O escritor sul-africano J. M. Coetzee (Isabella De Maddalena/Agence Opale/Alamy Archive)

Literatura,

A música de uma vida

Em um romance da velhice, J.M. Coetzee reflete sobre incertezas do presente, afetos do passado, lacunas da linguagem e a proximidade da morte

06out2025 • Atualizado em: 06nov2025 | Edição #99

É inevitável pensar em O Polonês, romance mais recente de J. M. Coetzee, como uma espécie de suma da trajetória do autor que, nascido em fevereiro de 1940, certamente está consciente de viver seus últimos anos. O romance lida justamente com esse tema: seu protagonista é um artista que busca um novo amor na fase final da vida. 

Witold Walczykiewicz é um pianista que ficou conhecido por sua interpretação das peças de Chopin. Convidado para tocar em Barcelona, conhece Beatriz, por quem se apaixona. Como em Desonra (Companhia das Letras, 2000, trad. José Rubens Siqueira), Coetzee utiliza a música como metáfora dos limites da experiência humana: existem rincões da subjetividade que a linguagem simplesmente não consegue acessar; para isso, é preciso recorrer à arte que não fala, como a pintura e, sobretudo, a música. 

Aqui surge com força total um dos principais temas da obra de Coetzee: as insuficiências da linguagem, o que gera uma literatura que reconhece sua impossibilidade, seu caráter de “caso sem esperança”, mas que, ainda assim, insiste e permanece. A língua materna de Beatriz é o espanhol; a de Witold, o polonês; eles se encontram no meio do caminho, usando o inglês, o que é motivo de constantes imprecisões e mal-entendidos — o terreno ficcional de Coetzee, que, tendo crescido na África do Sul, foi exposto a três idiomas desde cedo: inglês, holandês e africâner.

Toda a obra do escritor é povoada por artistas que duvidam de suas capacidades

“Ele é perturbadoramente sem brilho”, é a primeira impressão de Beatriz, e, daqui por diante, acompanharemos o Polonês somente através das impressões dessa mulher. O artista é seco, sem iniciativa, fala com “seu inglês incompleto”. Esse conjunto de características pouco lisonjeiras aparece também em Verão (Companhia das Letras, 2010, trad. José Rubens Siqueira), no qual surge John Coetzee, um escritor que acaba de morrer e é evocado por cinco pessoas que o conheceram (sendo quatro mulheres). 

Beatriz duvida de Witold, de sua interpretação de Chopin, de sua capacidade de se fazer entender e de seus dotes para seduzi-la. Ele permanece, por boa parte do romance, ensimesmado em sua língua impenetrável — um desafio linguístico que Coetzee envolve em uma segunda camada de enigma, a consciência de Beatriz dos eventos ao seu redor (“é como conversar com uma criança”, ela pensa). Tudo é ambíguo e oscilante. Mesmo quando o Polonês “conquista” Beatriz, sobra uma enorme margem feita de vergonha, condescendência, indiferença. Mesmo quando está no piano — que, em tese, é o espaço no qual pode brilhar —, Witold “parece uma aranha enorme”.

Os aplausos, após o último prelúdio, são educados, mas sem entusiasmo. Ela não é a única que veio ouvir Chopin interpretado por um verdadeiro polonês e se decepcionou. 

O “verdadeiro polonês” é uma miragem, assim como a “verdadeira linguagem” ou a “verdadeira identidade”, que Coetzee desdobra em seus livros (como faz com a noção de “juventude” no livro de mesmo nome: quais são suas fronteiras? Como impedir que reverbere ao longo da vida, mesmo quando não se é mais jovem?).

Incertezas

Toda a obra de Coetzee é povoada por artistas que duvidam de suas capacidades e da permanência póstuma de seus trabalhos: é o que acontece com o Dostoiévski transformado em personagem em O mestre de Petersburgo (Companhia das Letras, 2023, trad. Luiz Roberto Mendes Gonçalves); é o caso de Elizabeth Costello, do livro homônimo; e também o de Daniel Defoe no romance Foe (Companhia as Letras, 2016, trad. José Rubens Siqueira), retratado nos dias em que a história de Robinson Crusoé chega até ele, crua e incerta. 

