Poesia,

A crítica poética de Audre Lorde

Livros de poemas e ensaios formam coleção voltada para uma das vozes mais importantes do feminismo negro

01set2020 - 01h00 | Edição #37 set.2020

O trabalho de Audre Lorde é fundamentado em construir pontes: entre ela e a sexualidade, a maternidade, as relações humanas e o ativismo político. Sua importância abre caminhos para enriquecer debates sobre as muitas opressões presentes na sociedade. Diante disso, quatro editoras criaram um projeto gráfico conjunto para lançar parte de sua obra quase simultaneamente e dar origem à Coleção Audre Lorde. Sou sua irmã — escritos reunidos e inéditos (Ubu), A unicórnia preta (Relicário) e Entre nós mesmas — poemas reunidos (Bazar do Tempo) estão sendo lançados agora, enquanto o autobiográfico Zami, uma biomitografia está previsto para sair pela editora Elefante em 2021.

Os livros sucedem os primeiros lançamentos de Lorde no país, em 2019. Alguns de seus artigos foram reunidos em Pensamento feminista: conceitos fundamentais (Bazar do Tempo) e, posteriormente, Irmã outsider foi publicado pela Autêntica (também com tradução de Stephanie Borges, responsável pela versão para o português de Sou sua irmã e A unicórnia preta). Irmã outsider é considerado o início da teoria da pensadora e foi recebido com entusiasmo por um público cada vez mais ávido por argumentações sociais aprofundadas. 

Vale pontuar que o trabalho de Lorde já vinha sendo usado como referência em círculos de lutas antirracistas, LGBTQI+ e do feminismo negro muito antes de ser notado pelo mercado editorial. Esse interesse se justifica pelo fato de Lorde transformar a particularidade de suas vivências em ferramenta de pensamento crítico e poético — sendo que essas duas linhas jamais se separam em sua obra. 

De ascendência caribenha, Audrey Geraldine Lorde nasceu em Nova York no ano de 1934. Sua família, oriunda de Barbados, estabeleceu-se no Harlem. Ela estudou biblioteconomia no Hunter College (1954-59) e fez mestrado na mesma área na Universidade Columbia, obtendo a formação em 1961. Até se estabilizar no meio acadêmico, exerceu atividades como atendente de consultório, ghost-writer, assistente social e técnica de raio X. Era muitas, mas, parafraseando-a, era antes de tudo, e em última instância, poeta.
Com a sabedoria de compor e alinhar versos, Lorde organizava a própria raiva para alimentar ações que pudessem ter potencial de mudança frente às opressões. Enquanto mulher, negra, lésbica, mãe e poeta, estava sempre do outro lado do que é definido como norma pela sociedade  — fosse ela norte-americana, brasileira ou qualquer outra que se baseasse no padrão “branco, magro, homem, jovem, heterossexual, cristão e financeiramente estável”.

Lorde se apoiou nas individualidades para traçar o principal argumento da sua teoria: o fato de que “não existe hierarquia de opressão”. O livro Sou sua irmã (que conta com prefácio assinado pela filósofa e ativista Djamila Ribeiro) articula na primeira das suas três partes reflexões sobre essa declaração. A segunda seção aborda seu contato ainda criança com a literatura e a poesia e como as usou como ferramentas de luta e de pertencimento na vida adulta. Já a terceira traz registros em forma de diário durante o período em que teve câncer. Os textos compreendem os anos de 1977 a 1990, sendo que alguns estão sendo publicados pela primeira vez nesta edição. Lorde faleceu em 1992, vítima da doença. 

