Literatura em língua francesa,

A aventura do pensamento

Biografia de Roland Barthes pinta retrato à altura de uma das personalidades mais interessantes do século 20

24out2021 - 22h48 | Edição #51

Roland Barthes foi múltiplo. Intelectual, escritor, professor, pintor amador, não apenas transitou entre diferentes correntes do pensamento como também as forjou. Foi da crítica ideológica de inspiração marxista à semiologia dura, da teoria do texto a partir das sensações ao estudo da fotografia. Seus objetos de interesse eram inusitados: dos romances de Balzac aos tecidos de organza, do sabão em pó ao haicai. Não é à toa que sua obra influenciou — e continua a fazê-lo — a filosofia, a antropologia, os estudos literários, a linguística, a teoria da comunicação e as artes visuais e performáticas. Homossexual assumido mas avesso à militância, nasceu na França em 1915, mesmo ano da morte do pai, marinheiro na Primeira Guerra. Cresceu entre mulheres, passou longos períodos em sanatórios para curar uma persistente tuberculose e viveu com a mãe até a morte dela, em 1977. Barthes morreu em 1980, de complicações pulmonares, um mês após ser atropelado em frente ao Collège de France, onde era professor.

Como capturar esse personagem ondulante e complexo e aprisioná-lo em uma narrativa? A biografia é, por si só, uma arte delicada. Os caminhos de uma vida às vezes nem fazem muito sentido. A biografia de um grande pensador — e de um pensador com tantas modulações, como é o caso de Barthes — pede que sua trajetória intelectual também se torne compreensível. Louis-Jean Calvet, em 1990, e Marie Gil, em 2012, tentaram fazê-lo, com abordagens distintas e muitas lacunas, que se explicam em parte pelo acesso restrito aos arquivos do autor. Mas a figura de Barthes se tornou mais rica graças a um trabalho monumental que chega agora aos leitores brasileiros.

Tiphaine Samoyault, crítica e professora da Universidade Sorbonne Nouvelle, realizou essa proeza. Lançada em 2015 na França, no centenário do pensador, Roland Barthes: biografia é um acontecimento. Tanto por pintar um retrato à altura de uma das personalidades mais interessantes do século 20 como por abrilhantar o gênero biográfico. Samoyault não escolheu entre a obra e a vida de Barthes, captando com perspicácia como ambas se entrelaçam na história de seu biografado. Com tradução de Sandra Nitrini e revisão técnica de Regina Salgado Campos, ambas professoras da Universidade de São Paulo, a versão brasileira, lançada pela Editora 34, traz referências às obras de Barthes disponíveis no país e conta com um precioso índice onomástico.

Arquivo sensível

Tiphaine Samoyault teve acesso completo aos arquivos de Barthes, conservados na Bibliothèque Nationale de France. Parte desse material inédito é considerada sensível, por expor pessoas próximas ao escritor. Samoyault, no entanto, viu tudo. Passou anos escarafunchando os muitos diários de Barthes — que dizia sofrer da “doença” do diário, pois rabiscava um para, em seguida, largá-lo —, manuscritos de livros, escritos de viagens, anotações de cursos, agendas de compromissos, planos de trabalho, correspondências. Samoyault combinou uma leitura rigorosa do material de arquivo, da obra de Barthes e do clima intelectual da época com seu talento de narradora — ela é autora de vários romances, como Bête de cirque (Besta de circo, 2013), ainda sem tradução no Brasil. Entenda-se, porém, que não há ficção nessa biografia de Barthes; há o que o próprio chamava de “romanesco”: as palavras que contam sua trajetória têm sabor; não servem apenas para relatar, mas fazer reviver esse personagem singular.

“A biografia iniciou uma retomada de interesse por Barthes, como mostram os colóquios, revistas, mestrados e doutorados dedicados a ele”, diz Samoyault em entrevista para esta reportagem. “Tornei inseparáveis a vida e a obra do autor e nisso fui fiel ao próprio Barthes, mostrando como o pensamento pode ser uma aventura e tentando torná-la apaixonante. Busquei fazer com que o percurso de sua obra fosse acessível a todos. A recepção da crítica à biografia tem notado isso”, afirma.

