A escritora neozelandesa Katherine Mansfield (Archives New Zealand/Divulgação)

Literatura,

Sonoridade e ritmo

Antologia de contos de Katherine Mansfield mostra escritora complexa, antecessora do que se tornou cânone

15jul2026 • Atualizado em: 14jul2026 | Edição #108

“Uma mente implacavelmente sensível”, constata Virginia Woolf sobre Katherine Mansfield. O texto intitulado com essa constatação, publicado em 1927 no New York Herald Tribune, é um dos ensaios mais gentis e atentos de Woolf em se tratando de uma contemporânea. Lendo as cenas rascunhadas nos diários da amiga — morta havia praticamente cinco anos —, ela se apega ao que moveu a relação entre as duas: a escrita.

Há um alarde de que eram inimigas, por causa de algumas entradas nos diários de Woolf. Mas facilmente se esquecem, por exemplo, entradas como a de 16 de janeiro de 1923 (apontada pela tradutora Ana Carolina Mesquita), em que Woolf, dias depois da morte de Mansfield, escreveu que era provável que nunca mais encontrasse alguém com quem tivesse tanto em comum. 

Observando essa escrita tão íntima anos depois, Woolf decide dar a ver a mente de Mansfield se movimentando, rascunhando cenas, analisando personagens, trazendo sonhos e conversas, sendo enfim “uma escritora, uma escritora nata”. E é desse lugar — sabendo que, na história das mulheres, a escrita de diários e cartas serviu como laboratório de criação e crítica literária — que nós, leitoras, deslizamos pela paisagem da seleta de contos Domingos de amêndoa, que anuncia a sonoridade já no título.

Organizada e traduzida por Talissa Ancona Lopez para a Autêntica, em diálogo com o editor Schneider Carpeggiani, é a maior seleção de contos de Mansfield a ser publicada no Brasil.

Leituras atemporais

Morta com apenas 34 anos, em 1923, a contista neozelandesa, que viveu seus últimos dias entre a Inglaterra e a França, publicou em vida três volumes de contos, em pouco mais de uma década. Após sua morte, como consta na biografia de muitas escritoras casadas com homens editores, outras duas coletâneas vieram a público, à revelia do intenso cuidado editorial da autora, que desperta interesse das editoras desde os anos 30.

Por aqui, sempre houve um apreço maior por Bliss and other stories [Êxtase e outras histórias] e The garden party and other stories [Festa no jardim e outras histórias], lançados em 1920 e 1922, considerado seu período de maior produção. 

Ainda nos anos 40, os contos de Mansfield chamaram a atenção de grandes contistas brasileiros, como Clarice Lispector e Dalton Trevisan, que em sua revista, Joaquim, publicou uma carta (divertida e íntima, que só um leitor ávido poderia escrever) para a autora, acompanhada por uma gravura de Renina Katz.

Os contos de Mansfield chamaram a atenção de brasileiros como Clarice Lispector e Dalton Trevisan

Mais recentemente, uma nova geração de pesquisadoras, da qual a tradutora Ancona Lopez é parte, vem trazendo leituras transnacionais para a recepção de Mansfield no mercado editorial brasileiro, em diálogo direto com o trabalho iniciado nos anos 80 pela poeta, tradutora e crítica literária Ana Cristina Cesar.

Com sua tradução comentada de “Bliss” (que curiosamente foi publicada pela primeira vez, sem os comentários, numa revista adulta masculina), Ana C. deu uma guinada na recepção de Mansfield no Brasil ao inovar em três aspectos: na tradução, no pensamento teórico e na publicação de ensaios em jornais, ampliando o público.

Pesquisadoras como Ancona Lopez e Katherine Funke, para citar apenas duas, também têm apontado novos caminhos e trazido traduções inéditas, como é o caso de Domingos de amêndoa e a antologia de poemas Quando fui pássaro, que sai pela Jabuticaba, com tradução de Funke, Laura S. M. Chagas, Lúcia Ely Paiva e Taty Guedes, além de texto de orelha por Nara Vidal, que traduziu contos de Mansfield para a Antofágica. Há espaço para todas as edições e abordagens editoriais, ainda mais as de quem foge do corriqueiro autora-fenômeno-que-morreu-jovem. 