Diferença

A experiência de nunca se sentir totalmente acolhida foi vivida por Lorde ao longo dos seus 58 anos. No movimento antissexista, por exemplo, apontou a opressão que as feministas brancas exerciam sobre as mulheres negras. No movimento negro, denunciava a homofobia e o silenciamento dos quais se via alvo por ser lésbica. “Nasci negra e mulher. Estou tentando me tornar a pessoa mais forte possível para usufruir a vida que me foi dada e ajudar a desencadear as mudanças em direção a um futuro aceitável para o planeta e para minhas crianças. Como negra, lésbica, socialista, mãe de dois, entre eles um menino, e integrante de um casal inter-racial, com frequência me vejo parte de um grupo em que a maioria me define como desviante, difícil, inferior ou simplesmente ‘errada’”, escreve em Sou sua irmã.

Mesmo assim, Lorde olhava com afeto as próprias especificidades, compartilhando essa perspectiva através do seu trabalho. Ela apontava a possibilidade de usar aquilo que a sociedade considerava como “desviante” em favor de causas maiores e que integrasse toda a comunidade em um denominador comum. 

Para ela, numa sociedade orientada para o lucro, que precisa de grupos “outsiders” como excedente, as pessoas são programadas a reagir à diferença de forma a ignorá-la, neutralizá-la ou destruí-la. No entanto, defendia que o reconhecimento das muitas diferenças e também das semelhanças nos objetivos entre as pessoas se fazia necessário não só pelo altruísmo, mas também pela autopreservação, sendo, portanto, uma questão de sobrevivência. 

Ela deixa clara essa posição em “Diferença e sobrevivência”, discurso proferido no Hunter College, reunido em Sou sua irmã. Lorde chama a atenção para o uso do “poder criativo da diferença examinada”. Faz um convite à valorização das diferenças para que elas deixem de ser usadas de forma negativa contra quem as possui, que não sejam mais instrumento de humilhação e se tornem motivo de orgulho, de energia. Lorde propõe que cada um investigue suas particularidades, as assuma e as explore inventivamente. Foi algo que ela fez em diferentes gêneros literários. 

A luta na poesia 

A obra poética de Lorde é também um valioso material de aprendizagem e denúncia. Ela não abre mão de ser quem é mesmo quando assume alguma outra função: “A poeta como professora — a humana como poeta — a professora como humana”. Assim, sua poesia é inspirada nos mesmos temas que circulam por sua teoria, contemplando diversos aspectos da sua vivência, como a primeira visita feita ao continente africano, em 1974.   

A unicórnia preta reúne poemas escritos entre 1975 e 1977 muito influenciados por essa viagem. Alguns deles aparecem pela primeira vez nessa edição enquanto outros foram publicados em Between Our Selves (Entre nós mesmas), de 1976, contendo pequenas alterações feitas pela própria poeta, como observa Stephanie Borges em nota à tradução. Aqui Lorde se afasta de temas urbanos e se volta para o seu entendimento como mulher na diáspora enquanto reflete sobre os papéis de mãe e de filha. 

Com a família, visitou Togo, Gana e a então República do Daomé, atual Benim. Em 1977, esteve na Nigéria para participar do Festival Mundial de Artes e Cultura Negras e Africana (Festac’ 77). Na bagagem, trouxe referências das cosmogonias iorubá, fon e tenda para sua prosa e poesia,  como se vê no poema “Daomé”: 

Trovão é uma mulher de cabelo trançado
interpretando o ifá de Xangô
adormecida entre víboras sagradas
que não sabem ler
nem comer as oferendas rituais
do altar. 
Minha garganta na toca da pantera
não resiste.

A escrita e edição de A unicórnia preta foram feitas simultaneamente à produção dos ensaios contidos em Irmã outsider, como destaca a nota da tradutora. Assim, no livro de ensaios, Lorde cita as circunstâncias que influenciaram a criação dos poemas “Bilhete da escola” e “Poder”, que fazem parte do volume. Esse fato atesta a grande conectividade que há em sua obra. Poesias, ensaios e discursos se entrecruzam ao abordar temas como sexualidade, raça, gênero, cultura, classe, maternidade, capitalismo, machismo, doença, resistência e poder, quer nos Estados Unidos, quer na diáspora africana. 

