Literatura,

Pontes traiçoeiras

Em novo romance, Ian McEwan entrelaça aos personagens um retrato detalhado da Europa do século 20

10out2022 - 10h31 | Edição #64

“‘Você acha que a história está tentando nos dizer alguma coisa sobre as pessoas?’
Stephanie olhou para ele sem expressão ‘Não seja bobo, vovô. É sobre gatos e cachorros.’
Ele a entendeu. Vergonha arruinar uma boa história transformando-a numa lição.”

O singelo diálogo escondido próximo ao final das quase seiscentas páginas de Lições parece uma maneira útil de diferenciar o lançamento da vasta produção de Ian McEwan, que inclui dezessete romances e seis indicações ao Booker Prize, prêmio que conquistou com Amsterdam (1998). Seus enredos nunca foram ingênuos nem insinuaram lições aos leitores, mas parecem interessados em responder a alguma coisa, uma pergunta ou uma ideia fundadora. Mais curtos, livros anteriores como Na praia (2007) e Enclausurado (2016) são centrados em um evento apoteótico que espalha seus efeitos por toda a narrativa. Reparação (2002), por exemplo, se constrói a partir do trauma de um estupro. Mas o que dizer de Lições?

O protagonista Roland Baines é um contemporâneo e conterrâneo do autor, ambos britânicos, nascidos em 1948 e egressos da mesma escola primária, mas — como o autor explicita em seus agradecimentos finais — as semelhanças terminam aí. Baines é filho de um capitão do Exército e, aos onze anos, depois de passar a infância em uma base militar na Síria, começa sua educação formal no internato inglês onde conhece a “perfumada e rigorosa” professora de piano Miriam Cornell. Logo nas primeiras aulas, a bela mulher de 25 anos passa a provocar e seduzir o menino, em um jogo possessivo e doentio, que culmina em uma tentativa enlouquecida de forçá-lo, aos quatorze anos, a aceitar um casamento clandestino.

O evento, que já seria grave o suficiente para dominar a narrativa, é logo sobreposto a outro, em 1986, quando Baines, com 38 anos, é abandonado pela esposa, Alissa, que deixa para trás também o filho do casal, de apenas dois anos. Antes de partir, ela reclama que Cornell “mexeu com a fiação do cérebro” do marido, mas se mostra insensível aos impactos que ela mesma causará na vida de Roland.

Quando começam as aulas no internato, o jovem Roland tem uma espécie de epifania: “O tempo, que havia sido uma esfera ilimitada em que ele se movia livremente em todas as direções, da noite para o dia se transformou numa rua de mão única que percorria com seus novos amigos de aula para aula, de uma semana para a outra, até se tornar uma realidade inquestionável”. Esse fluxo e a avassaladora resignação com que o protagonista o aceita parecem ser um tema central da vida de Baines. Não à toa o livro é cortado por uma infinidade de rios: Esk, Orwell, Auer, Stour, Danúbio, Sena, Reno, Isar, Styx, sempre correndo por trás dos personagens. O protagonista os vê todos, mas não parece ser levado por nenhum. Nas aulas de piano com Cornell, ele tenta escapar do que acredita serem as amarras rígidas da música clássica e tocar um jazz livre, mas é duramente reprimido pela professora e amante. Depois, parece resignado a viver um presente para sempre apartado dos futuros idealizados com os quais ainda sonhará muito.

Correnteza

Como é característico de McEwan, o livro é também um relicário de toda sorte de referências clássicas, de citações em latim não traduzidas da Eneida a versos de Beethoven em alemão. Uma delas chama a atenção. Por duas vezes o narrador compara as paixões mais ardentes do protagonista ao “unicórnio num cercado”, tema da série de sete tapeçarias holandesas do século 15 intitulada A caça ao unicórnio que pertenceram ao rei Luís 12o da França e a La Rochefoucauld. A imagem do unicórnio desejado e preso, muito além do alcance de todos, inclusive de seus caçadores, parece um possível contraponto à imagem do rio.

De um lado da narrativa, vemos o desenrolar da história da Europa no século 20, arrastando não apenas o protagonista, mas também toda uma rede de personagens relacionados a ele, que por vezes lutam contra a correnteza e por outras se deixam levar. De outro, temos os desejos, às vezes secretos, às vezes reprimidos, mas sempre inatingíveis em seus cercadinhos dourados, tão realistas quanto um unicórnio e ao mesmo tempo capazes, sozinhos, de explicar toda uma vida, suas decisões erráticas e contraditórias, sua apatia e seus traumas. Uma força gravitacional cuja fonte se esconde em outro plano, acima ou atrás da narrativa.

O autor inunda páginas inteiras de eventos que vão da crise do Canal de Suez à pandemia de Covid

Se em alguns momentos a leitura perde o ritmo, é porque o foco no rio da História se torna obsessivo, inundando páginas inteiras com uma crônica histórica de eventos, da crise do Canal de Suez à pandemia de Covid, dos porões da Gestapo ao Brexit, lampejos de mundo real aliás muito bem-vindos na paisagem artificialmente atemporal criada pela literatura contemporânea, mas que em alguns pontos se tornam excessivos.

Para um livro tão permeado de rios, é significativo que apenas uma vez os personagens cruzem uma ponte e não surpreende encontrar ali, já próximo do final, um de seus trechos mais bonitos. A ponte aparece justamente quando Roland atinge a idade do autor, e surgem então questionamentos sobre a relação entre arte e vida, propósito e amor, desejo e realização. As pontes que ligam esses polos se revelam traiçoeiras e elusivas, como a gramática alemã, que o protagonista estuda em alguns momentos: “O tempo precede o modo que precede o lugar” lembra Roland, e depois esquece.

Podemos comparar Lições ao livro que Roland descreve à neta: “Tem um livro imaginário que quero ler. Tão interessante e tão imenso que acho que nunca vou terminar de ler ele todo”. Mas talvez seja mais apropriado — inspirando-nos no próprio Roland Baines — deixar que a conclusão sobre o livro corra sozinha por aí, como o amor do protagonista por Miriam Cornell, que ele descreve como um “Ding an sich, uma coisa em si própria”.

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.