Passeios

Domingos de amêndoa se configura como um passeio pela paisagem mansfieldiana em português brasileiro, mostrando a “escritora nata” que Virginia Woolf atestava. Enquanto antologista, ao selecionar trinta contos, Ancona Lopez abrange as cinco publicações feitas entre 1911 e 1924, sem se prender a uma ideia de temporalidade. Passeamos por essa paisagem como mulheres viajantes que observam as mudanças e peculiaridades geográficas e linguísticas a partir de uma janela de trem, como acontece nos contos “A jovem governanta” e “Uma viagem indiscreta”.

Na “Nota da tradutora”, Ancona Lopez enfatiza o interesse editorial de fazer um recorte amplo, que fosse além do conjunto publicado desde os anos 30, apontando para outros aspectos da literatura de Mansfield. Os contos caminham por uma paisagem que, além de conter uma vasta fauna, especialmente de gatos furtivos, é repleta de uma flora descrita com atenta observação, em relação íntima com personagens e construções cênicas. 

Se pensarmos em Donna Haraway, é impossível não visualizar humanos e espécies companheiras fazendo parentesco em prol da narrativa. Isso fica nítido no aguardado “Êxtase”, em que a pear tree (pereira), fonte de todo o sentimento luminoso que atravessa o corpo da protagonista e de seus amores (a vida, o marido, a amada, o momento), se torna uma amoreira. Uma árvore não apenas presente no imaginário brasileiro, mas com uma beleza sonora condizente com um momento tão impactante de descoberta.

É instigante ver a tradutora-pesquisadora de hoje sustentando esse enigma, proposto por Ana C., diante de algo que pode passar batido: importa o tipo de árvore? Na resposta pode habitar outra reivindicação da poeta brasileira: a sonoridade da escrita. 

Sentido e som

Das duas faces mansfieldianas em Domingos de amêndoa, uma delas é a sonoridade. Não apenas a amoreira, ou a própria ideia de um domingo de amêndoa (o conforto dos emes), mas o som do vento, dos pássaros, de instrumentos musicais, e a relação de personagens com a música. Há também uma pesquisa cuidadosa com termos e com a oralidade de época. A tradutora mantém a pluralidade de idiomas no texto, causando o estranhamento necessário de uma escrita viajante.

A pesquisa formadora de Ancona Lopez são as cartas de Mansfield e nela aponta que a autora tinha um cuidado especial com o som da escrita. Parte do método de Mansfield era ler em voz alta o que escrevia para sentir o tom e o ritmo. 

Isso fica marcado em contos como “Miss Brill”, em que o encadeamento das frases faz da história um longo poema narrativo. Soma-se a isso o fato de Mansfield ter sofrido de tuberculose, o que escoa para seu texto: “E quando ela respirava, alguma coisa leve e triste — não, não era exatamente triste —, alguma coisa gentil parecia se mover em seu peito”. Em “Festa no jardim”, a construção cênica está baseada na sonoridade: desde o tom das conversas até o uso de onomatopeias — “Pom! Tan-tan-tan-ti-tan” —, de palmas, letras de músicas etc.

Virginia Woolf, após a morte da colega, reconheceu a autora como contista talentosa

A pesquisadora Claire Davison, entrevistada por Ancona Lopez em 2023 para o suplemento Pernambuco, afirma que Mansfield foi uma figura marcante naquele momento do modernismo inglês justamente por mover a prática do conto, que vinha de uma escola mais rígida no período vitoriano. 

Apesar da falta do diálogo esperado no círculo londrino, hoje é possível ler esses contos em conversa com os projetos de escrita do momento atual. A preocupação com a prática de variar os pontos de vista, o uso da natureza como elemento dialógico, ligado à interioridade, a primazia da reflexão interior das personagens, sem julgamentos, e o uso já citado do som fazem da escritora uma antecessora de grandes momentos literários, canônicos, da década de 1920.

Vizinhança

Grande estudiosa de Mansfield, Davison afirma que ela “não dá voz aos sofrimentos de outsider”, mas em Domingos de amêndoa conseguimos passear por uma vizinhança de pessoas, mulheres em maioria, que raramente figuravam na narrativa das escritoras mais bem relacionadas dos círculos londrinos. E aqui está a segunda face mansfieldiana: as mulheres. Adiciono, ainda, o fato de essas mulheres estarem mergulhadas em questões de classe.

