Literatura em língua francesa,

Tsunâmi das Antilhas

Os escritos de Suzanne Césaire permitiram que uma identidade negro-caribenha e anticolonial surgisse na literatura

01dez2021 - 04h51 | Edição #52

Em um projeto tradutório sobre poesia no Caribe publicado na revista escamandro, André Capilé comenta que a difusão e a recepção da poesia negra caribenha “foi bem mais morna que deveria, se comparada ao incensamento da poesia preta estadunidense” — o que pode ser estendido para a literatura em geral como um raro bloqueio ao sistema literário, como Capilé também comenta citando Frantz Fanon, Édouard Glissant e Aimé Césaire. Este último, poeta, dramaturgo, ensaísta e ideólogo da negritude — corrente político-literária que agregou escritores negros de países colonizados pela França, cujos objetivos são a valorização da cultura negra em países africanos ou de populações negras na diáspora. O próprio termo negritude (posteriormente aprofundado por Léopold Sédar Senghor) já é uma dobra na língua do opressor: o termo “nègre”, em francês, que era utilizado pejorativamente em referência a pessoas negras, passou a ser usado para empoderá-las. A revolução passa pela linguagem: é uma grande camuflagem.

Se esse silêncio já é gritante, quando se trata de autoras mulheres e corpos dissidentes ele é ensurdecedor. Apesar de ser comum se falar principalmente dos pais fundadores do pensamento negro-caribenho e de as contribuições de Suzanne Césaire terem passado praticamente despercebidas por muito tempo, não podemos ignorar a evidente vanguarda de seu pensamento afiado para o processo de conscientização das pessoas negras não só na Martinica como em todo o Caribe e em Paris — e agora no Brasil.

Com a publicação de A grande camuflagem, em tradução de Júlio Castañon Guimarães, esse abismo finalmente vai começando a se romper. A importância dessa tradução não é apenas porque Suzanne era uma mulher caribenha, mas porque seus escritos permitiram que uma identidade negro-caribenha — e, portanto, anticolonial — emergisse na literatura e, a partir disso, também um entendimento e um senso de pertencimento entre a diáspora africana. Com a publicação de suas ideias entre 1941 e 1945, anos de guerra, as futuras gerações de caribenhas e caribenhos puderam olhar para si mesmos com um olhar não francês.

O livro é composto de sete artigos escritos por Suzanne que foram originalmente publicados na ilha da Martinica na revista Tropiques, a mais importante revista literária das Antilhas — criada por ela (que, não raro, tem o nome suprimido como cofundadora da revista) e por Aimé Césaire (seu marido), René Ménil, Aristide Maugée e Lucie Thésée. Nesses textos podemos compreender como suas ideias encontram ressonância nos debates contemporâneos sobre o Caribe, seu povo e as culturas que o compõem.

Além dos artigos, o livro conta com prefácio de Daniel Maximin, poemas para Suzanne Césaire de Aimé Césaire, Ina Césaire (filha de Suzanne e Aimé), uma carta de André Breton, posfácio de Lilian Pestre de Almeida, com comentários de cada artigo e descrição detalhada dos números da revista Tropiques, e ainda dois documentos da censura à revista e a resposta brilhante de Suzanne.

Poesia canibal

Nascida Suzanne Roussi em 11 de agosto de 1915, na ilha da Martinica, filha de uma professora e um operário de uma fábrica de açúcar, após terminar o ensino médio foi estudar literatura em Toulouse e depois em Paris, onde conheceu Aimé Césaire, com quem se casou em 1937. O casal voltou para a Martinica em 1939. Esse período também é marcado pela passagem do escritor surrealista André Breton pela ilha, em 1941, o que influenciou profundamente o pensamento e a escrita de Aimé e Suzanne Césaire — o surrealismo é um instrumento na divulgação de suas vozes e na reivindicação de liberdade, escreverá em seu penúltimo artigo, “O Surrealismo e nós”.

Os artigos publicados na revista Tropiques mostram o despertar de uma consciência sobre o que deve ser a literatura martinicana, instaurando novas perspectivas para uma literatura representativa das realidades caribenhas, escrevendo diretamente do Caribe, apelando para que o povo caribenho se encontre, admita o que é e, mais importante, ouse se perguntar o que quer ser.

Em “Miséria de uma poesia: John-Antoine Nau”, em que reflete sobre a necessidade da autenticidade da expressão literária da Martinica, Suzanne decreta “a morte da literatura dudu”, aquela que se utiliza de maneirismos convencionais franceses, e sentencia: “A poesia da Martinica será canibal ou não será”.

“A grande camuflagem”, artigo que dá título ao livro e encerra o último número da Tropiques de 1945, é também o seu último texto publicado até sua morte, em 1966. Suzanne continuou trabalhando como professora, na Martinica e no Haiti, além de ser uma ativa feminista. Impossível para mim — enquanto também mulher, professora e mãe — não me perguntar: teria continuado Suzanne Césaire seu destino de escritora se não fosse mulher e mãe (de seis)? Sua filha Ina conta que a mãe lhe disse: “A sua será a primeira geração de mulheres que escolherá”. De todo modo, sua escritura aqui está, perene.

O surrealismo é um instrumento para reivindicar a liberdade, escreve Suzanne

Daniel Maximin a chama muito apropriadamente: ilha-mulher das Antilhas. Abrimos esse livro e é possível ouvi-la desde as páginas-mares e sua “verdadeira dimensão de conchas” lançando novamente seu apelo no último artigo, incrivelmente poético, desta vez a todo o arquipélago — um chamado que toda pessoa negra em qualquer país colonizado no mundo não poderá deixar de ouvir: é hora de abrir os olhos e ver com nitidez, não é possível continuar escondendo a ferida colonial, e é preciso reconhecer que a força está no próprio povo, nós mesmos.

Suzanne Césaire se juntou às vozes de pessoas negras que se levantaram em um período em que a consciência da diáspora africana foi impulsionada para recontar sua história, se orgulhar de sua herança cultural e despertar a consciência de ser negro no mundo. Finalmente essa voz única é amplificada, influenciando os estudos pós-coloniais e muitos estudiosos — como Édouard Glissant — e, como um livro é um mar, sua voz acrescida das nossas hoje, toda a gente com a ferida colonial forma um tsunâmi.

Esse texto foi realizado com apoio da Embaixada da França

Quem escreveu esse texto

Nina Rizzi

Historiadora e poeta, escreveu Nina: Uma história de Nina Simone (Pequena Zahar, 2022) e Elza: A voz do milênio (VR Editora, 2023).

Matéria publicada na edição impressa #52 em outubro de 2021.