O filósofo Geoffrey Lloyd e a antropóloga Aparecida Vilaça (Divulgação)

Filosofia,

Formas de ver o mundo

Em diálogo acessível e indagador, Aparecida Vilaça e Geoffrey Lloyd esmiúçam as relações entre humanos e animais no povo wari’

31ago2025 • Atualizado em: 01set2025 | Edição #97

O que separa os humanos de outros animais? Por mais de trinta anos, Aparecida Vilaça buscou entender essa questão realizando pesquisas etnográficas sobre as relações estabelecidas pelo povo indígena wari’ entre humanos e outros animais. Essas pesquisas foram o ponto de partida de uma conversa contínua entre a antropóloga, professora do Museu Nacional, e o filósofo galês Geoffrey Lloyd, professor da Universidade de Cambridge, que resultaram no livro Onças e borboletas — escrito na forma de um diálogo livre, indagador e acessível ao público geral, ainda que o leitor familiarizado com antropologia e filosofia possa tirar melhor proveito.

Desse ponto inicial outros temas se desdobram, como razão, magia, verdade, mentira, mitos e crenças antigas e modernas. Ao longo do livro, os autores se perguntam sobre as possíveis conexões entre três sistemas lógico-culturais (wari’ — antigos filósofos gregos — comentadores modernos), a partir de seus respectivos campos de conhecimento. O dialogo não propõe oferecer um quadro comparativo sistemático e conclusivo, mas sim compartilhar uma série de especulações e apresentar, como resultado, um esforço mútuo de compreensão conceitual.

Perspectivas

O povo wari’, fio condutor do diálogo, é composto por cerca de 4 mil pessoas que vivem em Rondônia, na fronteira do Brasil com a Bolívia. Até meados da década de 60, aldeias inteiras foram dizimadas por seringueiros. Posteriormente, os waris’ passaram por um processo de “pacificação” com os brancos e de conversão ao evangelismo, o que acarretou mudanças radicais em suas crenças e modos de vida.

As relações de parentesco estabelecidas entre os waris’ incluem outros animais, o que significa a inexistência de uma separação rígida e fixa entre nós/humanos e eles/bichos. Os relatos etnográficos de Vilaça mostram como, para esse povo, a fronteira homem-animal depende do contexto e das perspectivas dos entes relacionais, ou seja, a humanidade não é dada por nascimento. Este é um ponto fundamental, a partir do qual os autores definem o tema da transformação de seres vivos como o centro do debate.

No lugar de uma divisão fixa entre ‘nós’ e ‘eles’, os waris’ constroem passagens transformativas

A transformação é um conceito-chave para compreender o mundo cosmológico greco-romano, argumenta Geoffrey Lloyd. Mas, em muitos casos, ela é permanente, como na transformação definitiva da ninfa Dafne num loureiro. Já para os waris’, a transformação é reversível e instável.

Vilaça cita como exemplo os bebês, que podem passar por processos de humanização gradativa. Ao nascerem, eles são vistos como animais de algumas espécies e enquanto crescem ocorre uma oscilação identitária. Ser humano equivale à aquisição de hábitos e comportamentos, entre os quais se destaca aquilo que o corpo ingere, pois humanizar-se é uma transformação que passa pelo corpo. E são muitos os atributos do corpo, inclusive os afetos, como compartilhar alimentos e ficar junto. Semelhanças e diferenças entre waris’, animais e brancos são marcas corporificadas, e a comida assinala identidade e compartilhamento de perspectivas.

No lugar de uma divisão fixa e restrita entre pares como “nós” e “eles”, os waris’ constroem passagens transformativas. Assim, conclui Vilaça, alguns animais, como por exemplo a onça pintada, podem atuar como humanos e se ver como humanos. Tal transformação depende dos olhos de quem vê e são reversíveis no presente, diferentemente de Dafne, que jamais poderá deixar de ser um loureiro, sob qualquer perspectiva.

