conta ele reconhecendo o privilégio, e hoje falando de São Paulo. “Estava muito protegido e passei um período de autoconhecimento, até meio zen.”

Quando a pandemia estava arrefecendo, em fins de 2022, Parucci recebeu uma mensagem de Gonçalves via Instagram, que aparece na primeira página de Dormindo. O médico dizia estar lendo Apocalipse, por favor, lançado naquele ano pelo quadrinista, e cogitando escrever um livro de “crónicas estilo [Estação] Carandiru de Drauzio Varella, mas tenho pensado se não ficaria mais impactante em arte gráfica”.

Os dois não se conheciam. A mensagem desatou uma conversa.

Todos os quadrinhos de Parucci até então — Apocalipse, por favor (independente, de 2015, reeditado em 2022 pela Lote 42), Auto Ajuda (independente, 2016), Já era (Lote 42, 2017) e Enxaqueca (independente, 2018) — eram produções solo. Mas o convite de Gonçalves foi “uma situação meio mágica”. “É tanto a história de vida dele quanto a da própria pandemia.”

Gonçalves queria, de fato, contar uma grande história da pandemia, inclusive com detalhes de nível técnico. Teria a ver com sua formação de pesquisador. “Mas sempre que eu tentava uma coisa geral, não funcionava”, conta. “Tive que me render à evidência de que era mais fácil contar a história através da minha odisseia.”

É assim que, na primeira cena com o médico, passada em janeiro de 2021, ele recebe um e-mail do Governo de Rondônia falando da extrema necessidade de médicos. Na época, Gonçalves era professor da Universidade de São Paulo, que tinha suspendido aulas presenciais havia quase um ano. Respondeu a mensagem dizendo que estava disponível e em dez minutos recebeu uma ligação da Secretaria de Saúde do Estado: “Pode começar amanhã?”.

Quatro dias depois, estava em Porto Velho começando o plantão. Foi sua primeira atuação clínica na vida.
Gonçalves fez graduação e doutorado em Química na Universidade do Porto. A formação em Medicina veio depois, pela Universidade do Minho — um curso que buscou porque ajudaria nos seus interesses de pesquisa, combinando as duas áreas. Ele não tinha intenção, a princípio, de ser médico.

Fora as práticas como aluno, nunca havia atuado em um hospital. Seu primeiro dia exercendo a profissão de médico foi naquele plantão em Porto Velho, numa UTI com pacientes de Covid.

O médico consulta no YouTube, enquanto a enfermeira segura o celular, como se faz um dreno de tórax

O quadrinho não esconde que o químico estava mais do que assustado em ativar seu lado médico. Os primeiros procedimentos foram orientados pelas enfermeiras. Em uma das cenas, procura no YouTube como se faz um dreno de tórax; a enfermeira segura o celular enquanto ele passa o bisturi no paciente. “Ganhei muita prática”, conta o médico. “Como não tínhamos os melhores meios nem todas as medicações disponíveis, aprendi um pouquinho de tudo.”

A falta de aparelhagem e medicamentos foi uma constante no hospital de Porto Velho. A mesma realidade de muitos hospitais brasileiros na época. Para agravar, março é um típico mês de chuvas intensas na capital de Rondônia, e havia goteiras dentro da UTI. Em uma cena exemplar, Gonçalves faz um procedimento enquanto um colega segura um guarda-chuva sobre ele e o paciente. No meio do processo, falta luz.

Tensão

Gonçalves conta que é leitor de quadrinhos — ou banda desenhada, como dizem em Portugal — desde criança. Decidiu transformar sua vivência da pandemia em romance gráfico porque, primeiro, não se sentia com talento para produzir um livro sozinho, mesmo que fosse em prosa; segundo, porque viu vantagem em representar sua aventura com imagens.

Apesar de já ter ideias de ilustrações, ele deixou o aspecto visual a cargo do parceiro de empreitada. O roteiro foi produzido a quatro mãos e de maneira bastante flexível, em uma colaboração que se estendeu por um ano e meio. Gonçalves escrevia trechos da sua história e Parucci os transformava em páginas desenhadas, sempre discutindo adaptações no relato para ganhar ritmo.

