Infantojuvenil,

Uma centena de garotas da hora

Fábulas potentes mostram o que uma menina pode ser quando crescer

13nov2018 - 13h36 | Edição #6 out.2017

Bati o olho no título e deu vontade de corrigir. Histórias de ninar sobre garotas rebeldes ou para crianças rebeldes. Birra boba. O livro é fundamental, rico, cheio de camadas. (E o garoto, rebelde ou não, vai curtir também, deixe o título para lá.)

Aproveite e já chacoalhe a preguiça de crowdfunding — o livro foi financiado coletivamente, arrecadou mais de 1 milhão de dólares —  e de startup. As autoras são fundadoras do Timbuktu Labs, “um laboratório de inovação em mídias infantis” que foi considerado a melhor startup italiana em 2012. Elena Favilli é “empreendedora de mídia e jornalista”, e Francesca Cavallo é escritora e diretora de teatro. O livro é um sucesso, e já está a caminho o segundo volume.

A ideia é simples e redondinha: uma coleção de cem biografias de mulheres notáveis. Cada página tem um perfil, coisa de três parágrafos, medida certeira para a hora de dormir. “Mais uma história? Tá bem, mas é a última.” Pá-pum, acabou, boa noite, dorme bem. Na página espelhada, uma ilustração-retrato — quase todas bem impactantes (sessenta ilustradoras do mundo todo assinam os cem retratos).

A escolha das personagens é generosa — com a história, com os leitores e com o futuro. Ciência, arte, esporte e humanismo têm pesos iguais. É astrofísica do lado de supermodelo, rebelde vizinha de rainha, atleta colada em escritora, tatuadora do lado de maestra. Demonstração prática da ideia de que a criança pode ser o que quiser quando crescer. Tem até final feliz misturado com tragédia.

E não é só pessoal de esquerda. O critério é relevância histórica, sem recorte ideológico. Estão lá Catarina, a Grande, Margaret Thatcher, Coco Chanel, que poderiam ficar de fora numa lista de cem menos plural. Apesar da predominância de norte-americanas (trinta), tem mulher do mundo todo. Do Brasil entraram a poeta Cora Coralina e a surfista Maya Gabeira.

Voltando às páginas, a cada virada vêm o perfil e o retrato. Sobre o retrato, uma frase. A união desses elementos faz de cada biografia uma fábula potente, muitas com moral da história. Persistência e perseverança tem aos baldes. Tem a bailarina Alice Alonso, cega. A motocilista Ashley Fiolek, surda. A ativista Helen Keller, cega e surda. E a velocista Wilma Rudolph, que superou a paralisia infantil para virar recordista olímpica.

Não aceitar regras também é tema central. Com grande equilíbrio de novo. O livro celebra a cirurgiã americana que só se vestia de homem na virada do século 20 (Mary Edwards Walker) com a mesma alegria que valoriza o veleiro rosa-choque da marinheira australiana que deu a volta ao mundo (Jessica Watson). Pode ser Penélope Charmosa também, tudo bem.

Por fim, o livro serve como lembrete para quem está lendo para a criança. Primeiramente, porque mostra o quanto ainda estamos distantes de valorizar essas mulheres-modelo de fato. Quantas histórias contadas ali são novidades para o adulto! Dá vontade de dar um Google a cada cinco páginas. Em segundo lugar, pois as histórias são pontuadas de princípios fundamentais, coisas que talvez você queira ensinar para seu filho, mas, na correria, acaba esquecendo. Olha o que a mãe da Hillary Clinton falou quando moleques zoaram com ela: “Hillary, vá lá e lide com eles. Se não fizer isso, eles terão vencido sem nem lutar”.

Os perfis também relembram o tamanho da importância dos pais. Dos que apoiam, incentivam e lutam junto aos que colocam obstáculo, eles aparecem como motor das histórias. E é inevitável parar um segundo para pensar em que tipo de mãe ou pai você está sendo. Não que seja possível acertar tudo, é claro. Aliás, tem um presente para os pais na página da Margaret Hamilton, cientista da computação que participou da programação das missões Apollo: “Em 20 de julho, poucos minutos antes de Apolo 11 tocar a superfície lunar, o computador começou a emitir mensagens de erro. A missão estava em perigo. Por sorte Margaret havia programado o computador para focar na tarefa principal e ignorar o resto. Então, em vez de abortar a missão, a Apollo 11 pousou em segurança na Lua”.

Só tiraria “por sorte”. Não foi sorte, foi inteligência, sabedoria, competência. Mas olha que mensagem boa. Foco no que importa: vai ter aviso de erro no caminho, mas pousa essa Apollo 11 na Lua que a gente precisa fazer história. 

Especial Infantojuvenil: oferecimento Itaú Social

Quem escreveu esse texto

Heloisa Lupinacci

É editora do site Panelinha.

Matéria publicada na edição impressa #6 out.2017 em junho de 2018.