Literatura infantojuvenil,

O camaleão do livro ilustrado

O brasileiro Renato Moriconi é conhecido pela versatilidade de seu estilo, que se adapta a todo tipo de narrativa

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

É comum encontrar ilustradores de livros infantis com um estilo pessoal marcante. Quem não reconhece o traço inconfundível de Ziraldo, Eva Furnari e Mariana Massarani? São poucos, portanto, que são conhecidos pela versatilidade de seu estilo. É o caso de Renato Moriconi, um dos grandes autores contemporâneos de álbuns ilustrados. Em sua obra, é muito difícil identificá-lo por um estilo próprio — extremamente versátil, ele cria traços e cores que se adaptam para servir à narrativa. E, nessa pluralidade de estilos, vemos surgir não apenas diferentes técnicas, mas as mais variadas estéticas visuais.

O diálogo entre palavra e imagem é da própria natureza do álbum ilustrado, e sua interdependência é tão intensa que, se tirássemos as linguagens verbal ou visual, a leitura seria outra. Nesse sentido, para explorar as potencialidades desse tipo de livro, é preciso que o autor tenha consciência sobre a dança entre as duas linguagens, por vezes complementando uma à outra, ou então contradizendo-as, criando assim ironias, metáforas e outras figuras de linguagem. É preciso, antes de tudo, que o ilustrador seja leitor, como diz Moriconi à Quatro Cinco Um: “Para mim, ilustrar é antes de tudo ler. Mais que desenhar, é ler aquele universo. É habitá-lo. E chegarei a ele com toda a minha bagagem. É ela que irá dialogar com o universo que aquele texto criou”. 

Nesse sentido, o que dizer é tão importante quanto como dizer. O mesmo acontece na linguagem visual: olhar os diferentes estilos de Moriconi no contexto de cada obra revela sua consciência sobre esse tipo de criação, fortalecendo a relação entre as duas linguagens, ao permitir um passeio pelos mais variados tipos de livros. Segundo Moriconi, a versatilidade inicialmente não foi proposital: “Eu sofria com isso, me sentia cobrado por não conseguir me fixar a um estilo único e segui-lo nos diferentes projetos”. De fato, é na versatilidade como artista visual que se encontra grande parte da potência de suas obras. 

Objeto livro

Na trilogia de livros de imagem apelidada de “Retratos”, com as obras Bocejo, Telefone sem fio e Caras animalescas, uma parceria com Ilan Brenman (Companhia das Letrinhas, 2010-13), o impacto da leitura se dá pela estética escolhida, em referência a grandes retratistas renascentistas, utilizando óleo e acrílico em muitas camadas de tinta. Se tal estilo, tão reverenciado pela “beleza” que o senso comum enxerga, fosse trocado pelo trabalhado em Uniforme (Gato Leitor, 2020), o impacto da leitura se perderia. E vice-versa.

É justamente no contexto da obra que se explica a força que determinada estética desempenha na leitura. Igualmente, se o livro Uniforme apresentasse a mesma estética da famosa trilogia, a obra dificilmente funcionaria, e o jogo com o leitor se perderia em meio a tantas informações. Nesse caso, é na economia de traços e cores que Moriconi arquiteta o diálogo entre palavra e imagem.

Tal versatilidade caminha também por uma consciência sobre o objeto livro, uma tecnologia já tão conhecida que seu modo de funcionamento já tornou o livro um objeto transparente: não percebemos mais as pausas nas quebras de páginas e de linhas e sua influência no formato na leitura. Mas Moriconi pensa no projeto como um todo, usando as quebras de páginas para prolongar determinado efeito poético e até mesmo deixar que, no silêncio de uma página dupla preta, vazia, a angústia do leitor reverbere, impedindo-o de obter alívio virando a página, como ocorre no livro Os invisíveis, parceria com Tino Freitas (Casa da Palavra, 2013). 

É o formato vertical de Bárbaro (Companhia das Letrinhas, 2013) que permite a brincadeira do sobe e desce que imita um carrossel. E é o tamanho da trilogia “Retratos” que faz a pintura renascentista se destacar e ganhar toda a sua força na leitura. É no formato minúsculo, sanfonado, de Tranças (Pipoca Press, 2015) que Moriconi experimenta o “livro para se colocar na parede”. Tamanha versatilidade também pressupõe assumir riscos ao não se fixar em um estilo consagrado: “São sempre apostas. Dia de sol foi uma.

Nessa obra, apostei na simplicidade. Mas hoje vejo no projeto gráfico questões que já não considero bem resolvidas, que atrapalharam a compreensão daquela simplicidade. Por isso, estou atualmente trabalhando na nova edição, que sairá em breve pela Editora Jujuba”.

Todas essas obras tão distintas, com os mais diferentes estilos de imagem e formatos, fazem com que Moriconi possa ser chamado de camaleão do álbum ilustrado, que — como seu personagem Clóvis, em Uniforme — se adapta aos mais diferentes ambientes, tentando se enquadrar, até que faz sua grande descoberta e vive livre como todo camaleão.

 Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Renata Nakano

É idealizadora do Clube Quindim, clube de assinatura de livros infantis.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.