Infantojuvenil,

As flores de Liniers

Terceira história do quadrinista argentino inspirada em suas filhas é uma grande homenagem à imaginação das crianças

25nov2021 - 16h53 | Edição #52

Um avião cai em uma ilha deserta. Três meninas resolvem, então, explorar o local. Por lá, encontram plantas exóticas, flores que conversam, uma casa pequenina dentro do tronco de uma árvore onde mora um gorila, um dragão devorador de flores… As aventuras são infinitas na imaginação das crianças. É o que nos ensina o livro Flores selvagens, escrito pelo quadrinista argentino Liniers, inspirado por suas três filhas, Matilda, Clementina e Emma, e que sai agora no Brasil pela VR Editora, com tradução de Fabrício Valério  "uma versão da série Lost para as crianças, mas com um final mais decente", como define o autor. Em entrevista à Quatro Cinco Um, o criador de Macanudo falou sobre brincadeiras, Mafalda e como ser pai mudou sua forma de ver o mundo.

Qual foi a inspiração para o seu livro Flores selvagens?
A primeira faísca foi uma foto incluída no livro, que tirei das minhas três filhas, em frente a uma selva. A menor parece apontar para essa selva, como se visse a felicidade. Então, o assunto que eu estava interessado em investigar era o da brincadeira. Como era brincar quando éramos crianças, e como, quando crescemos, esquecemos ou brincamos de maneiras diferentes. Na infância, entrávamos de cabeça nas brincadeiras. Queria me lembrar disso e colocar em um livro para ver o que acontecia. É também uma versão da série Lost para as crianças, mas com um final mais decente.

É o terceiro livro protagonizado por suas filhas, que apareceram também em Os sábados são como um grande balão vermelho e Boa noite, Planeta. Elas mudaram bastante o seu trabalho? 
Não sei se as minhas filhas são as protagonistas, mas são a minha inspiração. Em outras palavras, esses três livros surgiram quando as observava. Olho para elas e tento capturar como se dá a relação entre irmãs. Quando você se torna pai, as coisas mudam, o trabalho, tudo. A sua vida, as coisas com as quais você realmente se preocupa. 

Você lê seus livros para elas?
Não sou de ler meus livros para elas. Elas leem, sim, os livros em que elas aparecem. Flores selvagens elas sabem de cor, mas não gostam muito do Macanudo. Lemos muito juntos: romances, livros infantis, histórias em quadrinhos. Dou muita importância à literatura infantil porque ela é a base de tudo o que vamos ler na vida, então tento fazer bons livros. Bem de vez em quando lemos um de minha autoria.

Flores selvagens é uma grande homenagem à imaginação das crianças. Como artista, qual a importância dessa imaginação para o seu trabalho?
O tema principal do livro é a imaginação. Tudo está acontecendo na cabeça das meninas. Quando éramos pequenos, a imaginação era uma ferramenta de defesa contra o tédio. Quando eu ficava um pouco entediado com meus irmãos ou com amigos, lá íamos nós. O tédio é o meu inimigo número um. Não há nada que eu odeie mais do que ficar entediado. Foi assim que comecei a desenhar quadrinhos. A imaginação não é importante apenas para o meu trabalho, é importante para a minha vida. Não poderia pensar em uma vida sem ter imaginação, sem me deixar levar por ela.

“Só a realidade pode matar um dragão” é uma frase que marca bastante a história. De onde surgiu?
Era uma brincadeira de criança. É aquele momento em que o jogo é desarmado em um segundo. Lembro-me de quando era pequeno, brincava na casa de amigos e os meus pais sempre vinham me procurar no melhor momento da brincadeira, quando tínhamos inventado muitas regras e teorias. Eles vinham sempre no melhor momento: “Ricardito, seu pai veio te buscar”. É como aquele momento em que você acorda do sonho, e o sonho parece que vai se apagando, escorrega pelos seus dedos, e depois você mal consegue se lembrar.

O encadeamento do que vai acontecendo na história é curioso. Como esses elementos – o gorila em miniatura, o acidente de avião, as flores falantes – foram sendo concatenados?
Essas são as coisas que aparecem na história, muitas até surgiram da vida real, ou de brincadeiras com minhas filhas. Em um dado momento, eu estava dirigindo por onde moro, pela floresta, e tinha neve. Uma das meninas viu algo se mover. Eu disse que devia ser um gorila, e elas me disseram: “Mas não há gorilas aqui!”. Eu respondi: “Mas é um gorila muito pequeno”. E sempre que passávamos por ali, falávamos desse pequeno gorila e a gente morria de rir. Muitas coisas surgem assim, de pequenos detalhes que a gente observa e coloca no bolso para ver se um dia acaba usando. 

É interessante também pensar nas meninas como “flores selvagens”, tanto pelo olhar da flor da ilha quanto do dragão e até nas ilustrações de flores dentro do livro. Você as vê como flores selvagens?
Sim, gosto da imagem das flores selvagens, de algo que é delicado e selvagem ao mesmo tempo. É como eu vejo esteticamente, é opressor mas é o que pode sobreviver no meio da selva. É como vejo minhas filhas também, que têm o potencial de serem selvagens, de ir atrás do que estão procurando, e ninguém pode impedi-las. Elas brincam com a imaginação, se divertem, cuidam de si mesmas, brigam, e tudo isso está no livro. Vivo com três flores selvagens e também com uma mãe selvagem, que é uma árvore selvagem.

Que livro você gostaria de ter lido quando criança?
Tive a sorte de começar a ler o que tem de melhor para as crianças, que é a Mafalda. Li a Mafalda quando era pequeno, e a Mafalda me ensinou a questionar o mundo e a não aceitar as coisas que vinham de cima como algo sagrado. É possível questionar tudo e devemos fazer isso. Gosto muito de ler para as minhas filhas livros como os de Tomi Ungerer e de Maurice Sendak, que não existiam na Argentina na minha infância. Fiquei encantado quando Harry Potter apareceu, por exemplo, ou todos esses romances, livros Young Adult, como chamam. Eu li Tom Sawyer a Stephen King. Não havia esses romances de ficção científica ou futuros distópicos. São tantos títulos que tenho inveja dessa geração. Ou não, porque são tantos que você pode acabar não encontrando nada.

Como incentivar o hábito de leitura nas crianças?
Só há uma maneira de incentivar a leitura nas crianças: ver que seus pais estão lendo. Porque as crianças são esponjas e fazem o que veem.  Se alguém disser “vá ler” enquanto assiste à televisão o dia todo, as crianças não vão se interessar por livros, porque a TV vai parecer mais interessante. Quando eu era pequeno, via meus pais lendo o tempo todo, e tive a sensação de que tinha que aprender a decodificar esses objetos para ser como meus pais.

Quem escreveu esse texto

Paula Carvalho

Jornalista e historiadora, é autora e organizadora de Direito à vagabundagem: as viagens de Isabelle Eberhardt (Fósforo).

Matéria publicada na edição impressa #52 em outubro de 2021.