Os escritores argentinos Ariana Harwicz, Laura Alcoba, Félix Bruzzone, Mariana Enriquez, Selva Almada e Samanta Schweblin (Luis Miguel/Divulgação; Francesca Mantovani/Divulgação; Ministerio de Cultura de la Nación/Reprodução; Nora Lezano/Divulgação; Vale Fiorini/Divulgação; Alejandra López/Divulgação)

Literatura,

A inevitabilidade da violência

Da metáfora ao testemunho irônico, autoras argentinas lidam com os efeitos do golpe que, em seus cinquenta anos, ainda atua sobre o presente

24mar2026

A história da literatura é feita de um fluxo e refluxo de temas: a paisagem de obras e autores, em qualquer momento, é sempre heterogênea, múltipla. Elementos como estilo, temperamento, classe social, raça e contingências históricas modulam a variabilidade dos temas disponíveis em uma dada época. No caso da literatura argentina contemporânea, os efeitos da última ditadura militar no país (1976-1983) aparecem com destaque, dada a violência da repressão, o terrorismo de Estado e, sobretudo, o chocante número de mortos e desaparecidos. 

A quantidade de nomes que podem ser ligados ao esforço de lidar ficcionalmente com esses efeitos — Patricio Pron, Ariana Harwicz, Laura Alcoba, Félix Bruzzone, Gabriela Cabezón Cámara, Mariana Eva Perez, Selva Almada, Samanta Schweblin — mostra a preponderância do tópico.

É típico da literatura, contudo, acessar e apresentar os temas de forma oblíqua e dissimulada. O mais importante nem sempre está evidente, desde a sarça ardente de Moisés até a carta roubada de Poe. A abordagem indireta frequentemente enfatiza a carga de tensão e enigma dos textos literários, multiplicando os sentidos possíveis. 

Essa é uma dimensão decisiva em muitos escritores e escritoras mencionados: cenas aparentemente corriqueiras descortinam, de repente, elementos de opressão (física e psíquica); diálogos sem maiores pretensões vão, aos poucos, encaminhando as narrativas para uma atmosfera de medo, desconfiança, incerteza; personagens se apresentam de forma parcial, como se escondessem algo. Os cenários mudam — as planícies esvaziadas do interior em Selva Almada, bastidores de shows de rock em Mariana Enriquez, as ruas de La Plata em Laura Alcoba —, mas é possível reconhecer, nas entrelinhas, uma percepção compartilhada acerca da inevitabilidade da violência.

Mortos sem tumba

Em um dos contos de Os perigos de fumar na cama (Intrínseca, 2023, tradução de Elisa Menezes), Mariana Enriquez faz a protagonista, uma menina, encontrar pequenos ossos humanos enterrados no jardim de casa. Ao comentar a história para o jornal argentino Página/12, a autora afirma que pode ser, sim, “sobre os fantasmas familiares”, os “mortos sem tumba” e “os restos humanos sem nome”, embora seja também uma homenagem às “crianças fantasmas” de livros que leu e filmes a que assistiu. 

Em O vento que arrasa (Todavia, 2024, tradução de Samuel Titan Jr.), Selva Almada coloca sua protagonista, Leni, de dezesseis anos, em constante movimento pelo interior do país, seguindo os passos do pai, um pastor. Essa progressão permanente dos personagens cria uma sensação de apego extremo ao presente, como se não houvesse espaço, naquela microcomunidade que se forma, para a memória ou para a evocação do passado. A única coisa que importa é o agora, a próxima parada. 

Nessas ficções de Enriquez e Almada, a infância é uma metáfora para dar conta do recebimento compulsório das “heranças” do passado, um período de extrema vulnerabilidade. As protagonistas não estão inteiramente aparelhadas para lidar com as cargas vindas das gerações prévias — ossos, de um lado; gestos, palavras, comportamentos, de outro — e, por isso, as narrativas se desenvolvem de forma enigmática, lacunar. O uso da infância como um campo de experimento literário é recorrente também na obra de Ariana Harwicz, Laura Alcoba e Samanta Schweblin. 

É inegável a sombra da última ditadura militar na literatura argentina contemporânea

“O menino é quem fala, diz as palavras ao meu ouvido. Eu sou a que pergunta”, escreve a narradora de Schweblin em Distância de resgate (Fósforo, 2024, tradução de Joca Reiners Terron), novela estruturada como uma entrevista ou interrogatório. Não se sabe com certeza o que está acontecendo, mas se entende que uma criança, David, sofre de uma doença indefinida, causada pelo envenenamento da terra do povoado onde mora com a família. A doença é contagiosa e toda a comunidade sofre, em maior ou menor grau, os efeitos desse desequilíbrio, que suga também o viço da natureza ao redor: “Não tem grama ao redor da casa, tudo é terra e poeira”, “não há nenhum animal por ali”. Algo que não pode ser definido, uma “febre” que parece se espalhar de forma clandestina, corrói a sociedade por dentro, fraturando os laços familiares.