Em escritos chineses antigos, diz Lloyd, a “respiração” e a “energia” têm papel crucial para atestar a origem mutável de toda diferenciação. A ideia de um mundo em fluxo está presente na China, mas não entre os gregos, e “temos de agradecer aos wari’ pelos registros importantes desta instabilidade”.

Corpos instáveis

Os waris’, segundo Vilaça, não falam que as coisas são ou não são, mas aludem à transformação de coisas e de seres, que, para eles, só existem em estado de transformação. Uma vez que aceitam conviver com perspectivas distintas, nada é generalizável, seguro ou universal. Todas as identidades dependem das relações, são mediadas por elas e só podem ser compreendidas em contextos específicos.

É nesse sentido que o reconhecimento dos humanos transformados em animais pode se dar por meio do estranhamento, advindo, por exemplo, da observação de atos não habituais, especialmente ligados à alimentação: um humano que lambe folhas no chão sinaliza sua transformação em onça, de modo que o corpo atua como uma espécie de “máquina de tradução”. Mas o corpo, tal como concebido pelos waris’, também não é facilmente traduzível, já que não é um objeto dado. O corpo é relacionado aos hábitos, costumes e modos de ver e agir.

Entre os waris’ nada é natural nem é dado, explica Vilaça, e a separação homem-animal só aparece como um dado a priori na sua mitologia. Tudo o que tem espírito pode se transformar em humano. O espírito é, justamente, a capacidade de se transformar em outros corpos. O que significa que ele não estabiliza identidades mas, ao contrário, provoca instabilidade e fluidez.

Para os autores, os casos de transformação animal-humano não podem ser considerados alucinações, sonhos ou mero discurso metafórico, que é o que ocorre em exemplos de histórias encontradas na China Antiga, como a do homem que se transforma em borboleta, assim resumida: como saber se o homem sonhando ser uma borboleta não é uma borboleta sonhando ser homem?

As transformações, para os waris’, não são vistas como anomalias que precisam ser escondidas, domesticadas, nem exigem uma solução lógica, como ocorre entre nós, modernos. O ponto destacado não é apenas que humanos se transformam em animais, mas como a transformação, em geral, é concebida e onde a racionalidade entra nas diferentes perspectivas de tais concepções.

Lloyd cita a crença na reencarnação entre seres vivos (ou seja, não apenas os humanos) e os ensinamentos mágicos e religiosos dos gregos que demonstram não haver incompatibilidade radical entre magia e ciência. Os antigos utilizavam diferentes métodos e estilos quanto a isso, entre eles a “medicina dos templos”, que nunca foi considerada mera superstição.

Paralelismos

O diálogo estabelecido ao longo de quinze capítulos — a maioria deles batizados com uma pergunta, entre as quais “O xamanismo é um tipo de doença?” e “Essas transformações podem ser comparadas às da ficção literária?” — nos ensina, segundo Vilaça, a “não reduzir as categorias dos wari’ às nossas”, pois compreendê-los significa refletir criticamente sobre as nossas próprias categorias.

A existência de um parentesco entre os seres vivos se encontra na ideia de reencarnação na Grécia Antiga e pode ser associada à transformação dos waris’, embora esse povo não fale em transformação depois da morte. Segundo Lloyd, o papel que as transformações ocupam no pensamento grego desafia, por si mesmo, a existência de uma separação rígida entre os seres vivos e suas espécies. É um equívoco generalizar o pensamento grego a partir da sua anteposição ao irracionalismo.

Onças e borboletas fomenta o diálogo interdisciplinar a partir de perspectivas de diferentes povos e áreas de conhecimento, suscitando questões que permanecem em aberto e que nos convidam a uma reflexão sobre as possibilidades de expansão dos limites que nós, humanos, impomos à nossa própria humanidade.

Quem escreveu esse texto

Ana Cristina Braga Martes

Socióloga e escritora, é autora de A origem da água (Confraria do Vento)

Matéria publicada na edição impressa #97 em setembro de 2025. Com o título “Formas de ver o mundo”

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