Literatura Negra,

Memórias em azul

Poeta mineiro escreve sobre o tempo em versos povoados por lembranças e invenções

26out2022 - 11h50 | Edição #63

A vida não funciona como um relógio reúne 21 poemas do premiado poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira. Em encadernação artesanal, com capa montada a mão, um texto composto com tipos móveis e outros em linotipia e imagens impressas com carimbo, o livro guarda algo de antigo.


A vida não funciona como um relógio reúne 21 poemas do premiado poeta mineiro Edimilson de Almeida Pereira

O tempo é o cordão que liga os poemas. Em relógio antigo, dava-se corda e segurava-se o tempo na ponta dos dedos. Corda está também na etimologia das palavras coração e Cordisburgo, cidade natal do conterrâneo João Guimarães Rosa, que parece ser homenageado no poema que abre o livro. “O poeta planta um ipê, Rosa,” é uma espécie de dedicatória, epígrafe ou qualquer generosa forma literária na qual caibam versos como “O poeta, Rosa, planta/ e o faz com alegria./ — Uma árvore, um gesto/ que dure para sempre, talvez”. Nessa estrofe, está uma síntese do tempo feito semente e raiz nas três partes que organizam a maioria dos textos: “Rondó, tempo que escorre para um passado longínquo”; “Ao alcance da mão, tempo que pulsa intenso no hoje”; e “Mascarada, tempo que transborda em futuro”. Os tempos se atravessam e criam entretempos não lineares, já que a vida não funciona como um relógio, como anunciam o título e os versos do poema “O homem maduro”.

O que parece intocável, num passado remoto, torna-se vivo com a palavra restauradora

Autor de livros destinados a diferentes públicos, Edimilson costuma dizer que ao escrever poesia pensa em leitores complexos mergulhados em múltiplas experiências de vida e que, no ato da escrita, não faz distinção entre os públicos infantil, juvenil ou adulto. Sorte nossa! Transitar livremente pela poética profunda e provocadora do autor não deve ser privilégio. As camadas de leitura presentes em A vida não funciona como um relógio com certeza conversam com crianças, adolescentes, adultos e dialogam, principalmente, com estados de infância.

Ao lado de imagens vindas lá da primeira infância, em cenas de berço, brincadeiras de correr e de apanhar frutas, faz de conta e amarelinha, convivem perdas, lutos, esperas sem fim. Memória e invenção andam de mãos dadas entre esses poemas “ao alcance da mão”. O que parece intocável, num passado remoto, torna-se vivo ao alcance da palavra restauradora. Os reparos em uma fotografia antiga do pai provocam o adulto que desaprendeu a imaginar: “resta o mistério/ de abraçar no pai/ o menino de que me perdi”. Os traços de uma carta escrita a mão, já entregue, é tudo o que se tem, depois de um enorme desencontro. O cajueiro que se escalava na infância agora se ergue em sonho — “é o mesmo,/ mas outro”. É, então, pela palavra feita poesia que o tempo reinventa o relógio da vida, traz para perto o que parecia perdido, torna sonho o que em realidade já não se sustenta.

São “memórias de um homem azul”, como anuncia o subtítulo. Seria o homem azul uma espécie de homem-céu, homem-nuvem, homem-mar, um ser tornado paisagem? No poema “Paisagens” há um portão azul pelo qual todos passam, exceto “algo/que tendo se perdido de mim/ nunca passa”. Quem sabe o homem azul seja um homem-tinta-azul, feito de escrita, aquela que fixa a letra sobre o papel e a memória sobre as retinas?

Compromisso atemporal

Saramago falou em “pequenas memórias”, Manoel de Barros em “memórias inventadas”, Giambattista Vico em “memória dilatada”. Nas pequenas, inventadas, dilatadas memórias do homem azul cabe um relógio quebrado que vai para o lixo, um homem que nem percebe que se passaram trinta anos, a sombra de uma casa fantasma no bairro da infância e um coletor de morangos que vive a lamentar-se por temer o futuro. Como o trecho que abre o livro, intitula-se “Sem data” o trecho que o fecha; e é o poema “Compromisso” que anuncia o atemporal dessas memórias: “Quando eu tiver outra idade,/com tudo, enfim, resolvido, talvez/ o melhor esteja neste agora”.

Quem escreveu esse texto

Cristiane Tavares

É crítica literária, coordena a pós-graduação Literatura para crianças e jovens no Instituto Vera Cruz (SP).

Matéria publicada na edição impressa #63 em outubro de 2022.