Essas “fraturas familiares” também ocupam o primeiro plano na poética de Ariana Harwicz: em Perder o juízo (Instante, 2024, tradução de Silvia Massimini Felix), uma mãe coloca fogo na casa em que o ex-marido mora com os dois filhos e os sequestra (“Arrumo os meninos, um está um pouco machucado na testa, lhe dou goles de água, temos que sobreviver”); em Precoce (Instante, 2021, tradução de Francesca Angiolillo), mãe e filho levam uma vida desregrada, indigente e disfuncional, roubam, vasculham lixo, fogem da polícia (“Anoiteceu e meu filho ronca em jejum. Pode ser que eu lhe esteja provocando um retardo. Que haja lesões severas ou moderadas”).

A trilogia autobiográfica de Laura Alcoba — A casa dos coelhos, O azul das abelhas e A dança da aranha (Paris de Histórias) — reitera o apego à infância, mas com uma abordagem da ditadura bem mais direta. O foco dos três livros é Laura, a menina que cresce em uma casa usada por uma organização guerrilheira (a criação de coelhos é fachada do grupo Montoneros), que inicia uma nova vida, de exílio, em Paris (o “azul das abelhas” representa a estranheza do novo idioma), e que tenta, por fim, elaborar os traumas do passado recente e lidar com o temor pelo destino do pai, preso na Argentina (a aranha, em um momento de liberdade, dança). O universo de Alcoba é intermediário: sua protagonista não lida diretamente com a resistência — não pega em armas, não é torturada —, mas sofre suas consequências. 

Humor cáustico

A articulação entre testemunho, autobiografia e elaboração da infância é central também em Diário de una Princesa Montonera (Planeta, 2021), de Mariana Eva Perez, ainda não publicado no Brasil. Se em Alcoba a ênfase está em certa solenidade e melancolia, em Perez a tônica é a ironia e o humor mordaz (“Primo Levi, lá vamos nós!”). A narradora toma para si o destino de sobrevivente, de filha de desaparecidos, em paralelo à tarefa dolorosa e trabalhosa de trazer à tona o passado traumático por meio da literatura. Essa evocação, no entanto, é complexa, pois descortina também afetos negativos dos militantes, como ciúmes, inveja e arrogância, bem como os próprios “caprichos” dessa princesa que toma a palavra. É de toda uma sociedade que fala Perez em seu diário, especialmente quando relata o processo judicial de lesa-humanidade no qual estava envolvida. Mas é a insistente especificidade cáustica de seu autorretrato que o leva à excelência de um duplo registro: é tanto testemunho quanto experimento artístico.

É por esse viés que se desenvolve também a obra de Félix Bruzzone, nascido em 1976, filho de desaparecidos, cujo primeiro livro é significativamente intitulado 76 (assim como no caso de Perez, nenhum livro de Bruzzone foi traduzido no Brasil, falha que espero ver corrigida o quanto antes, dada a relevância de sua produção). Em Los topos (“As toupeiras”, Mondadori, 2012), o protagonista, filho de desaparecidos, busca informações sobre o passado, entre Buenos Aires e Bariloche, coletando fragmentos de testemunhos, documentos, anedotas, versões possíveis de fatos.

A infância como campo de experimento é recorrente na obra de Harwicz, Alcoba e Schweblin

A preocupação com indivíduos marginais na sociedade argentina do passado é enfatizada por sua convivência com marginalizados do presente, especialmente a comunidade travesti. Em paralelo à tentativa de construção de uma identidade que vá além de um “herdeiro do trauma”, o protagonista observa a sociedade ao redor, na qual encontra muitos membros que recusam abertamente qualquer tipo de reivindicação por justiça ou reparação. 

De uma abordagem metafórica, passando pela mais direta e solene, até chegar em uma versão irônica do testemunho: possibilidades de enfrentamento de um evento que, por cinquenta anos, segue atuando sobre o presente. 

O que parece ser uma constante em todas essas narrativas é a percepção de que a violência sistemática deixa marcas de longa duração em uma sociedade. Uma vez ultrapassado certo limite no descaso pela dignidade humana — “excesso” que foi o cotidiano em todas as ditaduras civis-militares na América Latina —, a possibilidade de retorno a esse estado de coisas segue disponível, ainda que latente. 

Nos últimos anos, a literatura argentina sobre a ditadura mostra que é imperativo forçar a memória, forçar um tema do passado sobre o presente: a multiplicidade de roupagens garante o trabalho de elaboração, que é tanto literário quanto ético.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).