Literatura em língua portuguesa,

Viajar é preciso

Isabel Lucas, curadora do Pavilhão de Portugal na Bienal do Livro de São Paulo, fala sobre trânsito entre as literaturas lusófonas

01jul2022 - 07h32 | Edição #59

Foi a partir da literatura que a jornalista e escritora portuguesa Isabel Lucas decidiu viajar e tentar entender os Estados Unidos, resultando em Viagem ao sonho americano, e depois o Brasil, em Viagem ao país do futuro. Através de doze clássicos, ela visitou diferentes cantos do país — do grande sertão nordestino de Euclides da Cunha à Curitiba de Dalton Trevisan e à margem do rio Negro de Milton Hatoum — entre 2018, quando estava em São Paulo no dia da eleição de Jair Bolsonaro, e 2020, momento em que a viagem foi interrompida pela pandemia. Sobre o fim prematuro, escreveu: “Acabou por ser a maneira dura de me confrontar com a pergunta inicial deste projecto: será possível conhecer o Brasil através da sua literatura?”. Acumulou paisagens, percursos e pessoas e, ao conhecer melhor os brasileiros, Isabel Lucas diz ter se conhecido “um bocadinho melhor também”. 


Viagem ao país do futuro, de Isabel Lucas

São as viagens e trocas que podem nos fazer entender melhor a nossa realidade, e é esse tipo de diálogo que ela busca trazer na programação da Bienal do Livro de São Paulo, da qual é curadora. Em entrevista à Quatro Cinco Um, Isabel Lucas falou sobre seu encontro com o Brasil, o trânsito entre literaturas em língua portuguesa e como o colonialismo tem se colocado em obras lusófonas.

Viagem ao país do futuro é dedicado a André Jorge, “que te deu a ler os brasileiros”. Como foi o encontro?
Quando eu era criança, lembro-me de pegar nos clássicos do Jorge Amado que havia lá em casa e ficar agarrada àquelas histórias, sobretudo as das crianças, ia atrás daqueles meninos da praia. A minha primeira imagem do Brasil na literatura vem de Capitães da areia, Jubiabá. Depois, fui me afastando da literatura brasileira e só voltei a ela com mais intensidade através do André Jorge (editor da Cotovia, morto em 2016), que me apresentou Milton Hatoum e Bernardo Carvalho. Fui entrevistá-los, ainda muito inconsciente de quem seriam, e nunca mais perdi o contacto. Tive a oportunidade de conhecer as pessoas cujos livros estava a ler. E a curiosidade vai aumentando, as coisas alargam, começam a chegar autores de outros lados e passei a estar mais atenta. Mas foi sempre uma coisa intermitente, porque eu lia, mas não conhecia o Brasil. 

Conheci o Brasil muito tarde, já tinha quase quarenta anos. E foi muito importante essa ida, se estabeleceu uma ligação diferente. Comecei a associar as referências que tinha da literatura àquela realidade que me estava ali, em frente aos olhos. Foi como um reencontro com qualquer coisa muito familiar. Não era, mas na minha cabeça era como se finalmente tivesse encontrado um elo. E foi graças ao André, e tive muita pena que ele já não pudesse ver esse livro.

Conhecer o Brasil foi como um reencontro com qualquer coisa muito familiar

O ensino da literatura portuguesa no Brasil e o da brasileira em Portugal não são obrigatórios nas escolas. Esse contato segue reduzido?
Acho que continua a ser reduzido. Seria muito bom que, logo em criança, nos habituassem a ouvir o português falado de várias maneiras, para acabar com a estranheza. O português é falado, escrito de muitas maneiras, porque existe em muitos continentes. É natural que a cultura desses lugares interfira na língua; a língua é viva, tem contaminações. Não por via da escola, mas se calhar essa geração vai fazer essa mudança, porque está a receber, pelo cotidiano, pelas redes sociais, esse outro modo de falar português. É natural. Mas, sim, acho que deveria ser ensinado na escola logo cedo, sobretudo a ler, ouvir, esse português de outras escalas.

Em 2015, você fez uma reportagem para o jornal Público sobre orgulho e preconceito entre a literatura portuguesa e a brasileira.
Essa reportagem causou alguma polémica porque as pessoas tinham percepções diferentes sobre esse relacionamento entre as literaturas. Há autores que conseguem furar um bocadinho isso. Quando o Itamar Vieira Junior ganhou o prêmio LeYa, foi primeiro publicado em Portugal e só depois no Brasil. Continuo a achar que há resistência dos leitores de entrar em outro modo de falar português. Os editores retraem-se de editar brasileiros. Há alturas em que tentam, publicam, e, apesar de boas críticas, não revertem em vendas. E, quando não há livros disponíveis no mercado, isso afeta a leitura. Devia haver políticas de incentivo para fazer os livros circularem entre os países, com menos impostos. E também dos livros poderem existir não só em livrarias específicas, mas estarem disponíveis para toda a gente, haver o encontro fortuito entre o livro e o leitor.

Há mais contato com literaturas lusófonas da África? 
Há, por uma razão simples. Esses países têm pouca capacidade de publicar, e sempre houve um trânsito grande entre os escritores africanos de língua portuguesa e Portugal. Muitos vivem aqui, e era aqui que tinham um sítio para publicar os livros. Além de que, da geração dos meus pais, muitos viveram em África ou passaram temporadas por causa da guerra colonial. África sempre foi mais próxima temporalmente nesse sentido, havia uma troca maior, porque eles precisavam mais de nós, e nós fomos tirando partido disso. Há sempre uma confusão muito grande sobre as nacionalidades do Mia Couto ou do Agualusa — eles têm as suas nacionalidades, são moçambicanos, angolanos, mas nós, sem querer ou por querer, olhamos para eles como se fossem nossos, também. Eles são muito mais lidos nas escolas do que os brasileiros.