Barthes fantasiou sobre o dia em que seria biografado. Escreveu em Sade, Fourier, Loyola (1971): “Se eu fosse escritor e morto, como eu gostaria que minha vida se resumisse, aos cuidados de um biógrafo amigável e desenvolto, a alguns pormenores, a alguns gostos, a algumas inflexões, digamos a ‘biografemas’, cuja distinção e mobilidade pudessem viajar fora de qualquer destino e vir tocar, como átomos epicurianos, algum corpo futuro, prometido à mesma dispersão”. Samoyault, biógrafa amigável e certamente desenvolta, fez mais do que recolher os “biografemas” de Barthes: inseriu-os em uma história intelectual, a sua e a de seus contemporâneos, como Julia Kristeva, Michel Foucault, Lévi-Strauss e Jean-Paul Sartre. Não impede que os “átomos epicurianos” de Barthes cheguem cintilando até seus leitores de hoje, com potencial para iluminar nossos dilemas mais urgentes, como as lutas identitárias e a propagação da pós-verdade na política.

Barthes não teve uma carreira convencional. A tuberculose o impediu de prestar os exames no período necessário para ser aceito em uma escola superior prestigiosa, o que costuma ser crucial para acessar o diminuto clube da intelectualidade francesa. Cursou letras clássicas na Sorbonne e chegou ao status de pensador pelas beiradas. Seus artigos publicados na imprensa, reunidos depois no livro Mitologias (1957), o tornaram conhecido. Essa investigação do poder mitológico de símbolos contemporâneos, como o vinho ou a prosaica batata frita, amados pelos franceses, permanece atual. Nos anos 60, combateu com seus escritos a história literária tradicional, que dominava as universidades francesas.

Barthes foi um dos grandes criadores e disseminadores da semiologia — cuja vertente anglo-saxã é a semiótica —, campo que almejava alçar a estatuto de ciência e pelo qual via todos os signos como decodificáveis: desde uma placa de “proibido estacionar” até a descrição de uma saia godê tirada das páginas da Vogue. Dessa fase, saíram os livros Elementos de semiologia (1965) e Sistema da moda (1967). Contribuiu para “assassinar” a figura do autor como “pai” do texto, inventando métodos libertários para analisar a literatura. Dedicou-se depois a pesquisar novas formas de se aproximar do texto literário, mais afetivas e até sensuais, como em O prazer do texto (1973). Sua obra segue, então, por uma inovadora escrita do eu, a exemplo do disruptivo Roland Barthes por Roland Barthes (1975). Mais tardiamente, com o luto pela perda da mãe, seu trabalho se torna uma busca radical por um novo modo de escrever e de ver o mundo. O seminal ensaio sobre a fotografia A câmara clara (1980), dividido entre a teoria da imagem fotográfica e uma homenagem à figura materna, lê-se nesse contexto, assim como o curso e livro A preparação do romance (1978-80), uma reflexão contundente sobre como um escritor escreve, ministrado no Collège de France pouco antes de sua morte.   

Acusado maldosamente por uma revista da época de ser um “colecionador de vanguardas”, Barthes se cansava de uma maneira de pensar assim que ela fosse domesticada, assim que se condensasse em um saber reprodutível, em uma escola. Definia-se pelo deslocamento: para ele, só assim era possível se colocar como sujeito.

Por isso, Samoyault escolhe, acertadamente, começar a vida de Barthes pelo seu fim, jogando luz sobre seu estado de espírito naquele momento. Vários amigos, como Julia Kristeva, sustentam que ele estava deprimido e se deixou morrer ao longo do mês no hospital após o atropelamento. A autora não bate o martelo sobre o ocorrido, mas mostra, de forma acurada, como Barthes se encontrava, de fato, em uma profunda crise. Não superava a morte da mãe. Sentia-se preso em uma imagem que não correspondia a como queria que sua escrita (ou escritura, termo barthesiano) ecoasse. Desejava se transformar como escritor, dar uma espécie de salto romanesco: grosso modo, ir do ensaio à ficção.

Dedica então seu curso no Collège de France a uma investigação sobre o ato de escrever. A preparação do romance, cujas notas foram publicadas no Brasil em 2005, não é um tratado teórico sobre literatura, mas uma investigação sobre como alguém faz literatura. Bebendo em autores como André Gide, Marcel Proust e Franz Kafka, Barthes expõe, aula a aula, o que movimenta o “querer escrever” e como a vida vivida pode se tornar literatura — contada em um diário, recolhida sob a forma de “biografemas”, pousando no papel com a delicadeza de um haicai ou se transfigurando em uma grande obra.

