Literatura infantojuvenil,

Meninos também voam

Criança-borboleta problematiza a construção de masculinidades pela violência e repúdio ao feminino desde a infância

27set2023 - 17h15 | Edição #74

O título Criança-borboleta talvez não chamasse tanta atenção se o personagem da capa fosse uma menina. Afinal, após décadas de luta feminista, às meninas é autorizado transitar um pouco mais entre a cultura masculina e feminina. Usamos calça desde que Chanel a popularizou na década de 20, e até mesmo a Disney já se rendeu às suas “princesas guerreiras”. O avanço foi grande, mas a luta feminista é imensa. E infelizmente a recíproca não é verdadeira. Um homem de saia no mundo ocidental ainda causa estranhamento. E quando ele assume o papel de cuidar da casa e dos filhos, enquanto a mulher assume o de provedora, frequentemente sua virilidade será questionada, em uma recorrente confusão entre convenções culturais e sexualidade.


Criança-borboleta, do francês Marc Majewski, traz uma contribuição a um movimento de reflexão sobre as masculinidades do início do século 21

Criança-borboleta, do francês Marc Majewski, traz uma contribuição a um movimento de reflexão sobre as masculinidades do início do século 21. A busca natural pela autenticidade em relação a um padrão de gênero se dá desde a ênfase gráfica da primeira palavra do livro: “eu sou uma borboleta”. Ele é. Já na folha de rosto, havíamos visto o quão borboleta o menino é estudando as formas e as cores do inseto entre tintas e um sorriso no rosto. E, na primeira página, as enormes asas de sua fantasia acompanham a leveza da dança de um menino feliz, que voa.

Ele sabe quem é, e gosta de ser assim. Mas demonstrar quem se é tem um preço no sistema patriarcal

É o próprio narrador quem afirma sua identidade. É o menino quem planeja, executa e conclui sua roupa de borboleta, com “um toque final”, ao colocar as antenas depois de tanta preparação e finalmente sair para o mundo. Ele sabe quem é, e gosta de ser assim. Mas demonstrar quem se é tem um preço no sistema patriarcal. Após sofrer a perseguição implacável de um grupo de meninos, que o acerta com uma bola e o assedia moral e fisicamente, ele abandona o que restava de sua própria fantasia. A metáfora das asas abandonadas é precisa. Ao descartá-las, o semblante do menino se transforma da tristeza vulnerável para a raiva violenta. Uma cena comum. “Homem não chora”, é uma frase que meninos ainda ouvem, em pleno 2023, num exemplo de como a cultura das masculinidades interfere na construção de uma identidade. Quantos meninos não são cotidianamente intimidados a esconderem suas vulnerabilidades com performance de violência?

Não é trivial manter a autenticidade em uma cultura em que homens rejeitam com tanta força o feminino. A pressão do grupo intimida aqueles de posicionamento contrário, como a menina no livro, que observa com olhar triste a agressão e se angustia, porém sem intervir. Na obra, a rejeição ao feminino acontece pelo escárnio. E não é assim nos grupos masculinos desde a primeira infância? “Ele é uma menininha”, as imagens parecem dizer em melodia. “Seja homem”, outra expressão corriqueira. Primeiro, a agressão moral. Depois, a física. E por mais que o menino tente lutar com suas próprias asas, a antena, o toque final colocado com tanto carinho, cai de sua fantasia. Todos o abandonam. E lhe resta a solidão.

Pedagogia afetiva

Para alguns pode parecer um caso de homofobia, mas a obra não trata de sexualidade, e sim de um repúdio ao feminino, num caso claro de misoginia. Trata-se de um episódio comum da disseminada pedagogia afetiva, descrita pela pesquisadora de gênero Valeska Zanello. A pedagogia afetiva ensina aos meninos que, para ser homem, há de se repudiar as mulheres e as características femininas, sendo o repúdio compreendido como o sentimento mais importante na construção da coesão de um grupo e da sensação de pertencimento identitário a ele. Além disso, aos homens é ensinada a necessidade de colocar esses afetos (ou repúdios) à prova, a todo momento, desde a primeira infância. O livro trata assim de um episódio corriqueiro na construção das masculinidades do mundo ocidental: “não se nasce homem, torna-se homem”, enfatiza Zanello.

Daí o impacto desta obra ao ser publicada em um dos países com maior índice de feminicídio do mundo e masculinidades tão adoecidas. Na história, cabe ao pai o papel de reerguer o menino, um pai com seu boné, barba, camisa xadrez, chave estrela no bolso, quase um lenhador. O fato de a autorização para o uso da fantasia vir dele suaviza o conflito do livro. Não é uma mãe ou uma avó que vai até o quarto do menino levar a comida e consolá-lo. Não é a mulher que o autoriza. Na pedagogia afetiva da construção das masculinidades, quem avalia os homens são os próprios homens — e não as mulheres. E esse que autoriza o comportamento do menino é um modelo de masculinidade, conferindo maior força para que sua autorização não seja contestada.

O pai assume assim um papel central na criação da ponte entre as masculinidades e o feminino. Um pai ao mesmo tempo carinhoso e atento, que mais adiante na história rompe com fronteiras de gênero ao costurar as asas do filho e apoiá-lo com naturalidade no desejo pela fantasia considerada de menina. Seria o pai o homem contemporâneo que fez as pazes com o feminino? No livro, não há sinal da mãe. Mas a casa apresenta a convivência natural de elementos masculinos e femininos, como as delicadas louças floridas e ramalhetes de flores perfumando a sala. E é só depois do abraço desse pai que o menino retoma a força para ser quem é. Infelizmente, uma cena rara em um país como o Brasil. Afinal, quantos pais também não foram um dia esse menino?

É um livro de poucas palavras. Mas cujas imagens revelam novas camadas a cada releitura. Quando o menino assume novamente suas asas para o mundo, o cenário apresenta algumas mudanças simbólicas. Seu pai havia incluído um capacete na fantasia, de maneira que se a bola o acertasse, ele não se machucaria: não basta ele ser compreendido em casa, é preciso prepará-lo para o que encontrará no mundo. Quando o menino reencontra o grupo que o assediou, a bola que anteriormente acertou a cabeça da criança-borboleta não está mais nas mãos dos meninos, mas nas da menina. Ou seja, na mão da mulher, não dos homens. E quando ela o vê ignorar o escárnio dos pares e abrir suas majestosas asas com orgulho, a menina descarta a bola e junta-se a ele no voo. Ambos estão livres. 

Quem escreveu esse texto

Renata Nakano

É idealizadora do Clube Quindim, clube de assinatura de livros infantis.

Matéria publicada na edição impressa #74 em setembro de 2023.