O que você buscou nos 21 autores da programação da Bienal?
Vinte e um autores parece muitos autores, mas são poucos (risos). Teriam de ser autores que têm lançamentos  recentes no Brasil, e que fossem pessoas diferentes entre si, representassem uma diversidade. Eu também gostava muito que os escolhidos dialogassem com o Brasil. Minha ideia era de que esta Bienal fosse uma conversa entre autores portugueses e brasileiros. Eu gostava que houvesse surpresa, que pessoas diferentes pudessem conversar, porque estamos em um período em que as conversas entre os diferentes estão cada vez mais difíceis. Foi esta a minha tentativa — de haver diálogo, troca, curiosidade por parte de quem está a conversar,  e também que toda a gente tivesse interesse pelo que se vai passar ali. 

A crítica ao colonialismo é uma tendência. Como isso se coloca na literatura em língua portuguesa?
Começa a colocar-se. Neste momento, tem sido mais em crônicas jornalísticas, em conversas. Não vejo isso ainda muito nos grandes romances ou na ficção. A ficção que foi escrita há alguns anos, isso sim, começa a ser discutida em função desse pensamento atual. A literatura leva tempo a reagir, é um tempo mais demorado, é preciso que as coisas se enraízem, mas é um tema inevitável. Há escritores que certamente estão a começar a pegar neles e, se calhar, são os que vêm da África, que já o estão a fazer, e que chegam e editam aqui, e isso começa a entrar no cotidiano e passa depois para todo o resto. 

Um tema particular à literatura portuguesa, como nos livros de Dulce Maria Cardoso e Isabela Figueiredo, é o regresso.
Eu apercebi-me de que as guerras coloniais, entre as ex-colónias portuguesas em África e Portugal, é um tema muito desconhecido no Brasil, e que está a chegar via esses autores portugueses publicados no país. O Brasil foi uma colónia que se tornou independente há duzentos anos, essas ex-colónias africanas tornaram-se independentes há menos de cinquenta anos; portanto, muito recente. Esse despertar dos brasileiros por esse aspecto de uma história comum, essa consciência por parte do Brasil, também devia estrar na conversa quando se fala de descolonização.

Passou a entender melhor Portugal depois de ler brasileiros? 
Acho que sim, é sempre bom ler mais. Ao longo da minha vida fui tendo sorte de encontrar pessoas que me incutiram essa curiosidade. Eu tinha uma bisavó que dizia uma frase muito engraçada, que muitos velhotes naquela altura diziam: “Até morrer, estamos sempre a aprender”. Ouvir alguém muito velhinho dizer isso, manter essa curiosidade pelo mundo, é uma lição. Chegamos a uma dada altura na vida e percebemos que o tempo é escasso e há tanta coisa para fazer, tantos livros para ler, tanta gente para conhecer, que nos ajudam depois a entender melhor aquilo que somos e o pedaço de mundo em que vivemos. É natural que depois das experiências que tive no Brasil olhasse para a minha rua de uma maneira diferente.

Percebemos melhor o mundo à nossa volta quando ele é posto em perspectiva a outros mundos

Ainda agora estava ali no café a fazer uma transposição: se eu estivesse neste momento a tomar um café numa rua de São Paulo, a paisagem humana que eu estaria a ver seria totalmente diferente. Essa consciência só vem quando temos essas vivências. Conseguimos perceber melhor o mundo que temos à nossa volta quando ele é posto em perspectiva a outros mundos. E o Brasil teve um efeito muito grande em mim. Também no modo como lido com a língua. Às vezes, dou por mim a escrever expressões que vêm do português do Brasil. Já faz parte da normalidade, aquela palavra já está no meu pensamento, e quando as palavras passam a fazer parte do nosso pensamento, elas fazem parte de nós, não há nada a fazer. 

O mote desta Bienal é “É urgente viver encantado”, frase de Valter Hugo Mãe. O que é viver encantado?
A maneira como interpreto tem muito a ver com as leituras que fiz de algumas crónicas e ensaios de Salman Rushdie, de escritores que escrevem sobre a importância do mundo da fantasia como modo de entender o real. Eu vejo essa frase nesse diálogo entre o entendimento do real e a construção da fábula, do mito, da fantasia. De uma maneira muito eficaz, às vezes, isso nos leva a uma ética, a um pensamento, àquela espécie de “clarividência” que eventualmente acontece quando estamos diante de algo e dizemos: “Ah, era isto!”.

Mais alguma coisa?
Eu gostaria muito que houvesse uma memória, que houvesse qualquer coisa da programação que ficasse na memória de algumas pessoas. Que houvesse um fruto qualquer, uma semente, por mais pequenina que fosse, que ajudasse a continuarmos nesta conversa que é tão importante. Acho que isso já seria muito bom. 

O especial Livros que falam a nossa língua tem o apoio de Portugal – País convidado da Bienal Internacional do Livro de São Paulo 2022

Quem escreveu esse texto

Beatriz Muylaert

Jornalista e editora executiva da Quatro Cinco Um.

Matéria publicada na edição impressa #59 em junho de 2022.