“Poder”, além de estar em A unicórnia preta, também aparece em Entre nós mesmas, que traz poemas publicados originalmente em 1973, 1975 e 1982. A edição bilíngue conta com prefácio da escritora Cidinha da Silva, tradução de Tatiana Nascimento com Valéria Lima e revisão da poeta Jess Oliveira. O poema foi usado por Lorde para extravasar a raiva e a indignação após a sentença de liberdade de um policial branco que matou uma criança negra. 

Um policial que executou um menino de 
      [dez anos de idade no Queens
postou-se sobre o garoto com suas botas 
     [de gambé em sangue infantil
 e uma voz disse “Morre, seu muleque 
               [filho da puta” e 
há gravações que provam isso. Em seu 
                        [julgamento
o policial disse em sua própria defesa 
“Eu não percebi a idade nem nada disso 
só a cor”. E 
há gravações que provam isso, também.

Como esse, inúmeros outros casos reais são lembrados por Audre Lorde ao longo da construção da sua teoria feminista negra, seja para alívio da dor, da raiva e/ou para melhor articulação de seus interlocutores. “Eu não consegui tocar a destruição/ dentro de mim”, ela confessa adiante no poema. Mudam apenas os formatos, pois a essência do pensamento é a mesma. 

Por mais distintas que sejam as culturas do Brasil e dos Estados Unidos, assim como as muitas maneiras que o racismo se manifesta nas duas nações, as similaridades fazem com que nomes relevantes da luta antirracista, como Lorde, ecoem por aqui com força. Após o assassinato de George Floyd, em maio deste ano, por um policial branco que ajoelhou no seu pescoço durante uma abordagem, desencadeou-se uma série de protestos pelo mundo, encabeçada pelo movimento Black Lives Matter, mesmo em meio à pandemia de Covid-19.

No Brasil, os atos lembraram o caso e cobraram o fim do genocídio das populações negra e indígena, além de pedir justiça para mortes como a do adolescente João Pedro Mattos, baleado dentro de casa durante uma operação policial no Rio de Janeiro. 

Em São Paulo, um policial pisou no pescoço de uma mulher de 51 anos durante uma ocorrência. Ele e os colegas alegaram que foram atacados e estavam se defendendo. No Paraná, uma juíza afirmou na sentença de um homem negro que ele era “seguramente integrante do grupo criminoso, em razão da sua raça”. A história continua se repetindo independentemente do país e do ano. Também por isso a obra de Lorde se mostra tão atual quanto necessária. 

“A arte pela arte realmente não existe para mim, nunca existiu. O que eu via era errado, e precisava me manifestar. Amava poesia e palavras. Mas o que era belo deveria servir ao propósito de mudar minha vida, ou eu morreria. Se não posso externar essa dor e alterá-la, decerto morrerei por causa dela. Esse é o começo do protesto social”, disse em discurso realizado em 6 de julho de 1977, no primeiro retiro feminista negro e publicado em Sou sua irmã.

Com o mesmo empenho com que defendia várias causas, Lorde cobrava atitudes por esses posicionamentos. A máxima de que “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, inspirada na fala da também ativista dos direitos civis Angela Davis, é frequentemente destacada por Lorde em tom de urgência. 

Ela não poupa críticas ao próprio país ao analisar as relações dos Estados Unidos com guerras promovidas em países como a África do Sul. Lorde compartilha a ideia de comunidade internacional de pessoas negras e, como tal, acredita que essa ótica deve ser considerada na luta por direitos, já que o racismo é sistemático. “Como Malcom X observou há mais de vinte anos, uma África livre, militante é necessária para a dignidade da identidade afro-americana.” 

