Literatura infantojuvenil, Música,

A sacerdotisa do soul

Biografia de Nina Simone para crianças acompanha sua trajetória de cantora prodígio da igreja a mulher-rebelião

01out2022 - 04h51 | Edição #62


Ilustração de Christian Robinson [Divulgação]

“A única com música dentro de si.” É assim que a escritora norte-americana Traci N. Todd descreve Eunice Kathleen Waymon (1933-2003). “Quando precisou assumir sua voz, era Nina Simone que se apresentava no lugar de Eunice, em um bar decadente de Atlantic City, onde o piano ficava debaixo de um guarda-chuva para escapar das goteiras.” Com ilustrações do premiado artista norte-americano Christian Robinson, Nina: uma história de Nina Simone conta a vida da sacerdotisa do soul para as crianças. Sem medo de soar melancólico, o livro tece a complexidade da mulher que poderia ser “como um cascalho ou como um café com creme”. Ao contrário do que mostra a capa do livro, essa não é uma história cor-de-rosa. Já no título a autora sinaliza: trata-se de uma história.

É um livro sobre as suas facetas de compositora, cantora, pianista, ativista e mãe, com tradução da poeta Nina Rizzi. “Quando recebi o convite, fiquei contente porque sou muito fã da Nina Simone. Inclusive, eu sou Nina por causa dela”, conta Rizzi.

A meninice que habita o nome Nina destaca um ponto marcante de sua iniciação subjetiva: o limiar entre inocência e militância. Os seus sete irmãos aprenderam a tocar piano — o motivo era a intensa relação da música com a religião. A mãe, Mary Kate, era pregadora na igreja batista, e o pai, John Divine, músico. Naquele cenário, a única música livre de ser vista como “coisa do diabo” era a canção de louvor. Já adulta, Nina, então com vinte anos, escondeu o nome de batismo para cantar e tocar na noite.

O livro de Todd narra o encontro de Nina com a expressão de sua música. Com três anos, sentada no colo do pai, que tocava diariamente um pequeno piano vertical, aprendeu a imitá-lo. Não demorou para que passasse a tocar sozinha e a se apresentar na igreja, camuflando aqui e ali o seu preferido Bach em meio às músicas religiosas.

A fúria de Nina inflamavase nos movimentos por direitos civis e dava espaço a músicas mais políticas

No livro, o instrumento assume o papel de narrador, deixando antever na linguagem visual a narrativa primordial. “Nos momentos de maior tensão, os acontecimentos se dão dentro do piano: as marchas, as manifestações, as dificuldades”, observa a tradutora.

Em uma afirmação da literatura como caixa de ressonância para temas sociais inescapáveis, o livro apresenta duas figuras-chave da infância de Nina: a sra. Miller, a patroa de sua mãe — Mary Kate trabalhava como doméstica —, e “Mazzy” (como Nina chamava Muriel Mazzanovich), a professora de piano contratada pela sra. Miller para aperfeiçoar a prática daquela que já se mostrava uma artista em ascensão.

Conforme narra o livro, o gesto da patroa não era só uma benevolência, mas também uma expressão da profunda disparidade social entre brancos e negros, em que aqueles decidiam sobre o acesso destes. Ao mesmo tempo que Nina só pôde ensaiar piano graças às aulas pagas, é essa mesma patroa que impede a menina de brincar com o filho. Ser negra era sua ambivalência: chamada de “a garotinha preta da srta. Mazzy”, Nina só era notada para além da música quando não a queriam por perto.

O som e a fúria

Em setembro de 1963, um crime de ódio racial detonou uma explosão em uma igreja do Alabama. Quatro meninas, com idade de onze a quatorze anos, morreram na hora. O atentado marcou uma transição na carreira da cantora e motivou a composição de “Mississippi Goddam” (1964). Foi a primeira vez que Nina usou a sua música como veículo de rebelião, e fez isso em um gesto de blasfêmia. Sua fúria se inflamava nos movimentos por direitos civis e dava espaço a músicas cada vez mais políticas.

Embora o livro não fale sobre a Nina Simone mãe, ele conta que sua raiva nasce colada ao sentimento da maternidade. “A filha de Nina tinha acabado de completar um ano”, narra a história. Se até ali era esperado que a artista cantasse mais sobre amor, ela foi deixando mais clara a sua posição política em seu repertório musical. “Gosto muito desse livro porque a autora não poupa dizer que em algum momento Nina Simone percebeu que não bastava mais ser educada e polida; ela precisava dizer as coisas como elas eram”, diz Rizzi. Em sua pesquisa para a tradução, a poeta aprofundou conexões com a mulheridade negra. “Ela tinha bipolaridade, algo que não era dito na época porque poderia fazer com que vendesse menos. É um descuido com a saúde mental de mulheres negras. Quando invisibilizamos isso, é como se disséssemos que a pessoa é louca quase que por um capricho.”


Ilustração de Christian Robinson [Divulgação]

Em Nina, uma ilustração de Christian Robinson merece destaque; nela, o piano aparece tomado pelas multidões contra o massacre do povo negro enquanto Nina Simone se deita sobre a banqueta. O breve momento de resignação antecedeu a reação que daria o tom de toda a sua carreira: o silêncio que precede o grito. A partir dali, Nina nunca mais deixaria de ser uma artista política — por esse fato, ela pagou o preço com a própria saúde. Diz o livro: “Um estrondo grave de raiva e medo: o som de pessoas negras crescendo”. Traci N. Todd, cujas iniciais não à toa grafam-se “tnt”, dinamita um brado que ecoa, estrepitante, contra todo o racismo que ainda existe. Mas, enquanto houver “música dentro”, as vozes de fora não farão mais silêncio.

Este texto foi realizado com o apoio do Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Renata Penzani

Jornalista e pesquisadora do livro para a infância, é autora de A coisa brutamontes (Cepe).

Matéria publicada na edição impressa #62 em julho de 2022.