O escritor francês Laurent Binet (JF Paga/Divulgação)

Literatura,

Mudando o curso da história

Com documentos e tintas burlescas, Laurent Binet reimagina o mundo se os incas tivessem colonizado a Europa no século 16

01mar2026 • Atualizado em: 27fev2026 | Edição #103

É inegável que o escritor francês Laurent Binet tem a capacidade de se reinventar a cada livro lançado. Sua estreia no romance, HHhH, de 2010, se passa durante a Segunda Guerra Mundial e tem como personagens Hitler, Himmler, Heydrich e outros nazistas. Quem matou Roland Barthes?, de 2015, reimagina as causas da morte do intelectual francês e, no percurso, lida jocosamente com várias outras personalidades históricas, como Michel Foucault, Umberto Eco e François Mitterrand. Civilizações, de 2019, que chega ao Brasil com tradução de Rosa Freire d’Aguiar, parte de uma premissa audaciosa e instigante: o que teria acontecido à história do mundo se os incas tivessem colonizado a Europa no século 16, e não o contrário?

Para chegar a esse ponto — a efetiva travessia do oceano por parte do imperador inca Atahualpa e sua comitiva —, Binet precisa preparar o terreno, e isso se dá de forma veloz, por vezes vertiginosa. Tudo começa com “a saga de Freydis Eriksdottir”, ou seja, com a chegada e permanência de vikings nas Américas, acarretando vantagens técnicas e biológicas para a população autóctone, algo que será decisivo para a “resistência” futura contra Cristóvão Colombo e suas caravelas. “Os groenlandeses, graças ao gado e ao conhecimento do ferro, conquistaram posições vantajosas junto ao povo”, relata o narrador de Binet, e continua: 

Os skraelings receberam o ferro e os animais de tração como presentes da providência. Por isso, Freydis foi homenageada como uma grande sacerdotisa, coberta de ouro e investida de grandes poderes.

Assim como fez no romance sobre Barthes, também em Civilizações Binet está claramente se divertindo com a trama que desenvolve com as peripécias de seus personagens. Por trás dessa diversão, no entanto, é evidente o alto nível de preparo e leitura do autor para chegar a uma estrutura histórica “alternativa” tão sofisticada. Acompanhamos a reinvenção de uma série de personagens: Catarina da Áustria, Erasmo de Rotterdam, Martinho Lutero, Ana Bolena, Miguel de Cervantes, entre outros, mas seus traços principais e muitas das cenas nas quais interagem são, de certa forma, condizentes com as fontes históricas.

Boa parte do prazer está em acompanhar as variadas misturas que o autor faz entre fato e ficção

Boa parte do prazer da leitura do romance de Binet está em acompanhar as variadas misturas que ele faz entre fato e ficção. Trata-se, em grande medida, de uma reação em cadeia, uma progressão ficcional gerada por um desvio, um único “e se” (“o que teria acontecido se”, “o que seria diferente no mundo se”) que sustenta todo o projeto. Diante disso, o leitor deve ajustar suas expectativas e projeções internas — especialmente no que diz respeito à familiaridade com esses personagens mobilizados pelo autor.

Em uma carta de 21 de janeiro de 1534, por exemplo, Thomas More escreve a Erasmo de Rotterdam (segundo o “cronista” de Binet): 

Deves também ter ouvido falar dessa nova religião que se espalha, vinda da Espanha, a que alguns chamam de intismo e outros de solismo, e que pretende ser a religião do Sol, segundo esse novo senhor Atahualpa, que causou a perda do imperador Carlos e de quem se diz que atualmente é o verdadeiro senhor das Espanhas. 

Juízo final

A nova realidade instaurada pelo romance é adaptada aos conteúdos históricos dos documentos que Binet usa criativamente, sem jamais indicar fontes, edições ou bibliografias. Essa ausência é importante, pois existe uma insistência deliberada do autor em manter o tom discursivo distanciado da crônica histórica — embora, em alguns momentos, certos didatismos soem forçados: “alguns se refugiaram no templo a que chamavam de catedral”, “uma divindade secundária a que chamavam de Espírito Santo” e assim por diante. 

O romance só pode funcionar a partir da aposta no acúmulo desses detalhes que colocam em curto-circuito fato e ficção; para usufruir da trama, é preciso aceitar a premissa. Binet, talvez antecipando a aridez do mergulho histórico, organizou a narrativa a partir de breves capítulos, enfatizando com frequência os momentos de choques culturais entre incas e europeus, dentro de um jogo entre “nós” e “outros” cujas posições nunca ficam rigidamente definidas ou demarcadas. Nesse sentido, o autor se alinha a obras do passado como as Cartas persas, de Montesquieu, ou a Viagem do jovem Anacársis à Grécia, de Barthélemy, que vicejam nesse terreno do exercício de estranhamento dos costumes e hábitos que são familiares. 

Os principais alvos são a religião e o dinheiro. Os incas notam que, “na sociedade levantina”, o ouro e a prata “não servem unicamente de ornamento ou atributo senhorial”, mas conferem “a quem os possui um poder considerável, na medida em que permitem, na forma de moedinhas redondas, comprar e trocar bens de todo tipo”. Quando começam a conhecer os relatos bíblicos “da religião do deus pregado”, “uma fábula, especialmente, lhes desagradava”: 

a história de um pastor a quem seu deus retira tudo, mulher, crianças, gado, saúde, riqueza, só de brincadeira, depois de uma aposta com um demônio, como que para driblar o tédio, ou por orgulho, para testar a piedade do infeliz. 

O juízo final dos incas é que “esse deus não parecia sério”.

Esse esforço de exposição das incoerências e inconsistências inerentes aos dogmas é uma das constantes de Civilizações. Não por acaso, o romance termina com o rearranjo do destino de Cervantes: a trajetória de Atahualpa e sua comitiva inca pelo novo “Novo Mundo” é frequentemente apresentada por Binet com tintas burlescas. É digno de nota que o autor de Dom Quixote, no final da história, venha acompanhado de Montaigne, inimigo da intolerância — indício claro de que Binet, por meio da farsa, procura revisitar também a dimensão trágica de todo projeto de coerção e ocupação, seja em que época for.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #103 em março de 2026. Com o título “Mudando o curso da história”

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