Essa dimensão da incerteza é reforçada pelo uso que Coetzee faz dos nomes: o escritor russo não é nomeado, ele é “o mestre”; em Foe, joga com a ambiguidade do termo, que indica tanto o sobrenome quanto a palavra inglesa para “inimigo”; na trilogia sobre Jesus, o protagonista é um menino chamado David e sua sobreposição à figura bíblica nunca é clara ou completa; o protagonista de Vida e época de Michael K (Companhia das Letras, 2o23, trad. José Rubens Siqueira) é escondido e revelado por essa simples letra que serve de sobrenome. 

O Polonês absorve essas duas dimensões. Ele sabe que não é um pianista de primeira grandeza, mas segue trabalhando. Sabe que seu sobrenome é impronunciável, e por isso se apresenta como “Witold” (seu “nome tem tantos Ws e Zs que ninguém no conselho sequer tenta pronunciá-lo”); sabe que sua língua materna é inacessível, e por isso se comunica em inglês. 

Para Coetzee, sempre falta alguma coisa — e a ficção serve para girar ao redor dessas lacunas

Ele vive à sombra do compatriota bem mais famoso, Chopin; também vive acompanhado de um “irmão mau”, que surge em uma das melhores cenas do romance: “Tenho certeza, Witold”, diz uma convidada do jantar, “que não sou a primeira a confundi-lo com aquele famoso ator sueco, você deve saber de quem estou falando”; “Max von Sydow”, diz o pianista, “meu irmão mau”. É “o mesmo rosto comprido e lúgubre, os mesmos olhos azuis desbotados, a mesma postura ereta”, pensa Beatriz. “Mas a voz é decepcionante. Falta a ressonância profunda do irmão mau.”

Para Coetzee, sempre falta alguma coisa — e a ficção serve para girar ao redor dessas lacunas, mostrando a incompletude intrínseca à existência, que deve ser suplementada pela arte. Por mais longa que seja a vida, ela é finita, e o Polonês sabe disso — outro tema central de Coetzee, que escreveu um romance chamado A morte de Jesus (Companhia das Letras, 2023, trad. José Rubens Siqueira) e encerrou Desonra com a morte de um cachorro. Essa preocupação permanente com a mortalidade é decisiva para o romance, pois aquilo que o Polonês deixa de herança em seu testamento constitui um salto e um clímax — para a narrativa, para Beatriz e para o legado literário do próprio Coetzee. 

Em uma conversa, Witold diz a Beatriz que sua próxima apresentação será na Rússia. “Você é famoso na Rússia?”, ela pergunta. O pianista responde: “Ninguém me considera muito em nenhum lugar do mundo. Tudo bem. Sou da velha geração. Sou história. Devia estar num museu, numa vitrine. Mas aqui estou eu. Ainda vivo”. Com Witold e com uma possível sobreposição do protagonista com seu autor, Coetzee postula que o presente não é feito apenas de novidades, mas também de densas reflexões sobre afetos e artefatos do passado.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025.

Para ler este texto, é preciso assinar a Quatro Cinco Um

Chegou a hora de
fazer a sua assinatura

Escolha como você quer ler a Quatro Cinco Um.

Ecobag Exclusiva

Há nove anos nutrindo leitores onívoros!

Assine a revista dos livros e ajude a fomentar a cultura do livro no Brasil

Peraí. Esquecemos de perguntar o seu nome.

Crie a sua conta gratuita na Quatro Cinco Um ou faça log-in para continuar a ler este e outros textos.

Ou então assine, ganhe acesso integral ao site e ao Clube de Benefícios 451 e contribua com o jornalismo de livros independente e sem fins lucrativos.