Divulgação Científica, Literatura infantojuvenil,

Eram os frangos dinossauros?

Com humor, obra traz galinha apresentando sua relação de parentesco com os “lagartões”

01out2020 - 01h00 | Edição #38 out.2020

É comum chamarmos os dinossauros de “lagartões”, apelido reforçado por fenômenos de massa como a série de filmes de ficção científica iniciada com O parque dos dinossauros (1993), de Steven Spielberg. Nesses blockbusters, avanços genéticos possibilitam que as espécies jurássicas voltem a existir e passem a ser exibidas em um parque temático supostamente seguro e ecologicamente responsável. É claro que tudo sai do controle e temos um tiranossauro à solta. 

O mais famoso dos dinossauros também ilustra a capa desse livrinho/livrão, como se estivesse exposto e empalhado em um museu de história natural. Pela capa, portanto, já supomos que a abordagem do livro terá algo de científica, no sentido de olhar para as origens dos seres vivos. Para completar, na imagem, uma galinha observa o bicho enquanto escuta uma explicação em um aparelho típico das visitas guiadas. 

Ancestral das aves

A palavra dinossauro vem do grego deinos sauros e significa algo como lagarto terrível. De fato, dinossauros podem ser considerados os antepassados dos répteis, mas as coisas são um pouco mais complicadas do que isso. Extintos há cerca de 66 milhões de anos, depois que um enorme asteroide colidiu com a Terra, esses animais povoaram nossas florestas, rios e mares por mais de 200 milhões de anos.  

O impacto do meteoro causou mudanças climáticas radicais súbitas e, em pouquíssimo tempo, a grande maioria das espécies sucumbiu. Dada a distância no tempo, há mais de uma teoria — com base em dados fornecidos por fósseis e outros registros geológicos — de como isso se deu (calor ou frio excessivos, substâncias tóxicas na atmosfera etc.) e de quanto tempo demorou (horas, anos?). 

Mas o fato é que o único grupo de dinossauros que resistiu a tamanha catástrofe é o ancestral das aves, e não dos lagartos, das cobras e das tartarugas. Isso significa que, de certa forma, as aves são dinossauros. Entre os répteis que hoje habitam o planeta, as aves são mais próximas dos jacarés e crocodilos, que também evoluíram desse mesmo grupo. 

É importante lembrar que esse evento não acabou com todas as espécies que viviam naquele período. As primeiras cobras, por exemplo, que muito provavelmente evoluíram de espécies de lagartos, surgiram há mais de 120 milhões de anos. Outros animais também evoluíram, portanto, de dinossauros, mas em outros períodos da história da vida no planeta. 

 

Em A inacreditável, porém verdadeira, história dos dinossauros, o escritor e ilustrador belga Guido van Genechten começa nos apresentando uma galinha. Um narrador onipresente pergunta a ela se por acaso não estaria na história errada. O livro parte, portanto, de uma ideia que a princípio parece apenas um recurso cômico, mas que, na verdade, tem bastante consistência com a história biológica das aves. 

A galinha se mostra muito sabida e, depois de apontar suas próprias características físicas semelhantes às de um dinossauro, recorre a um álbum de família. Ao longo do livro, vai mostrando as fotos de seus parentes longínquos, repetindo algo que fazemos em nossas casas quando apresentamos para as crianças nossos parentes que já se foram, contando suas histórias: como chamavam, onde moravam e o que fizeram em suas vidas. 

Esse recurso ajuda a entender um pouco as semelhanças físicas e conhecer algumas das principais espécies para, ao final, contar um pouco sobre os eventos que levaram à extinção dos dinossauros. O formato grande, o senso de humor e as maravilhosas ilustrações (Van Genechten é o autor do conhecido O que tem dentro da sua fralda?, também publicado pela Brinque-Book) tornam a leitura compartilhada muito divertida. 

A galinha mostra fotos de seus parentes longínquos, repetindo algo que fazemos em nossas casas quando apresentamos álbuns de família para as crianças

No entanto, podemos considerar um desserviço — ao que parece ser uma tentativa de levar ciência para os pequenos — a forma como o livro termina. Além de afirmar que os humanos também são dinossauros — uma ilação muito mais tortuosa —, a galinha aparece carregando um ovo gigante, sobre o qual se senta para ser chocado e de onde vemos sair uma pata de dinossauro. Bastaria que esse trecho fosse tratado como um sonho, por exemplo, para que se evitasse a confusão sobre o tempo, tão bem abordado até aqui. 

Depois de saber desse parentesco, é impressionante como fica evidente a semelhança com os dinossauros ao observarmos as aves: sugiro avestruzes, casuares, emus, perus e a estranhíssima e fascinante cegonha-bico-de-sapato (Balaeniceps rex), que vive na região central da África tropical. Vale a pena fazer uma pesquisa na internet para assistir esses animais em movimento. Livros que sugerem leitura compartilhada poderiam vir com sugestões de leitura para os adultos.

 Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Fernanda Diamant

É editora da revista Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #38 out.2020 em setembro de 2020.