Gênero, Literatura infantojuvenil,

Sereias corajosas

Livro infantil que reflete sobre a construção social da identidade de gênero chega ao país de Bolsonaro

01out2021 - 08h17 | Edição #50

Toda literatura é tanto uma forma de arte quanto um veículo ideológico. Na literatura infantil, utilizada há séculos para educar e socializar um grupo especialmente oprimido, a demarcação das estruturas de poder tradicionais pode ser ainda mais intensa. Simultaneamente, é nesse tipo de obra que a ideologia presente na tensão entre o texto, o contexto sociocultural e as intenções dos autores encontra um leitor com olhar menos condicionado, que criará significado a partir de um repertório distinto do de um adulto, e provavelmente mais livre de amarras e preconceitos. Talvez por isso a premiada obra Julián é uma sereia, que finalmente chega ao Brasil pelo selo Boitatá, seja menos transgressora para as crianças do que para os adultos que compartilharão essa leitura.

A obra conta a história de Julián,  um menino negro criado pela avó que, ao voltar da aula de natação, cruza com três lindas mulheres negras fantasiadas de sereias. Julián se imagina nesse lugar e decide: “Vó, eu também sou uma sereia”. Ao que ela responde: “E eu vou tomar um banho. Comporte-se!”. A delicadeza das páginas seguintes, silenciosas no texto verbal e potentes na imagem, mostram o pequeno colocando em seu cabelo folhas de samambaia e flores, passando um batom vermelho como o das mulheres que viu no metrô e prendendo na cintura a cortina esvoaçante da sala, formando uma bela cauda de sereia. É a linguagem corporal do personagem que nos diz quão feliz Julián está, vivenciando o deslumbramento de saber quem é, era ou poderia ser. E é também a imagem que mostra sua apreensão e medo com o silêncio inicial de sua avó ao vê-lo, que se torna extremamente longo durante o breve momento em que ela sai da sala — até  retornar com um colar de pérolas para combinar com a roupa, indicando finalmente sua aprovação à situação.


Ilustração de Jessica Love (Divulgação)
 

Uma cena comum

Na ausência de um adulto, Julián explora o mundo e se veste ao jeito de sua sereia, cena que pode parecer transgressora para os conservadores, mas é muito comum na realidade das famílias. Relatos sobre crianças que gastaram todo o batom da mãe extrapolam gêneros, até porque a demarcação binária de menino e menina é construída socialmente, e crianças pequenas nem sempre sabem que estão “subvertendo” aquelas normas porque ainda não as absorveram totalmente. Quem convive com um grupo de pais já ouviu alguma versão dessa história, seja com batom, colar ou sandália de salto. A principal diferença nessa obra, que nos sensibiliza e surpreende, é a autorização do detentor do poder, que não só permite como acolhe Julián em sua liberdade e exploração do mundo. É a autorização da avó no lugar da esperada e óbvia censura que nos surpreende e pode fazer com que muitos adultos tenham medo desse livro. É nesse momento que a literatura infantil subverte sua função opressora, pelo menos em relação às normas sociais de identidade de gênero — afinal, para o final feliz acontecer, ainda é preciso a aprovação da avó, numa clara relação de poder entre adulto e criança, da qual raramente fugimos na literatura para crianças e jovens.

A autorização da avó no lugar da censura pode fazer com que muitos adultos tenham medo desse livro


Ilustração de Jessica Love (Divulgação)
 

A questão que fica é: para essa obra chegar a leitores que ainda não têm as normativas de gênero tão enraizadas, ela precisa da autorização do adulto que fará a leitura compartilhada e que provavelmente vê o tema como um tabu, vide a taxa de morte por homofobia, transfobia e feminicídio no Brasil. E mais: no mercado editorial brasileiro, para alcançar escala, a obra precisa ainda da autorização de adultos que detêm poder na educação pública e que escrevem editais de compra de livros para o Plano Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) — que neste exato momento faz a seleção de Obras Literárias da Educação Infantil para 2022. Sob a veste de diversidade, o edital desta edição diz: “As obras observarão os princípios éticos necessários à construção da cidadania e ao convívio social republicano, devendo […] promover positivamente a imagem dos brasileiros, homens e mulheres, em suas culturas, origens, raças, cores, idades e demais particularidades” (grifo meu). Talvez Julián, em sua exploração livre do mundo, não se encaixe nessa visão binária de homem e mulher. E, dependendo do adulto que analise a obra para esses editais, talvez a fantasia de sereia de Julián não “promova positivamente” a imagem desses “homens e mulheres”.

A censura econômica é das mais poderosas no Brasil. Sendo o governo o principal comprador de livros no país, é uma grande alegria ver a coragem da Boitatá em publicar tal obra. Jessica Love, após cinco anos trabalhando no livro, nunca esperou que ele fosse publicado — que dirá num país cujo presidente alega que seus filhos não são gays porque tiveram “boa educação”. A ideologia está presente em qualquer obra literária. Que bom que Julián é uma sereia chegou ao Brasil!

Este texto foi feito com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Renata Nakano

É idealizadora do Clube Quindim, clube de assinatura de livros infantis.

Matéria publicada na edição impressa #50 em agosto de 2021.