Literatura infantojuvenil,

Um planeta possível 

Livro da premiada ilustradora portuguesa Eduarda Lima leva leitores a uma viagem por lugares de natureza deslumbrante para refletir sobre o futuro possível para as grandes cidades

26abr2024 - 18h15 • 26abr2024 - 18h30 | Edição #80

Nessa época de poluição sonora e do aumento dos heavy users de redes sociais e demais tecnologias, um livro dá vazão ao silêncio e à contemplação da beleza das paisagens naturais e das delicadezas que surgem nos grandes centros urbanos. No infantojuvenil Que planeta é este? (Pequena Zahar), a escritora e ilustradora portuguesa Eduarda Lima, vencedora do Prêmio Nacional de Ilustração de Portugal, retoma sua abordagem acerca da sustentabilidade, também presente em seu livro de estreia, O protesto (2021), mas desta vez com um novo subtexto: as cidades verdes. 

Em busca de conexões reais após um apagão, moradores de uma metrópole voltam seus olhos para objetos que foram deixados de lado, como as enciclopédias e guias da natureza. As ilustrações que ocupam páginas inteiras transportam o leitor para paisagens no planeta que os personagens parecem ter esquecido serem reais. Tentando recriá-las no cotidiano, os habitantes projetam coletivamente um novo modelo de viver na cidade.

Em entrevista por e-mail para a Quatro Cinco Um, a autora conta um pouco mais do processo de escrever sobre preservação ambiental para os pequenos e a proposta de construção coletiva de espaços urbanos mais próximos à natureza.

A escritora e ilustradora portuguesa Eduarda Lima (Divulgação)

De onde veio a ideia de apresentar o conceito das cidades verdes para o universo infantil?
Quando comecei a pensar na criação deste segundo livro, em resposta ao desafio lançado pela minha editora portuguesa (Carla Oliveira, da Orfeu Negro) para continuar a desenvolver o mesmo tema do primeiro, queria tentar uma abordagem diferente. O protesto foca-se nos problemas da degradação ambiental e a perda de biodiversidade causadas pelo impacto da actividade humana. Em Que planeta é este? quis ir para além da reflexão sobre os problemas e começar a abrir janelas para potenciais soluções.

Queria também que as crianças se sentissem próximas a estas ideias de resposta e que não fosse um exercício complicado de propostas demasiado distantes e abstractas. A maioria da população vive, e continuará a viver, em centros urbanos, que são também os maiores emissores de CO₂, criando cidades mais poluídas e quentes. Esta é a realidade mais próxima e com o impacto mais negativo no dia a dia das crianças de hoje. Mas não tem de ser assim. Há numerosos estudos e projectos-piloto que demonstram que é possível melhorar a qualidade do ar e reduzir drasticamente as temperaturas nos centros urbanos através da criação de cidades verdes, invertendo a situação actual. 

Eu quis “plantar” esta visão de cidade verde no final de uma viagem pelo mundo através de lugares na natureza que têm beleza excepcional, para a inserir nesse mesmo contexto e sugerir que as cidades — este habitat humano tão pouco natural — também se pode tornar num lugar maravilhoso e saudável, com a participação de todos.

Como você enxerga o papel da natureza no futuro das cidades?
A natureza tem de estar muito presente no futuro das nossas cidades, não há outra alternativa. A tendência global é de que as cidades crescerão cada vez mais e a única maneira de as tornar sustentáveis e suportáveis, preparando-as para as ondas de calor provocadas pelas alterações climáticas, é de introduzir mais árvores, mais plantas, mais parques urbanos, de modo a funcionarem como uma climatização natural, reduzindo as temperaturas, absorvendo o calor e as emissões nocivas. Ruas com grandes coberturas de árvores têm diferenças de temperaturas de 5 a 6 graus, comparadas com outras cobertas apenas de asfalto. 

Penso que não é realista achar que se vai conseguir providenciar isolamento térmico adequado para todas as habitações nas cidades em tempo útil, mas temos uma tecnologia incrível, natural e gratuita ao nosso dispor: as plantas. Elas filtram, refrescam e purificam o ar, para não falar no impacto psicológico e visual muito positivo que geram. Os benefícios para a saúde mental do contacto com a natureza estão mais do que comprovados e nem todas as crianças têm acesso a passeios para fora dos centros urbanos a zonas de paisagem natural. Podemos trazer mais natureza para as cidades através de hortas urbanas, com a vantagem da criação de um modelo de economia circular e de autossustentabilidade alimentar que terá impactos positivos tanto ao nível ambiental como social e económico. A boa notícia é que há muito que podemos fazer a nível individual, local e comunitário e que já vai contribuir para fazer uma enorme diferença. 

Há um aumento de ansiedade climática entre crianças e adolescentes. Qual o impacto de escrever sobre o tema? 
A ecoansiedade é um tema que me preocupa bastante, especialmente entre os mais jovens. Se nós adultos já temos alguma dificuldade em lidar com este sentimento, para uma criança ou adolescente isso pode ter uma dimensão bem mais assustadora e paralisante. Essa foi precisamente uma das razões pelas quais eu queria abordar a questão ambiental de uma forma mais positiva e construtiva, com uma visão de um futuro optimista e esperançoso, talvez um pouco utópico, mas ainda assim algo a que podemos aspirar e facilmente imaginar. 