Os objetos de interesse deBarthes eram inusitados:dos romances de Balzacaos tecidos de organza,do sabão em pó ao haicai

Ao passo que estuda esses autores, Barthes expõe-se também diante da intimidadora plateia do Collège de France, comentando seu próprio “querer escrever”, seu desejo de transformar sua vida e as pessoas amadas em um “romance” — que, apesar do nome, não necessariamente seria um romance, mas um novo deslocamento. Ao longo do curso, Barthes diz que não o estava escrevendo de fato, que hesitava sobre sua forma. Foi atropelado dois dias após concluir o curso, o que gerou certo misticismo em torno do tal “romance” inacabado. Samoyault descobriu que Barthes estava de fato escrevendo — tratava-se do projeto Vita Nova, que englobaria um plano de trabalho, vários diários e um impressionante fichário, conhecido pelos bibliotecários como grand fichier e composto de 1.064 fichas manuscritas. Seria uma grande obra, portanto, mas fragmentária, costurada com pedaços de vivências, leituras e reflexões.

Precursor

Samoyault não se furtou a relatar as aventuras amorosas de Barthes, seus parceiros, as paixões doloridas e a busca contínua por garotos de programa. Iluminou também pontos obscuros, como sua suposta fuga das barricadas parisienses em meio aos protestos de maio de 1968. Ao contrário da imagem de escritor alienado, disseminada por interpretações apressadas de seu “engajamento tímido” no movimento, emerge do relato de Samoyault um Barthes precursor das demandas de 1968 no contexto acadêmico. Frequentou assembleias e era simpático às causas. Mas sentia-se isolado em relação aos estudantes pela diferença de idade (tinha 52 anos) e pela tuberculose, da qual sofria, naquele momento, uma importante recaída. Nos anos seguintes, Barthes transformou sua maneira de ensinar. Experimentou estratégias didáticas libertárias, contadas a Samoyault por seus alunos. Uma de suas fontes foi a crítica brasileira Leyla Perrone-Moisés, que foi aluna e amiga, além de excelente tradutora do autor francês. Grande responsável pela introdução e pela progressiva divulgação do pensamento de Barthes no Brasil, Perrone-Moisés escreveu sobre a amizade diversas vezes, inclusive no recente Vivos na memória (Companhia das Letras, 2021), em que conta lindamente como recebeu a notícia da morte do mestre.

Uma conclusão surpreendente da biografia de Samoyault é a de que Barthes tinha uma espécie de obra oculta em sua produção como professor e como ensaísta em revistas. Os livros publicados podem ser lidos, segundo a biógrafa, como “acidentes”, pontas de imensos icebergs que seriam suas explorações intelectuais. Claudia Amigo Pino, professora da Universidade de São Paulo e especialista na obra de Barthes, prepara atualmente um livro, a ser lançado na França, sobre os seminários que o autor ministrou na École Pratique des Hautes Études, hoje conhecida como ehess, entre 1968 e 1977. “O livro de Samoyault abriu caminhos para pesquisadores, mostrando que há outro Roland Barthes, não o dos livros, mas dos grandes sistemas de pensamento e de projetos”, diz Pino, que também fez uma longa pesquisa nas anotações inéditas do autor na Bibliothèque Nationale de France. “Os seminários eram um espaço privilegiado, afetivo e intelectual, em que Barthes se punha desafios didáticos e em que seu pensamento se retroalimentava na relação com os alunos.”

Há uma beleza em enxergar o intelectual como professor, que cria por meio da troca, que está sempre elaborando seu pensamento. A biografia de Barthes tem o mérito de mostrar isso. Ele aparece como um teórico da fluidez, das ideias fortes sem dogmatismo, do discurso consistente sem arrogância, da liberdade, assim como da ética, da política que também é escritura e sensação, da literatura como antídoto para o senso comum e para o fascismo. Um pensador para hoje e para o futuro.

Esse texto tem apoio da Embaixada da França no Brasil.

Quem escreveu esse texto

Gisela Anauate Bergonzoni

Doutora em literatura comparada pela Universidade Rennes 2, é professora de Brazilian Social Studies na St. Paul’s School.

 

Matéria publicada na edição impressa #51 em setembro de 2021.