Identidades, Literatura infantojuvenil,

Em nome dos filhos

A homossexualidade e a transição de gênero de jovens e adolescentes em dias de masculinidade catastrófica

01out2022 - 04h51 | Edição #62

  
Cena do documentário Limiar, de Coraci Ruiz [Reprodução]

A cineasta paulista Coraci Ruiz tem dois filhos, Noah e Martim. Quando Noah entrou no ensino médio, dois de seus amigos, que frequentavam sua casa — um ambiente aberto, referência para os adolescentes — passaram pelo processo de transição de gênero. A situação, a cada dia mais comum em escolas e famílias do mundo inteiro, ganhou intensidade quando Coraci e seu companheiro foram chamados pelo filho para uma conversa.

“A gente não imaginava que Noah passaria por um processo parecido”, conta a mãe. Na época, ela estudava documentário autobiográfico e seu orientador pediu que incluísse um recorte de gênero na pesquisa. Começou a ler sobre feminismo e teoria queer.

Para Coraci, a questão de o filho não ser uma pessoa cis, isto é, identificada com o gênero culturalmente associado a seus genitais, não foi um problema. “O que mais me abalou foi quando ele começou a demandar uma transição física e me colocou nesse lugar de eu ter que decidir, porque ele ainda era menor de idade.”

A primeira demanda de Noah foi fazer uma cirurgia, mais tarde negociada para um caminho mais convencional: começar pelo tratamento de testosterona. Coraci e o filho chegaram ao Ambulatório de Gênero da Faculdade de Psiquiatria da Unicamp, em Campinas, onde a família mora. Então ela assinou os papéis e autorizou o tratamento hormonal.

Apesar de considerar importante estar amparada por um programa de saúde pública, Coraci reconhece os questionamentos dos movimentos LGBTQIAP+, que veem um excesso de controle e de medicalização no processo. Para esses movimentos, outros tratamentos hormonais, como tomar contraceptivos, não passam por esse tipo de controle por não desafiarem o sistema heteronormativo.

Noah tomou hormônio por um ano e meio e então parou. Quando começou a transição e contou aos amigos da escola que era um menino trans, um deles o colocou imediatamente numa caixinha de masculinidade tóxica, algo que elu sempre rejeitou. Noah é uma pessoa não binária.

A história da transição do jovem é contada no documentário Limiar (2020), dirigido por sua mãe, em que Coraci expõe seus dilemas em relação ao tratamento hormonal e à mudança de nome social. Quando Noah foi se matricular em uma nova escola de ensino médio, havia o campo “nome social” no formulário de matrícula. “Não era uma coisa óbvia, trata-se de uma conquista dos movimentos LGBTQIAP+. E é algo crucial para um adolescente”, diz Coraci.

Trocar a chave

Para o cineasta e roteirista Gustavo Moura, seu filho único concluiu uma etapa da transição quando se tornou Luís para todo mundo. Hoje com dezesseis anos, Luís nunca se adequou ao modelo feminino. “Durante a infância, embora às vezes falasse que queria ser menino, estava mais tranquilo com o corpo dele. Na pré-adolescência ficou mais difícil, o corpo muda, começa a cobrança para se encaixar em algum padrão”, conta o pai.

Quando Noah contou que era um menino, um amigo o colocou numa caixinha de masculinidade tóxica

Então veio a pandemia. Depois do primeiro ano de isolamento social, com quase quinze anos, Luís foi conversar com o pai sobre a transição. “Ele já havia pesquisado muito na internet, chegou para a gente com todo o repertório. Quando me falou, não foi completamente surpreendente, mas na época eu tinha uma sensação — errada — de que [a transição] poderia estar sendo precipitada”, diz Gustavo.

No momento em que Gustavo começou a enxergar o filho como menino, a chave mudou: “É paradoxal: é a mesma pessoa, só que agora do gênero masculino. Não é ‘morreu uma pessoa e agora estou diante de outra’, como muitos pais relatam”.

Luís é transgênero binário, isto é, ele gosta de ser visto como menino sem que ninguém fique em dúvida ou fazendo perguntas. Tem cabelos, corpo, atitudes de menino. Usa uma faixa elástica para apertar os seios e faz exercícios de voz.


Cena do documentário Limiar, de Coraci Ruiz [Reprodução]

O mais difícil para o pai foi a agressividade do filho no início do processo. “Ele começou a desenvolver uma espécie de masculinidade tóxica. Rechaçava coisas associadas ao feminino de modo exagerado e reforçava o pior que pode haver no masculino.” Foi um alívio o início do fim da transição — de certa forma, trouxe de volta o filho que conhecia.

Masculinidade catastrófica

Masculinidade mais que tóxica, catastrófica, é o tema de Quebrando mitos, documentário de Fernando Grostein Andrade e Fernando Siqueira lançado em setembro deste ano. Andrade explica: a masculinidade tóxica causa dano ao indivíduo; a catastrófica afeta a comunidade, o país, o planeta, o coletivo. O documentário, que em uma semana ultrapassou 500 mil visualizações no YouTube, mostra os efeitos da trajetória de Bolsonaro, intercalada com a história de Andrade e sua aceitação como homossexual. “Nasci no começo dos anos 80, a tv recheada de piadas homofóbicas, a pressão para ‘ser homem’. Mesmo sempre tendo estudado em escolas progressistas, não tive acesso a uma educação sexual que incluísse a diversidade”, comenta o diretor.

Para Andrade, é importante para o jovem LGBTQIAP+ o acesso a educação e informação e “a exposição a conteúdos e representações na mídia que nos humanizam. É uma questão de saúde mental”, afirma. 

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Iara Biderman

Jornalista, , editora da Quatro Cinco Um, está lançando Tantra e a arte de cortar cebolas (34)

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.