“Se tínhamos uma cena mais pesada na uti”, diz Parucci, “passamos a uma de confraternização com o time, entre os médicos, enfermeiros.” Há momentos de alívio da tensão, até cômicos, que os dois autores concordaram em incluir, de forma dosada — “feitos com cuidado, para não faltar ao respeito com quem sofreu na pandemia”, diz Gonçalves.

Quando Parucci contou que estava planejando mais de vinte páginas para a cena descrita no início deste texto, Gonçalves achou longa demais. “Vai ser um quarto do livro!”, reclamou. A tensão da sequência — “assim como eu estava tenso”, diz o médico — justificou a extensão. No final, acabou equivalendo a menos de um décimo das 320 páginas.

(Divulgação)

Nelas, Gonçalves é retratado de um modo cartunesco. O quadrinista explica que o colega não se enquadra no estereótipo de médico ou professor “por causa daquele cabelão e da própria personalidade”. “Ele é racional e reservado, um cara de poucas palavras”, diz Parucci. Assim, o Gonçalves do quadrinho tem, além dos cabelos longos e um tanto rebeldes, olhos muito maiores que os reais.

A maioria dos outros personagens ganha traços mais realistas, assim como os ambientes. O protagonista destoa como caricatura, explica Parucci, sobretudo para ganhar em expressividade, mas a representação caricata também ajuda a borrar o limite entre o relato e a realidade. É uma medida proposital tanto para fins literários quanto jurídicos.

“A personagem do livro”, conta Gonçalves, distanciando-se, “treina intubação com cadáveres, por exemplo. São coisas que estão no limiar da legalidade.” A cena que dá título ao livro — o médico literalmente dormiu em uma sala cheia de cadáveres — também pode se encaixar aí. Além disso, o roteirista inclui histórias de outros médicos que vão do descaso — “Ele vai morrer de qualquer jeito”, diz uma médica que não quer ser acordada — a crises de choro e relações extraconjugais no quarto dos plantonistas. E conta de interferências políticas da prefeitura local.

No posfácio, o médico declara que não usou o nome real de ninguém no quadrinho. Também há situações adaptadas para servir à narração. Gonçalves diz não temer represália da comunidade médica ao ver os retratos de má conduta e corporativismo. “Sinceramente, estou mais preocupado com a opinião dos médicos que fizeram um bom trabalho na pandemia do que daqueles que não tiveram boas condutas.”

Processo disciplinar

Se pessoas físicas não são citadas pelo nome, uma pessoa jurídica é: a Universidade de São Paulo. O médico pediu licença do emprego de professor antes de viajar. Nos primeiros dias em Rondônia, recebeu um e-mail da usp exigindo seu retorno a São Paulo e às aulas. Em resposta, justificou que estava salvando vidas em uma situação de emergência.

A universidade não aceitou e iniciou um processo administrativo disciplinar sob a justificativa de “acumulação indevida de cargos públicos”. Gonçalves foi afastado do cargo de professor. O aviso do processo chegou no dia em que o número de mortes diárias no Brasil atingiu 3.600.

‘Fui processado por trabalhar na linha de frente, enquanto outros ficaram em casa assistindo à Netflix’

“Fui processado por trabalhar na linha de frente, enquanto outros ficaram em casa assistindo à Netflix”, critica o médico. Entre outras possíveis resoluções, diz já ter proposto doar os salários que recebeu durante o período em Rondônia ou seus vencimentos na USP na mesma época. O processo se arrasta desde 2022. Até o momento, o médico não foi formalmente demitido.

Gonçalves diz ter dois objetivos com Dormindo entre cadáveres: o primeiro é não deixar que o que aconteceu na pandemia seja esquecido. Aqueles anos “estão naquele espaço que aconteceu há pouco tempo para se analisar, mas não há tempo suficiente para se esquecer”, reflete.

O segundo, como diz, é mais “egoísta”: superar o estresse pós-traumático. O quadrinho intercala cenas da realidade do protagonista com pesadelos. Primeiro, os sonhos têm a ver com morrer de Covid — ele não conseguiu se vacinar antes de começar o trabalho na UTI. Depois, os sonhos são invadidos por pacientes como Edson, que diz: “Não me deixa morrer, doutor”.

Quem escreveu esse texto

Érico Assis

Tradutor e jornalista. É autor de Balões de Pensamento (ed. Balão Editorial).