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Poesia jurássica

Mary Anning, cientista inglesa que transformou a paleontologia no século 19, ganha biografia ilustrada

30jan2023 - 13h26 | Edição #66

Sobre o que fazer com a poesia, Samuel Beckett dizia: “Abrir nela grandes buracos, até que aquilo que se acovarda por detrás escorra para fora”. Nessa visada, podemos ler a cientista inglesa Mary Anning (1799-1847) como uma grande poeta. Anning escavou rochas de onde tirou com as mãos descobertas que mudaram o rumo da história natural.

Em uma narrativa que escolhe o humor como fio condutor, o escritor mineiro Jacques Fux conta a história da menina que ultrapassou limitações de gênero, cultura, educação e da própria epistemologia. Além da vida de Anning, a biografia ilustrada Mary Anning e o pum dos dinossauros traz desenhos do quadrinista Daniel Almeida e a história dos répteis extintos.


Além da vida de Anning, a biografia ilustrada Mary Anning e o pum dos dinossauros traz desenhos do quadrinista Daniel Almeida

Em seu romance Antiterapias (Scriptum, 2013), ganhador do prêmio São Paulo de Literatura, Fux revela um sonho de infância: o de ser paleontólogo. Como escritor, ele movimenta esse anseio no papel de biógrafo. Foi assim que identificou na trajetória de Anning uma narrativa que faltava chegar aos pequenos leitores.

O autor lembra que no livro Nós, mulheres: grandes vidas femininas (Todavia, 2020) a escritora espanhola Rosa Montero apresenta a história de mulheres que fizeram coisas memoráveis, mas escreve apenas um pequeno texto sobre “a primeira paleontóloga da história”. “A biografia da Mary Anning é fascinante: foram descobertas maravilhosas e ideias realmente autênticas — imagino como foi pensar em ‘dinossauros’ com as ‘explicações’ religiosas para esses ‘fósseis’ (sequer existiam essas palavras)”, segundo Fux. Afirmar que ainda não existiam palavras para nomear o que ela fazia não é força de linguagem. O termo “dinossauro” surgiu apenas em 1842, uma criação do estudioso Richard Owen.

Escavações

Em meados do século 19, quem passasse pela costa de Lyme Regis, a algumas horas de Londres, talvez visse apenas uma inóspita faixa litorânea pouco atrativa ao turismo, com suas pedras pontiagudas, ventos lancinantes e maré revolta. Porém, ali repousava um tesouro arqueológico.

Ela é hoje reconhecida como uma das dez britânicas que mais influenciaram a história e a ciência

Richard Anning — o pai de Mary —, seguindo o exemplo de famílias da região, transformou esse potencial geológico em ganha-pão. As famílias passavam semanas recolhendo sedimentos para montar pequenas lojas de curiosidades geológicas e atrair turistas. Atentas à tarefa que lhes era designada e imbuídas do interesse insólito de garimpar descobertas de milhares de anos, as crianças compunham o time de paleontólogos amadores. Mais uma palavra que ainda não existia: paleontologia.

Aos onze anos, Anning encontrou o esqueleto de um ictiossauro, uma criatura desengonçada de 5,2 metros de comprimento. O livro conta que a menina passou dias limpando o fóssil até se certificar de que era uma espécie de peixe-lagarto com mais de 200 milhões de anos. Diz o livro:

A pessoa, além de ter olhos, orelhas e nariz treinados — mais treinados que um detetive-investigador-farejador —, tinha que ser talentosa para desvendar algo de valor no meio de uma montanha de areia, rochas, pedregulhos e sujeira.

Descobertas

A estreia da paleontóloga marcou, já na infância, uma trajetória cravejada de centenas de outras conquistas arqueológicas, como as enigmáticas amonitas (espécie de molusco com cascos espirais que lembram um caracol), pedras bezoar e ainda um de seus feitos mais significativos, a evidência do primeiro fóssil completo de um plesiossauro que, para olhos destreinados, não passaria de um monte de pedras. Os achados de Anning reinauguraram o passado.

Suas descobertas sobre os primeiros ictiossauros e plesiossauros foram o catalisador que transformou o pensamento sobre as origens do nosso planeta e da evolução biológica. Ainda assim, o nome de Mary Anning não era apontado na história oficial das ciências, em função da exclusão quase total das mulheres da vida científica na época. Por ter suas descobertas negadas e ter sido apagada da narrativa oficial dos dinossauros, pouco podíamos saber — até agora — sobre os 48 anos de vida da cientista. Nas palavras de Fux, “apesar de a ficção ser a cola que une os fragmentos, as falhas históricas e memorialísticas, o livro busca ser fiel à biografia da paleontóloga”.

A vida de Anning é um campo minado de acontecimentos explosivos, a começar por sua própria existência. É isso o que faz deste livro “infantil” um atrativo também para adultos. Ainda bebê, ela foi passear com três amigas da mãe quando um raio atingiu a árvore onde elas se abrigavam da chuva e tirou a vida de todas, menos a dela, que, por causa do raio, caiu numa poça de água morna. Dentre dez filhos que seus país tiveram, apenas ela e mais um sobreviveram até a idade adulta.

Museu de novidades

Há muitas teorias sobre a extinção dos dinossauros. Uma delas — a mais excêntrica — é a que conduz a narrativa de Fux: a especulação de que foram eliminados como espécie por causa dos puns que soltavam, estrondosos como a explosão de milhares de fogos de artifício e potencialmente tóxicos. “Como existiam centenas de milhões de dinossauros devia ser um show de fogos (ou melhor, um show de puns) o tempo inteiro”, escreve Fux.

O livro também lembra das várias versões sobre como começam as coisas — de pessoas a dinossauros, passando pela própria Terra —, e de como essas são reinauguradas a cada novo olhar. Como acontece neste breve espaço de resenha, a linguagem vacila e não dá conta do sujeito inteiro, porém a narração literária nos redime da necessidade da completude, pois o que mais interessa são os detalhes, os pontos incomuns, o humor inesperado.

Redimida também pela comunidade científica, Mary Anning é hoje finalmente reconhecida pela Royal Society como uma das dez mulheres britânicas que mais influenciaram a história e a ciência. Segundo o Museu de História Natural de Londres, o legado de Anning permanece vivo na acidentada Costa Jurássica, que se tornou patrimônio mundial da Unesco e hoje abriga um museu-galeria dedicado a ela. Um lugar onde cientistas, aventureiros e crianças se encontram o ano todo em busca da próxima oportunidade de apontar o mundo com os dedos.

Quem escreveu esse texto

Renata Penzani

Jornalista e pesquisadora do livro para a infância, é autora de A coisa brutamontes (Cepe).

Matéria publicada na edição impressa #66 em dezembro de 2022.