‘A arte pela arte realmente não existe para mim, nunca existiu. O que eu via era errado, e precisava me manifestar’, afirma Audre Lorde

Em discurso de formatura no Oberlin College (publicado em Sou sua irmã), lembra que privilégios não são motivos de culpa, mas são parte de um poder que deve ser usado com o propósito de suscitar melhorias. Chama a atenção para a responsabilidade de saber para onde vai o dinheiro daquilo que se consome, já que esse mesmo dinheiro pode sustentar grandes corporações e governos que, por sua vez, patrocinam massacres e guerras. “Quem são vocês e como estão usando os poderes dessa identidade a serviço daquilo em que acreditam?”, questiona. 

Por meio dessa percepção, Lorde construiu uma ponte de relações até a Alemanha e se tornou fundamental para a criação de um movimento feminista negro no país. Em 1984, ela deu início a um longo período em Berlim e seguiu contribuindo com atividades por lá, ministrando aulas em universidades. A título de curiosidade, a temporada resultou no documentário Audre Lorde — The Berlin Years (2012), de Dagmar Schultz.

Futuro

“Como fortalecemos e apoiamos uns aos outros em nossas batalhas contra a onda crescente de racismo internacional?” O entendimento de que as diferenças, se usadas de maneira agregadora, são o caminho apontado por ela para que “um futuro comum habitável” seja possível. 

Ao mesmo tempo em que orienta encarar a realidade, por mais cruel que seja, e nela buscar artifícios para agir, Lorde também atenta para a necessidade de não se pautar somente pela raiva e pela dor: “Também devemos desenvolver e manter uma visão em andamento, e as próximas teorias devem acompanhar essa visão da razão da nossa luta — da forma, do gosto e da filosofia que gostaríamos de ver”. 

Em razão disso, o amor é uma constante tanto nos seus versos quanto nos ensaios. A maternidade, a amizade e o relacionamento inter-racial lésbico do qual fazia parte são sempre contemplados na construção desse território, encontrando espaço seguro em meio às abordagens mais críticas, com a mesma relevância. São como uma espécie de respiro vindo de alguém que entendia muito bem o quanto eles são necessários para que a luta continue. 

Toda a obra de Lorde vislumbrou inúmeras transformações que aconteceriam na academia no final da década de 1980, através da elaboração de correntes que não ignoram a relação entre raça, classe, gênero e sexualidade — e mais tarde a deficiência — perante as injustiças sociais. Seu pensamento provoca outsiders a não se acomodarem apenas com aceitação, mas buscarem a construção de novas filosofias de vida, de forma revolucionária. 

A proposta de Lorde valoriza a ancestralidade, inspira-se no trabalho de irmãos e irmãs como Toni Morrison, Pat Parker, Chinua Achebe, Amos Tutuola e Cyprian Ekwensi e ainda contribui para um pensamento afro-latino-americano, como bem aponta a escritora Cidinha da Silva no prefácio de Entre nós mesmas. Suas palavras dialogam com nomes da intelectualidade e da cultura brasileiras, como a pensadora Lélia Gonzalez e o rapper Emicida, sendo assim de fácil identificação, até na subjetividade da poesia. 

Portanto, a Coleção Audre Lorde agrega um rico material aos estudos que já vinham sendo feitos aqui sobre a teórica feminista, tornando-se peça importante para sua consolidação como referência no Brasil. Que suas sementes possam ser espalhadas para ampliar artifícios na luta por mudanças nas estruturas sociais, pois ainda há muito em comum com o ontem de Lorde e o hoje de Floyd e João Pedro. A ponte para o futuro em que todos têm seus direitos básicos garantidos segue em construção. “A ignorância vai acabar quando estivermos preparados para nos arriscar e dar fim a ela, dentro de nós, dentro das comunidades em que vivemos. Esse é o verdadeiro amor, esse é o verdadeiro poder.” 

Quem escreveu esse texto

Kelly Ribeiro

É jornalista, radialista e produtora cultural.

Matéria publicada na edição impressa #37 set.2020 em julho de 2020.