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Os laços entre seres

Livro de autor português narra a complexidade dos vínculos afetivos a partir da relação de uma família com seu filho autista

05jul2022 - 15h30 | Edição #61

“Que não te enganem/ os que compram as horas por atacado/ para do teu suor extraírem/ a bandeira de um país que nunca será o da atenção” é a voz e a imagem do escritor português Valério Romão lendo, de maneira compenetrada, um trecho do poema “Fera oculta”, de seu conterrâneo Vasco Gato. O vídeo está no YouTube desde janeiro de 2015: uma entrevista do autor em que foi contemplada a leitura desse poema, escrito, em tom epistolar, a um filho prestes a nascer, e que para mim é um dos mais lindos produzidos em Portugal nos últimos anos.

Embora o enquadramento revele apenas o rosto de Valério, no vídeo está a reunião desses dois notáveis escritores portugueses. Penso que a escolha da leitura do poema, escrito por um contemporâneo seu amigo, pelo qual são trabalhados os laços entre dois seres, e o modo de acomodá-lo naquela sequência de reflexões anteriores desvelam muito da sensibilidade e das atenções que movem o autor.

No poema, sobressai a apreensão em relação a uma outra subjetividade, a quem a voz lírica se conecta por meio de um sentimento ético próprio de um vínculo familiar. E é sobre vínculos familiares que parte importante da obra de Valério é celebrada.

Tive a sorte de conhecê-lo em viagem a Portugal para eventos literários em 2014. Trocamos livros. Ele me presenteou sua obra-prima, Autismo, de 2012 — sobre uma família em que o filho, Henrique, é autista e sobre os desdobramentos que essa condição produz nas certezas e incertezas dos pais e do entorno familiar e social —, e também seu segundo romance, O da Joana, de 2013 — em que trata de uma gravidez malsucedida —, livros integrantes da trilogia Paternidades falhadas. O terceiro romance, Cair para dentro — envolvendo o problemático relacionamento entre uma filha e sua mãe, afligida pelo Alzheimer, ambas afetadas pelo abandono do pai/esposo —, só foi lançado em 2018.

Há uma revisão permanente e exaustiva das identidades, dos papéis, das percepções, das congruências, dos destinos de suas personagens

Conversamos muito menos do que poderíamos, três ou quatro vezes, primeiro na Ilha da Madeira e depois em Lisboa. Lembro a conexão imediata que surgiu de dois fatores: o de gostarmos de poesia contemporânea e o de termos escrito romances que relacionavam o tema do autismo (Ithaca Road, que lancei em 2013, tem uma coprotagonista com Asperger).

As leituras de Autismo e O da Joana me absorveram por completo, pela linguagem, pelo tratamento das presenças protagonistas, pela impressão que me trouxeram de estar diante de um autor incontornável, alguém de uma inquietude criativa, um desassossego que fez todo sentido. Dois livros que, ao se começar a ler, não se consegue largar.

Famílias e fragmentos

Da trilogia, Autismo é o único publicado no Brasil até o momento. Um livro que começa muito bem, com um primeiro capítulo (o romance tem muitos pequenos capítulos) cometido por voz narradora em primeira pessoa atribuída ao avô de Henrique, o senhor Abílio. Há algo próximo do que já formulou o escritor estadunidense Paul Auster, uma arquitetura de mapa geral do romance nesse primeiro capítulo, que é escrito com mão firme. A certa altura a personagem menciona a balcanização do espírito, que parece ser algum tipo de sentença a respeito do risco a que estamos submetidos quando nos engajamos à tarefa de constituir alguma intimidade com outra pessoa, e a partir dela tentar vencer o tempo. Algo que, independentemente dos tais laços de sangue, precisa ser reconstituído (e, nesse curso, falhado) e estranhado (para que haja reaproximar, ou não) o tempo todo. O capítulo termina com a revelação ao avô, que estava se dirigindo à escola do neto para buscá-lo, que Henrique se acidentou.

Difícil, quando se pensa no aspecto relacional e ético das uniões familiares, não pensar em contingências que recaem sobre as relações, a princípio, condenadas a necessidades não disruptivas. O contingente e o necessário — a condição da necessidade, que extrapola as potenciais possibilidades do afeto familiar — se revelam neste romance por meio de uma linguagem muito bem trabalhada, cercando as conexões e as inevitabilidades dos encontros, em sorte e expectativas, entre pessoas, entre existências, que deveriam ser familiares. Há um escrutínio do volume ético que decorre de comportamentos estabelecidos pelo se colocar nas situações extremas — uma ética fadada a não se concretizar em razão de um não cumprimento relacional em que a vontade não é autônoma e não é consequente no sentido de se colocar como barreira à tragédia-quase-aposta quando essa aposta é reunião da qual não se pode, a princípio, declinar.

Estudioso de filosofia, Valério percebe o peso mecânico que se viabiliza pelas narrativas literárias. Há muitas camadas envolvidas no romance Autismo; há uma revisão permanente e exaustiva das identidades, dos papéis, das percepções, das congruências, dos destinos de suas personagens. A fragmentação ganha outro sentido; concebida de maneira habilidosa e sob o compromisso de arquitetar um todo funcional e expositivo dos limites dessa ambição — desse sonhar da harmonia universal, estável, uniforme, condizente — que denominamos família.

Valério, pai de um jovem autista, aproveitou para o livro experiências de sua realidade familiar

Um aspecto que encanta no romance é a ausência de respostas fechadas, apaziguadoras, de angularidades maniqueístas. Seus protagonismos contraditórios, imperfeitos, complexos, sustentam-se bem graças à linguagem elaborada (trata-se de um prosador que, para além do léxico filosófico, dá atenção à poesia). Dessa linguagem se organiza uma inquietude que não é mera pretensão de rebeldia, um trilhar que só pode ser preenchido, ao estabelecer uma verdade própria, pela narrativa ficcional quando esta tem a potência que se espera da literatura.

Valério, que é pai de um jovem autista, aproveitou experiências de sua realidade familiar para criar este romance. Temos, aqui, um escritor que é também tradutor e dramaturgo, dotado de talento, coragem e sensibilidade, buscando uma ética a respeito do mundo que o cerca e das pessoas que nele se encontram — uma sensibilidade que aparece no vídeo, sobretudo quando, na leitura do poema de Vasco Gato, opta e concerta sua fala, sua voz, aos seguintes versos finais:

“Que se foda a época
digo-te já
que se foda a sépia dos futuros
eu quero aparecer no dia
do teu nascimento
desarmado como uma árvore
sem outra missão que não
amparar-te o susto
e dizer-te baixinho
bem-vindo ao continente dos frágeis
podes parar de nadar.”

Nota do editor
A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, que publica a revista dos livros. 

Quem escreveu esse texto

Paulo Scott

Relançou o romance Voláteis pela Alfaguara em dezembro.

Matéria publicada na edição impressa #61 em julho de 2022.