Acredito que é importante projectar essas ideias de futuro e de soluções alternativas à realidade sombria que se avizinha, para despertar desde cedo uma atitude mais confiante e empoderada e que conduza a uma consciência ambiental mais proactiva. Saber que podemos activamente fazer qualquer coisa para mudar o que está mal e contribuir positivamente para uma situação, fazendo a diferença, anula os efeitos paralisantes de uma crise que parece demasiado complexa e fora do nosso controlo. Essa é uma mensagem que não podemos parar de transmitir.

Ilustrações de Eduarda Lima (Divulgação)

Como crianças e adolescentes podem promover um mundo mais sustentável e consciente?
As crianças são os adultos de amanhã, por isso não há dúvida que temos que investir agora numa educação ambiental consciente e sustentável. Isso obviamente não nos iliba de fazer tudo o que for possível, agora, no presente, para tentar reparar e reverter a crise climática que atravessamos. 

Não é justo imputar esta crise às gerações futuras, educando-as na esperança que resolvam os problemas que se geraram nas últimas décadas através de um consumo irresponsável e de destruição sem precedentes dos recursos e biodiversidade do nosso planeta. Esta responsabilidade está do nosso lado, mas, para além disso, cabe também a nós transmitir e nutrir desde a infância o respeito e vínculo emocional com o mundo natural. As crianças só vão querer proteger no futuro aquilo que cresceram a amar. Isto faz-se através de experiências directas na natureza, no contacto com o mundo animal, mas também através da educação, da cultura e da arte. É na infância que se forjam esses valores e laços primordiais. A literatura infantil tem o seu papel neste contexto.

Suas ilustrações nos levam a grutas, desertos, mares e até à Floresta Amazônica brasileira. Você conheceu esses lugares?
A minha ideia era fazer uma criança viajar por lugares maravilhosos que, por mais incríveis que pareçam, realmente existem no nosso planeta. Quis recriar um pouco a sensação que temos quando vemos aqueles documentários sobre a natureza, cada vez mais sofisticados, e que nos deslumbram. Queria que essa viagem tocasse em cada um dos cinco continentes e passasse por lugares contrastantes e, de alguma maneira, também frágeis ou vulneráveis às presentes ameaças da crise climática. 

Gosto de abrir portas de curiosidade nos livros, e convidar as crianças a querer investigar mais sobre o que é sugerido nas suas páginas. A ideia da viagem era, por um lado, conquistar pelo sublime, mas também questionar o nosso próprio lugar neste contexto, e “regressar à casa” com uma nova visão da nossa “casa comum” — o planeta Terra. Eu não conheci estes lugares mas já “viajei” até eles através de enciclopédias e documentários que sempre me fascinaram. Temos menos impacto ecológico ao viajar pelas imagens, mas também gostaria de um dia poder conhecer alguns destes lugares.

Como desenvolver o interesse pela observação da natureza em crianças que, cada vez mais, crescem rodeadas por aparelhos eletrônicos?
A ideia de nos sacudirmos da inércia e torpor em que tão frequentemente nos vemos mergulhados hoje em dia, com a omnipresença das tecnologias, tão eficientes a nos cativar e agarrar e que nos desviam a atenção das coisas mais belas e simples, foi o que me levou a pensar no “apagão” do início da história.

Às vezes precisamos de nos “desligar” deste modo actual de viver para nos podermos “ligar” de novo ao mundo à nossa volta. Isto é difícil para nós adultos, imaginem como será para crianças que ainda se estão a formar e não têm a maturidade cerebral para lidar com as “tentações” do novo mundo digital, em constante competição com o mundo real e analógico? Acho que o que temos a fazer é possibilitar ao máximo essa ligação com o mundo natural, essa curiosidade espontânea e genuína que é muitas vezes apagada e abafada pela exposição exagerada ou prolongada aos aparelhos electrónicos. Cabe a nós criar o mais frequentemente possível esses pequenos “apagões nas nossas casas, nas nossas rotinas familiares e abrir os olhos ao nosso redor.

Que livro você gostaria de ter lido na infância?
Gostaria de ter lido livros biográficos direccionados para a infância, como há agora muitos. Quase não existiam no meu tempo de criança e acho muito interessante a ideia de dar a conhecer as histórias de vida de pessoas reais que tiveram um impacto no mundo, que podem inspirar e empoderar crianças no mundo inteiro.

Como podemos incentivar o hábito de leitura nas crianças?
Lendo com as crianças! Nunca abdico da história à hora de deitar a minha filha. Mesmo agora que ela já lê sozinha, partilhamos sempre este momento as duas. E lendo nós próprios. As crianças também criam hábitos por imitação, ou seja, se vêem adultos a ler à sua volta regularmente, normalizam e internalizam esse comportamento. De resto, há um importante papel nas escolas e bibliotecas na promoção da leitura que é fundamental.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #80 em abril de 2024.