Nas últimas partes de Um quarto só para mim (trad. Sofia Nestrovski, Editora 34, 2025), Woolf acena ao que a literatura escrita por mulheres deveria fazer, afirmando que aquele era o momento (beirando 1930) de escrever e experimentar fora do esperado para uma escritora, algo a que George Eliot também já tinha convocado. 

Quando Woolf escreveu no diário sobre a morte de Mansfield, dizendo que a colega fazia o que ela não podia fazer, reconhecia a contista como talentosa em um gênero que não era o seu forte. Antes, ainda com Mansfield viva, escreveu que lera um conto dela, sobre o qual afirmou que “está começando a fazer o que quer”. Em Domingos de amêndoa, podemos acessar a escrita até antes de Woolf, ver a mente da contista em desenvolvimento e perceber como ela apontava para temas e estilos bastante peculiares e espinhosos já na primeira década do século 20.

Ritmo

Os primeiros contos dão o ritmo da antologia. O começo de uma seleta deve ser bem pensado para que, como diria Ana C., o êxtase não seja usado em vão. Há alguns contos no belo estilo do famoso “Êxtase”. Mas há também algo do que um crítico americano chamou de natureza repulsiva. 

Devemos desmontar o sentido pejorativo da expressão e ficar com aquele da física, que diz que repulsivo é o que faz certos corpos ou partículas se repelir mutuamente. A violência, o abuso e até alguma ideia de vingança aparecem em contos como “Veneno”, “A jovem governanta” e, especialmente, “O balanço do pêndulo”. Na seleção de Ancona Lopez, esses contos demonstram uma ligação assustadora com o presente, não apenas na questão temática, mas no projeto estético arrojado da autora.

“Millie” tem uma escalada em tom de suspense. A narração faz as vezes de uma câmera, muito mais ágil e potente que as da época. As perspectivas em relação ao que se acha ser um vilão na história vão se transformando ao longo da narrativa e chegamos a visualizar uma mulher sozinha, apontando uma arma. Mas Millie é a protagonista e Mansfield é a orquestradora dessa ópera — o final só pode ser suntuoso. 

Já “Pepino em conserva” retrata a vaidade e o egoísmo de um homem. O conto, curto, cobre um breve diálogo entre ex-namorados. Enquanto o homem fica imerso em comentários sobre suas conquistas nos seis anos anteriores à conversa, esforçando-se para soar galanteador e educado, a ex, Vera, relembra cenas desagradáveis do relacionamento passado. O desenvolvimento é direto e repleto de simbologias; a montagem das camadas entre as memórias de Vera e a fala desarticulada do homem é curta e eficiente.

Enigmas

Até o que poderia dar vazão para a fama de observadora ingênua de Mansfield deixa um gosto amargo na leitura, suscitando o infamiliar, como em “Um tanto infantil, mas muito natural”, “A menina” e “Lua de mel”, contos de temática folhetinesca. São do tipo de escrita entregue por alguém que preenche os sustos que levamos diante dos enigmas plantados em determinados contos. A vida sendo articulada pela via da escrita e levada como projeto, independente de sua duração.

A alegada inimizade entre Mansfield e Woolf, apontada como alarde no começo deste texto, suscita a pergunta: como pode ser tão difícil pensar mulheres enquanto profissionais da escrita? Como bem salienta Ancona Lopez em sua pesquisa e no perfil Katherine Mansfield: o tempo, a escrita e a vida dividida (no prelo), a troca entre as duas trabalhadoras da palavra (e tantas outras pessoas com que ambas se relacionaram pelas cartas) era elevada pelo interesse de profissionalização e construção de projetos de escrita. E se é raro encontrar alguém tão apaixonado pelo próprio ofício, por que não aceitar a complexidade da amizade? 

Domingos de amêndoa mostra Katherine Mansfield operando como a maestrina “nata” que era, com toda a profundidade de seu projeto literário, uma vasta paisagem. “Sou escritora primeiro, mulher depois”, disse ela. Não se trata de uma escala de valores, mas do desejo da escrita antes de tudo. Talvez o êxtase resida na possibilidade de uma obra seguir existindo, falando várias línguas, e na manutenção feita por todas que seguem executando as partituras deixadas pelas escritoras.

Quem escreveu esse texto

Emanuela Siqueira

É tradutora, crítica cultural e pesquisa estudos feministas ligados à escrita e à tradução.

Matéria publicada na edição impressa #108 em agosto de 2026. Com o título “Sonoridade e ritmo”

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