Literatura em língua portuguesa,

De perto, ninguém é normal

O primeiro volume de trilogia de Dulce Maria Cardoso, premiada escritora portuguesa, é publicado no Brasil

28jun2022 - 16h00 | Edição #59

Há muito tempo a literatura deixou de se ocupar das grandes epopeias e jornadas excepcionais e passou a se interessar também pelas histórias comezinhas, protagonizadas por gente como a gente, sem feitos heroicos. Em certa medida, talvez a forma tenha acompanhado esse deslocamento: o cenário contemporâneo traz consigo bons exemplos de autores que conseguiram, em um artifício ilusionista, mimetizar algo da linguagem comum em suas obras literárias. 


Eliete: a vida normal, de Dulce Maria Cardoso

Sendo assim, poderíamos nos perguntar por que boa parte das resenhas de Eliete: a vida normal (publicado originalmente em 2018) valoriza justamente o aspecto reforçado pelo subtítulo do romance, já que não estamos diante de um caso isolado, mas de um movimento com bastante estrada. O que haveria de específico nesse último romance de Dulce Maria Cardoso que possa justificar o encantamento com que tem sido recebido? 

No jornal português Observador, Rita Cipriano escreve que a personagem que dá título ao livro é “normal”. “Tanto quanto se sabe não tem dívidas ao banco, ambições nenhumas, invejas algumas, e pouca força de vontade para ser mais do que aquilo que tem sido sempre: mediana.” 

Ler esse trecho me fez pensar como a própria ideia de normalidade pode estar radicalmente em transformação. Para a realidade brasileira, Eliete tem uma vida especial, no sentido de que está bem acima da média. De todo modo, não é a sua aparente mediocridade o grande mérito às avessas de Eliete, e sim o talento da autora em construir uma personagem contraditória em sua banalidade, interessante em sua desinteressância, com a qual boa parte de nós pode se identificar em alguma medida. 

Publicado em Portugal pela editora Tinta-da-China, Eliete chega ao Brasil pela editora Todavia. Quase todas as resenhas do romance reforçam um aspecto da obra, ora como característica negativa, ora como seu grande feito: a linguagem aparentemente comum. Prevalece quem fica com a segunda opinião, pois não é difícil notar que o esforço para alcançar algo que tenha a aparência de simplicidade também se justifica pelo fato de a obra ser narrada pela própria Eliete. 

Vencedora de premiações importantes, como o Prêmio da União Europeia para a Literatura, Cardoso tem uma vida bem distante da mediocridade: nascida em Portugal, em 1964, foi viver com a família em Luanda, a capital de Angola, com poucos meses de vida. Retornou anos mais tarde e viveu em Cascais, como a sua personagem. Formada em direito, publicou o seu primeiro romance, Campo de sangue, há duas décadas e desde então tem ocupado lugar de destaque na literatura portuguesa. 

Gerações em conflito

Embora alguns de seus livros já tenham sido lançados no Brasil, talvez seja agora, com Eliete, que Cardoso venha a ser mais lida por aqui. O interesse por personagens femininas bem construídas tem fomentado debates importantes. Além da protagonista, temos também a sua mãe e a sua avó paterna, que travam entre elas uma batalha, mantendo uma relação carregada de “afetos ferozes” — tomando emprestada uma expressão da escritora Vivian Gornick.

Eliete nos captura de imediato quando as coloca em confronto. São três gerações de mulheres vivendo dilemas e desafios específicos. Quando o romance se inicia, a narradora está lidando com o primeiro episódio de demência da avó. O retrato que a autora faz do envelhecimento é, ao mesmo tempo, bem-humorado e comovente: “A cabeça e o corpo da avó estavam a morrer, qualquer pessoa podia ver isso, só que a cabeça estava a morrer mais depressa do que o corpo e, se isso não magoava o corpo da avó, magoava o meu”. 

A protagonista tem algo de Emma Bovary; foi contagiada pela devoção da mãe às fotonovelas

Talvez o triângulo formado por Eliete, pela mãe e pela avó seja o grande acerto do livro, seu ponto mais forte. Mas há outros. A protagonista tem qualquer coisa de Emma Bovary, embora não esteja mais no século 19. No lugar dos romances sentimentais que moldaram as fantasias de Emma, Eliete foi contagiada pela devoção da mãe às fotonovelas, que faziam questão de reforçar as mesmas palavras, para que fossem sempre lembradas. Esse gênero está espelhado na estrutura, algo folhetinesca, bem como a limitação de vocabulário parece afetar a personagem, que se repete muitas vezes — mas também tem momentos de reflexões ricas e, se não originais, ao menos desconcertantes para o compasso do livro. Ela é e não é uma mulher comum, porque afinal a ideia de uma pessoa comum, livre de conflitos, é mais próxima de um mito do que da experiência humana. 

Através de uma lente microscópica, vamos nos aproximando do mundo de Eliete, que é assolada por tensões atemporais e outras próprias do nosso tempo, como a relação com a internet e as redes sociais. Enquanto isso, sem alarde, a autora também vai entrelaçando as questões privadas às públicas, as individuais às coletivas, esboçando um panorama do mundo contemporâneo e de suas crises.

Quando a protagonista decide provar uma vida diferente, é ao Tinder que recorre, onde cria um perfil que é uma espécie de alter ego, e assim passa a ter um espaço mínimo de experimentação. Mas, como ocorre com Emma Bovary, o adultério parece ser uma alternativa pálida. A própria Eliete admite que não quer romper com a sua realidade, que o casamento duradouro talvez seja o seu maior trunfo social, especialmente em uma época em que vínculos se dissolvem com tamanha facilidade. A princípio, ela não deseja encontrar uma saída, e sim um caminho de retorno. 

Mas o que aconteceria se a vida à qual ela quer retornar não existisse mais ou nunca tivesse existido de fato como imaginara? “Nunca tendo sabido tratar desse bicho frágil e espantadiço a que chamavam felicidade, preocupava-me apenas em exibi-lo, deixara-o morrer à fome e à sede, mas continuava a exibir o seu cadáver, esperando que todos fizessem o favor de não me dizerem que haviam dado conta do mau cheiro.” 

Eliete promete ser o primeiro volume de uma trilogia. A autora conta que pretendia escrever a sequência quando foi interrompida pelo adoecimento de sua própria mãe, que, como a avó da personagem, passou a precisar de cuidados especiais. É como se tivesse experimentado na literatura dores que agora vive fora das páginas. 

Espero que Dulce Maria Cardoso encontre uma forma de continuar, porque é sempre uma alegria quando encontramos uma autora que, mais do que o talento para elencar palavras bonitas — fórmula que pode ser aprendida —, consegue construir mundos a partir delas.

O especial Livros que falam a nossa língua tem o apoio de Portugal – País convidado da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2022

Livros que falam a nossa língua: uma onda de livros nos mares da língua portugues

Quem escreveu esse texto

Fabiane Secches

É psicanalista e pesquisadora de literatura na Universidade de São Paulo.

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.