Quadrinhos,
Convivendo com a guerra
Nora Krug registra o cotidiano, as contradições e as estratégias de sobrevivência de duas famílias durante um ano da invasão da Ucrânia pela Rússia
18set2025 • Atualizado em: 19set2025“Dar atenção a narrativas ambíguas, complexas e até mesmo contraditórias — narrativas que, talvez, sejam difíceis de aceitar.” Esse é o mote de Nora Krug em Diários da guerra. O relato gráfico — acerca do primeiro ano da invasão da Ucrânia pela Rússia — reúne testemunhos de D. e K., que estavam um em cada país em 24 de fevereiro de 2022. Ao intercalar histórias referentes a um período de 52 semanas, a autora constrói um repositório de experiências compartilhadas e dissonantes do conflito.
K. é uma jornalista nascida na Rússia, emigrada à Crimeia aos treze anos e residente em Kiev no momento da eclosão da guerra. Não se identifica como russa nem apresenta vínculos emocionais com o país. Trocou seu passaporte russo pelo ucraniano na época da invasão à Crimeia, em 2014, e, desde que o país foi invadido em larga escala, se divide entre a capital ucraniana, as áreas ocupadas em que faz reportagens políticas e Copenhague, onde busca uma vida nova.
Quando entreviu a possibilidade de se mudar para a Dinamarca com os dois filhos — de dois e seis anos —, teve que deixar para trás o marido, também jornalista na Ucrânia. Em idade de alistamento, ele estava impedido de sair do país. Para K., o primeiro ano de conflito corresponde à rota constante entre os dois países, ao trauma dessa separação e à maternidade sob perigo constante.
D. é um artista russo — casado e pai de duas crianças, de sete e treze anos — que desde os vinte vive em São Petersburgo. Já no começo da narrativa, ele adota um tom crítico sobre o conflito, mas revestido de autocensura, culpa e resignação: “Essa guerra me mostrou que você não pode influenciar o seu governo de maneira nenhuma”. Termina por se mudar para Paris em uma residência artística — primeiro sozinho e, depois, com a companhia da esposa e dos filhos.
Parte dessas histórias já tinha sido publicada em jornais de grande circulação entre 2022 e 2023. As maiores ambiguidades que a autora revela são relacionadas às identidades dos protagonistas. Eles não se encaixam em uma só nacionalidade, seja ucraniana, russa ou soviética. Também não aceitam narrativas simplistas sobre o conflito e criticam seus governos com mais ou menos abertura.
D. se indigna com a propaganda de que a invasão russa tem como pretexto uma desnazificação ou um combate ao “genocídio de russos”. Relata histórias de violência extremista na Rússia, inclusive contra um amigo antifascista. Hesita em se apresentar como russo fora de seu país e sente saudades de falar sua língua em solo estrangeiro.
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K. denuncia a intolerância a minorias na Ucrânia no passado e critica políticos ucranianos por instigarem desconfiança em relação aos civis de áreas ocupadas. Comum aos dois é a oposição veemente à guerra e à sua política militarista.
A autora constrói um repositório de experiências compartilhadas e dissonantes do conflito
Ao mesmo tempo, ambos têm dificuldade de falar, em especial com os filhos, sobre o que está acontecendo e lamentam a falta de perspectiva. Seguimos o choro das crianças, a separação das famílias e a mudança escolar. É preciso fabricar estratégias de conduta e resistência e fortalecer vínculos familiares para manter a sanidade. “Não tenho o direito de desmoronar”, diz K. sobre a dificuldade de cobrir a guerra: como ucranianos, “não temos outra opção a não ser nos puxarmos para fora do pântano pelos nossos próprios cabelos”.
No curso da guerra, K. e D. se deslocam dentro de seus países e fora deles e, passados dois anos, seguem longe de casa. Em uma atualização dos diários em fevereiro de 2024, acompanhamos K. na Dinamarca e D. na França — com todas as dificuldades de adaptação e a menção a um novo conflito, o da Palestina.
Com o prolongamento da invasão, observamos o esgotamento dos personagens. Embora ainda critiquem a guerra e sofram seus impactos, tentam se acomodar em suas dinâmicas familiares e criar uma vida possível.
O marido de K., por exemplo, só consegue se mudar em definitivo para a Dinamarca porque, apesar de estar em idade de alistamento, é responsável pelo pai, que sofreu um avc após uma bomba russa explodir em sua casa. Não é possível fazer planos ou voltar ao país de origem, onde parte da família está. É preciso forjar alguma nova normalidade: ambos tentam construir novas redes de afeto no estrangeiro. A sensação de estarem deslocados, porém, é uma constante.
Impotência
Não sabemos como a autora chegou a essas pessoas. Acompanhamos apenas os relatos repletos de angústia, raiva e impotência, que têm uma origem particular: são relatos de profissionais autônomos. Os dois possuem alguma possibilidade de trânsito entre as fronteiras, a despeito das limitações impostas.
Os quadrinhos são reveladores pelo que não contam. Temos acesso a fragmentos de duas famílias afetadas pela guerra, sem o peso insustentável das estatísticas dela decorrentes. Contar histórias de tantas opressões sobrepostas é uma tarefa por si só arriscada. Se a autora não se furta a retratar nuances e contradições, também o faz em nome de um projeto antigo: o de sensibilizar em nome da responsabilização.
Crítica de como foi a educação política na Alemanha posterior ao nazismo, Krug propõe que indivíduos assumam maior protagonismo nas histórias coletivas. Seria preciso sair da dimensão paralisante da culpa e encarar a responsabilidade.
Relatar em primeira pessoa ajuda a humanizar e a aproximar realidades que podem parecer distantes, sobretudo durante um conflito em andamento. Mas falar de responsabilidade em relação ao nazismo é diferente de ganhar a guerra da palavra no curso dos acontecimentos. O desafio é grande e, por isso mesmo, essencial — ainda mais depois de quase quatro anos de conflito.
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