Humor,

Piada de português?

Ricardo Araújo Pereira lista teorias e truques do humor e diverte ao compilar piadas tiradas de autores clássicos e contemporâneos

15nov2018

A ideia soa a nós, brasileiros, como uma anedota. Um humorista português escreve um livro que considera “uma espécie de manual de escrita humorística”. O título, A doença, o sofrimento e a morte entram num bar, é uma paródia direta de Platão e um ornitorrinco entram num bar, de Tom Cathcart e Daniel Klein. Neste, os autores passeiam por questões filosóficas com humor. Naquele, Ricardo Araújo Pereira flana pelo humor com um olhar teórico. Humorista talentoso, ele surgiu pra nós aqui do outro lado do Atlântico com o grupo Gato Fedorento, atração da TV portuguesa.

Tive oportunidade de assistir a um set de seu stand-up quando se apresentou no festival de humor Risadaria, em 2012, em São Paulo. Gostei muito, cacei em seguida vídeos dele na internet, li alguns de seus livros. Em comum a todos, o humor fino, carregado de referências literárias, muitas vezes eruditas, sem que o texto se contamine de arrogância ou se torne hermético, inacessível. Ricardo sai em busca de respostas para questões como: o que é o humor?, que tipos de humor existem?

Não se trata de um manual de autoajuda para humoristas. Não pretende ensinar ninguém a fazer humor. Se você pensava que era um atalho para se tornar um profissional do ramo, pegue a nota fiscal e volte à livraria. Ele não é um charlatão à procura de leitores crédulos. Se você pretendia descobrir qual o limite do humor, desista. Felizmente, Araújo Pereira escapa dessa cilada. Afinal, poucas coisas são mais enfadonhas do que o humor levado a sério.

Já nas primeiras páginas, o autor admite: “Faltam-me competências e vontade para definir rigorosamente humor, cômico, espírito, farsa, ridículo e até riso”. Diante dessa franqueza, o que esperar do restante do livro? Se você só quer se divertir com o tema, bons momentos o aguardam.

A proposta não é chegar a uma conclusão pétrea, mas percorrer teorias sobre o humor desde a Grécia Antiga até nossos tempos. Platão o considerava um traço de superioridade. Kant e Schopenhauer viam-no como a derrota da razão, a “transformação da expectativa em coisa nenhuma”. Deitado no divã de Freud, o humor se descobre uma válvula de escape das tensões. Se a dor não tem remédio, vamos rir dela para aliviar.

Platão poderia dar como exemplo as piadas preconceituosas sobre louras, que cumprem a função de colocar quem conta e quem ri num degrau acima da vítima da anedota. Kant contaria o caso do português que, ao ver uma casca de banana, suspira e lamenta que vai escorregar de novo em vez de, logicamente, desviar do caminho. Freud ilustraria sua tese com um meme sobre políticos corruptos de que não conseguimos nos livrar.

Equação

Há também o flerte com a matemática, na busca de uma definição: comédia = tragédia + distância, sendo a “distância” tanto física como cronológica. Quanto mais longe acontece o fato, mais chance temos de achar graça da desgraça. Creio até que muitos atritos vêm ocorrendo por causa desse conceito. Tome-se, por exemplo, uma anedota de cunho racista, antes contada em ambientes restritos às pessoas brancas. Hoje, com as redes sociais, ela chega aos ouvidos dos alvos do chiste e se torna intolerável. A equação, entendida de forma mais abrangente, explica um dos recursos mais utilizados nos shows de stand-up, a chamada “autozoação”. É a distância de si mesmo. O comediante se olha como se fosse uma terceira pessoa e tece comentários ácidos ou até cruéis. Recentemente, a Fifa reconheceu o título mundial de vários clubes brasileiros, como São Paulo e Flamengo. Até aí, tudo bem. O problema é que a Fifa reconheceu que o meu Botafogo também tem um Mundial. Trata-se do supermercado Mundial. Não resisti e compartilhei. Gol contra. Por que não rir? É muito boa!

A certa altura, RAP joga um balde d’água sobre os que ainda mantêm a esperança de aprender as manhas do ofício ao citar Woody Allen: “Fazer rir ou é fácil ou é impossível”. É como a bicicleta no futebol: se não leva jeito, nem tente. Não adianta contratar um explicador. Podemos não aprender a fazer humor, ainda assim nos divertimos quando o autor disseca alguns “truques” da arte de fazer rir.

O raciocínio humorístico é apresentado em seis conceitos básicos, analisados e ilustrados com exemplos que podem sair tanto das páginas de Shakespeare quanto de uma cena do Tarantino, do Monty Python ou do Seinfeld. O primeiro deles é “opor uma coisa a outra”. Juntar personalidades opostas é um recurso típico. O gordo e o magro, o certinho e o zoneiro, o bonzinho e o mauzinho… São inúmeras as possibilidades de tirar graça do contraste.

Em outro capítulo, o autor discorre sobre o riso que se obtém através da imitação. As crianças sabem muito bem como funciona. Humoristas, quando são questionados, argumentam que se trata de uma homenagem, já que reconhecem sua importância. Muitas vezes justificamos assim as paródias de novelas da Globo que fazíamos no Casseta & Planeta, Urgente!. Ali, o cenário, o figurino, a caracterização eram idênticos à cena original. Manoel Carlos criou Laços de Família, entramos logo a seguir com Esculachos de Família. A paródia ganhou força na popularidade da novela.

Tony Ramos

Tony Ramos era desenhado como um sujeito que espalhava pelos por onde passava. Por sorte, ele compreendeu a homenagem. Aqui, um outro conceito se fazia presente: aumentar uma coisa, princípio básico da caricatura. “O pior é que ele é assim mesmo!” — era um comentário que ouvíamos com frequência. Não que o Tony fosse tão peludo, mas o telespectador o identificava na descrição exagerada que fazíamos dele.

“Virar uma coisa de pernas pro ar”, “mudar uma coisa de lugar”, “repetir uma coisa” são outras noções abordadas por Ricardo Pereira. Não existe humor sem subverter “a coisa”, sendo a coisa qualquer coisa. O humor elimina o medo dos filmes de terror e gera o terrir. Desmoraliza a autoridade supostamente inatacável de um ditador, como fizemos muito durante a ditadura militar [1964-85], como os criadores americanos de South Park trataram o autoritarismo sagrado de Kim Jong-un. Até nos ajuda a compreender melhor um fato, quando distorcido pelo comediante.

O livro é breve, portanto não se dispõe a esgotar o assunto. É saboroso, não um estraga-prazeres. Também não guarda paralelo com as intermináveis resenhas esportivas que varam a madrugada destrinchando cada lance depois de um jogo.

Ao final, um alívio. Ainda bem que não pensamos em nada disso quando estamos lendo um romance ou vendo um filme engraçado. Quando o texto, a piada ou a cena são bons, apenas rimos. O humor não carece de D.R.

Quem escreveu esse texto

Helio de La Peña

Ator e humorista, é autor de Vai na bola, Glanderson! (Objetiva) e coautor de Poliana Okimoto (Contexto).