O filósofo francês Michel Foucault em 1979 (Bettmann/Getty Images)

Filosofia,

A arte da recusa

Em conferência de 1978, Foucault mostra como a crítica exige coragem de se contrapor, o que torna revelador que tenha caído em desuso

19jan2026 | Edição #102

A crítica, para Michel Foucault, é uma virtude — o que torna tão mais revelador que ela tenha caído em desuso num mundo de seguidores e cancelamentos. Revelador não só dos tempos que vivemos, mas de como o filósofo tem sido lido e atualizado por estratégias que talvez seu pensamento não acompanhasse e que, sob a eventual aparência crítica, propõem na realidade o oposto: o mandamento, a cartilha, a obediência, a irreflexão.

Para Foucault, a crítica está ligada ao “desassujeitamento”, à recusa de se submeter ao poder: 

[…] a crítica é o movimento pelo qual o sujeito se dá o direito de interrogar a verdade sobre seus efeitos de poder e o poder sobre seus discursos de verdade; a crítica será a arte da inservidão voluntária, da indocilidade refletida. 

Enquanto houver crítica, haverá saídas, porque ela está sempre fora do círculo de influência do poder.

Além de “O que é a crítica?”, conferência proferida na Sorbonne em maio de 1978, o recente compilado da Ubu inclui, como a edição francesa em que se baseia, “A cultura de si”, apresentada na Universidade da Califórnia, em Berkeley, em abril de 1983. Apesar de não constar desta edição, uma terceira conferência, na qual o filósofo discorre sobre a “parresia” (conceito grego que define a verdade como “a coragem de dizer”) e que integrava o mesmo ciclo apresentado em Berkeley, paira sobre as outras duas, amplificando os sentidos.

Foucault parte de um artigo de Kant publicado em jornal, em 1784 (“O que é o Iluminismo?”), para propor uma filosofia do presente, cuja matéria é a atualidade das nossas relações com a verdade, dos nossos deveres conosco e com os outros. Daí a conexão natural com a “parresia” e a “cultura de si”. A crítica nada mais é do que uma questão ética, parte do processo de “constituição de nós mesmos”.

Questionar a submissão ao poder é fundamental para o governo de si e a liberdade de agir

“Parresia” é a verdade medida pelo risco. Significa correr o risco de dizer a verdade e se aplica sobretudo à imagem pública: o risco de perder o poder. Não é portanto qualquer verdade, mas a que desafia o poder e compromete o lugar e a imagem de quem a diz. É a verdade capaz de pôr à prova o sujeito que a enuncia, não a que o favorece ou reflete a expressão de uma crença pessoal, do que está comprovado ou foi aceito por todos. É antes a verdade que contraria, o oposto da demagogia e do populismo. É acima de tudo um ato consciente de coragem, fundamental para a democracia.

Ela mostra que, nesse trabalho ético de formação e indagação histórica sobre quem somos, o que está em jogo não é a reafirmação de si, de uma suposta essência ou identidade — como pode parecer à primeira vista, ainda mais num mundo regido pelos parâmetros autodefinidores e especulares das redes sociais —, mas ver-se de fora, questionar-se, recusar o que somos. É a possibilidade de uma formação/transformação permanente, de abrir mão da imagem que nos foi atribuída ou que ansiamos por nos atribuir.

A crítica põe-se numa posição reflexiva, exterior ao seu objeto. Ela depende do outro, precisa dar um passo atrás ou para fora para poder ver — e, no caso do sujeito, para poder ver-se como outro, de fora do lugar ou grupo ao qual ele pertence ou crê pertencer. Se ela exige a coragem de se contrapor ao poder que subjuga, em nome da verdade, da independência e da autonomia (nunca alcançada, já que sempre depende do outro que é seu objeto), também supõe uma perda. Não seria virtude sem risco. E sem a consciência dos limites do conhecimento. A razão absoluta, que não leva em conta suas contradições, resulta em despotismo. A crítica não é simplesmente uma questão de opiniões independentes e autônomas. Ela interpela o sujeito enunciador, consciente de seus limites e contradições.

Cuidado

Foucault faz a genealogia da crítica no Ocidente a partir dos séculos 15 e 16, sobretudo com a Reforma e as lutas religiosas e antipastorais, quando surge o problema da governabilidade e a dúvida sobre como (e se) queremos ser governados, quando o poder passa a ser reversível. E busca o modelo do “cuidado de si” na Grécia entre os séculos 3 a.C. e 3 d.C.

A ética surge então como aquilo que não é evidente nem imediato ou que está dado por uma cartilha que se pode consultar numa urgência. Ninguém é ético por nascimento, pertencimento, inconsciência ou coerção. A ética é uma virtude que se conquista, vem do trabalho constante sobre si mesmo, de um esforço reflexivo. Tem a ver com “o sentido que [as pessoas] dão à sua própria conduta”.

Como agir quando faltam parâmetros? Ao contrário do que uma sociedade narcisista e consumista leva a crer, ocupar-se de si é pôr-se em questão, evitando a facilidade da ordem prévia e da pedagogia dos manuais diante do que nos desafia. É a vida convertida num perpétuo processo de formação que nos torne capazes de tomar decisões diante do inédito, para o qual não há prescrição moral. Para isso, é preciso assumir que o real não pode ser domesticado. O real é o material e a razão da ética.

Nesse processo, questionar a submissão ao poder é fundamental para o governo de si e a liberdade de agir. Liberdade que não tem nada a ver com individualismo, pois, fruto de uma relação com o outro, implica uma relação crítica e reflexiva consigo mesmo. Ou seja: “tornar-se um campo de observação”, ser capaz de pôr-se em questão e à prova, contradizer-se. A ética é uma luta permanente contra as ilusões e as certezas do “eu”. Não é a construção de uma armadura impermeável; tampouco a garantia de um real previsível; é o cultivo da dúvida para o enfrentamento do que nos escapa.

E aí já não bastam as instituições — o sistema educacional, o sistema político. Há as pessoas que as ocupam. O trabalho de si não acaba, porque depende contraintuitivamente do que o surpreende e é sempre outro. A crítica é o movimento sobre o que ela não é, mas sem o qual ela não existe.

Por isso, o “cuidado de si” nada tem a ver com narcisismo. Há uma austeridade no processo de formação de si que contraria a cultura do “eu” autodeterminado e satisfeito com suas conquistas. Nesse sentido, a ética surge como o trabalho de uma vida inteira, ao qual Foucault dá o nome de “estética da existência”.

Quem escreveu esse texto

Bernardo Carvalho

Escritor e jornalista, é autor de Os substitutos (Companhia das Letras)

Matéria publicada na edição impressa #102 em fevereiro de 2026. Com o título “A arte da recusa”