Literatura,

Rolezim narrativo

“O Sol na cabeça” não explica nem justifica o morro, apenas lança um olhar sem amargura sobre os contrastes da metrópole

21nov2018

Geovani Martins não tem firula nos dedos. Ágil, direto, sem burocracia, convida o leitor pra um rolézim no seu universo. Ex-ambulante, ex-“homem-placa”, ex-barraqueiro de praia nos mais diversos sentidos, ele se apresenta agora com o crachá de escritor, com seu livro de contos O sol na cabeça. São treze tiros certeiros à queima-roupa, que deixam o leitor atordoado ao ser apresentado a um universo tão próximo e ao mesmo tempo tão distante. Desnudando a favela, Geovani vem conquistando a atenção do asfalto, não todo, mas daquela parcela que tem a curiosidade de quem assiste a um BBF, Big Brother Favela — vamos dar uma espiadinha?

No conto de abertura, Geovani dá um nó na gramática com seu dialeto, como se o revisor tivesse sido demitido. Estilo literário é estilo de vida

O sol na cabeça não explica, não justifica nem pede desculpas. Muita gente já subiu o morro para descer com uma tese de sociologia. Quantas vezes tentaram nos mostrar como é a vida nos becos e vielas? Quais são os hábitos daquela gente, seus costumes, como se vestem, como se divertem, que planeta é esse, afinal? 

Geovani desceu o morro com algumas fotografias. Foge do lugar-comum de apresentar as mazelas de um povo sofrido ou de esmiuçar as guerras de facções e os abusos da polícia. São histórias contadas por quem anda por ali sem o glamour dos traficantes, sem capa de super-herói ou de salvador da pátria. É um moleque nos contando com naturalidade como é sua vida e a de seus parças.

No conto de abertura, “Rolézim”, Geovani dá um nó na gramática com seu dialeto. A linguagem falada vai para o papel, como se o revisor tivesse sido demitido. Estilo literário é estilo de vida. O texto ignora a existência de plurais ou de concordância verbal. No início, o leitor pode sentir dificuldade de compreender os parágrafos — sugiro que leia alto, a oralidade dará sentido a tudo. E sem muito esforço estará mergulhando na realidade paralela. Ali estão o sufoco de quem precisa descolar R$ 3,80 pra resolver o dia e o prazer de quem quer apenas passar o dia na praia jogando conversa fora e fumando uns baseados.

Água e azeite

A polícia está de olho, eles sabem disso, mais cedo ou mais tarde vão ter que negociar. Os playboys do asfalto mantêm distância deles; como água e azeite, não se misturam.

Num outro conto veremos que, mesmo sendo um bundão, o carinha da favela é temido apenas por sua origem social. Não se abate com isso, pelo contrário, até se diverte. Não sabemos até onde levará esse jogo, a narrativa de Geovani não deixa. Constrói o suspense com habilidade, leva o leitor à beira do abismo e o abandona. O fim abrupto da história deixa reticências que você preenche como bem entender.

O autor é um observador atento aos detalhes de cenários em que temos repulsa em deitar a vista. Expõe as miudezas de uma cracolândia sem se preocupar em julgar o que é certo ou errado. Não tem vergonha de nos mostrar o que ali se passa. Ninguém é extraterrestre, nem uma cracuda que pode lhe pagar um boquete em troca de cinco reais.

As relações em famílias desestruturadas expõem a convivência da criança com a mãe no lar abandonado pelo pai. Ou a do garoto com o pai, segurança que guarda em casa um objeto de desejo: seu revólver. Ele sabe que tocar na arma pode dar merda, mas não nos poupa desse frio na barriga.

É curioso também o olhar que Geovani lança do alto da Rocinha ou do Vidigal para os condomínios fechados. Não há preconceito ou amargura, apenas constatação. O contraste de alguém que desce o morro, saltando sobre o esgoto a céu aberto, e dá de cara com garotos tendo aula de tênis, é emblemático. Zuenir Ventura trata disso no seu Cidade partida. Ali um escritor do asfalto retrata a diferença de baixo pra cima; em O sol na cabeça, a mesma situação é narrada de cima pra baixo. O paradoxo carioca: o rico olha pra cima e o pobre olha pra baixo quando querem ver o outro lado da moeda. A ironia aparece quando somos apresentados aos problemas da geração Danoninho (ou Nutella, conforme o gosto): “Minha empregada faltou”, “Meu pai atrasou a mesada”, “O pneu do meu carro furou” (nem sabemos quem trocou…).

Expõe as miudezas de uma cracolândia onde ninguém é extraterrestre, nem uma cracuda que pode lhe pagar um boquete em troca de cinco reais

Acompanhamos o drama de um bandido ao ter que lidar com o sumiço de um corpo. Não é o dono do morro, e sim um soldado raso do tráfico, assustado por ter feito merda. A droga faz parte do cotidiano. Maconha, crack, cocaína… até mesmo balinhas de ecstasy. A lanterna está voltada para os usuários, que estão por toda parte. Você chega a sentir uma larica, quem sabe uma bad trip, no fim do livro. Mais uma vez, sem condenar nem passar a mão na cabeça, Geovani apenas fotografa.

O sol na cabeça é um excelente começo e dá vontade de ler mais. Ficamos no rebote, aguardando uma obra de mais fôlego, quem sabe um romance, em que seus personagens terão mais tempo de vida e poderão se expor melhor ao leitor. Por enquanto, minha sugestão é que você corra à livraria mais próxima e compre o seu exemplar. 

A utopia é sonhar com o dia em que Geovani Martins estará escrevendo também para aqueles que frequentam suas páginas. Aí o Brasil começará a ter jeito. Mas ainda temos muito chão pela frente.

Quem escreveu esse texto

Helio de La Peña

Ator e humorista, é autor de Vai na bola, Glanderson! (Objetiva) e coautor de Poliana Okimoto (Contexto).