Filosofia,
Elogio à poesia
Em encontro na USP, o português João Constâncio trata a experiência amorosa como parte do pensamento filosófico
13out2025Quando apaixonados, nos sentimos, mais do que nunca, nós mesmos. E, no entanto, já somos outros. Esse é um dos principais paradoxos de Fedro, célebre diálogo de Platão, segundo o professor português João Constâncio. “A perda de nossa identidade, o fato de passarmos a ser outros, é central na obra [de Platão]. O Fedro trata o eros como uma forma de loucura, que nos leva para lá de nós mesmos. Quando acaba, nós somos de novo outra pessoa, que já não se identifica com nada do que havia antes.”
Constâncio acaba de lançar pela Tinta-da-China Brasil (selo editorial da Associação Quatro Cinco Um) Três discursos sobre eros: uma meditação sobre o Fedro de Platão. O ensaio é uma investigação sobre a concepção da paixão amorosa segundo o filósofo grego.
Catedrático do Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa, o autor abre em Três discursos sobre eros novos diálogos entre o texto platônico, escritores e pensadores de diversas épocas — da Antiguidade até os contemporâneos —, além de gêneros variados, do romance à poesia e à própria filosofia que, de alguma maneira, interpretaram o eros de Platão.
Ao analisar e justapor textos como as Confissões, de Santo Agostinho, Morte em Veneza, de Thomas Mann, Eros: o doce-amargo, de Anne Carson, e versos de Safo, o autor interfere na conversa entre Fedro e Sócrates para trazer sua própria interpretação das ideias do grego. Considerado um dos textos mais célebres de Platão, o diálogo parte de uma discussão sobre amor, que acaba sendo conduzida para outros temas, como a busca pela verdade, o papel da filosofia e o que Constâncio considera um “elogio à poesia”.
Assim, a loucura não seria a única faceta da paixão amorosa, que, instaurada pelo eros, leva a um desejo de posse e entrega a um mundo de ilusão. Ela tem também “um caráter ‘divino’, pois consiste numa experiência do belo que revela o outro como mistério e, com isso, desperta a alma para a interrogação da verdade – ou seja, torna a experiência amorosa o estopim do pensamento filosófico”, como escrevem no prefácio Tatiana Salem Levy e Pedro Duarte, organizadores da Coleção Ensaio Aberto, da qual Três discursos sobre eros é parte.
Paradoxos
Constâncio está no Brasil para uma série de debates sobre o novo ensaio. No primeiro dos encontros, “Eros: dos Antigos aos Modernos’’, realizado na última quarta (8), na Universidade de São Paulo, contou que o trabalho teve origem na leitura obsessiva que fez de Proust nos últimos anos.
Para o professor português, a ideia de amor presente no clássico Em busca do tempo perdido tem fortes ligações com o diálogo platônico. “Elas estão sobretudo no modo como os primeiros dois discursos do Fedro pensam eros como um desejo de posse, que gera necessariamente ciúme.”, disse em diálogo com o professor de filosofia Pedro Paulo Pimenta. Proust, ele explica, explora todo um conjunto de paradoxos em torno dessa ideia, que já está no Fedro. “Por exemplo, o mais óbvio é como o amor é ao mesmo tempo ódio. Ou como o apaixonado quer satisfazer o desejo, mas quando o satisfaz, em vez da felicidade que procurava, encontra o tédio. Ou ainda o paradoxo da identidade: nossa vida é uma sucessão de eus, determinada pelas nossas paixões.”
Mais Lidas
Já o diálogo que Constâncio estabelece com o filósofo alemão Hegel termina em uma divergência. É Hegel, afinal, quem aponta em Fedro uma inversão no pensamento de Platão. Se em sua República o grego expulsa a poesia da cidade, defendendo que o poder deve estar com os filósofos, no Fedro, ele subverte essa visão, colocando a imagem poética como uma condição para o pensamento filosófico. Para Hegel, esse seria um defeito que indicaria a impotência do pensamento uma vez que, para ele, a filosofia é puro pensamento. “O pensamento pensa-se a si mesmo. E, ao pensar-se a si mesmo, pensa a sua forma e descobre a forma das coisas, as categorias”, afirma o autor.
No Fedro, defende Constâncio, há algo muito diferente do que preconiza Hegel. “Encontramos, na verdade, um elogio à poesia: a ideia da indispensabilidade da poesia para o pensamento é muito central no livro. Por um lado, a leitura de Hegel influencia a minha leitura do Fedro. Por outro, eu combato a ideia de que a tese da indispensabilidade da poesia é um defeito do pensamento de Platão.”
Ao final do encontro na USP, o poeta Fernando Paixão, presente na plateia, foi mais a fundo na relação entre o eros e a linguagem poética: “Não seriam quase que a mesma coisa ou, pelo menos, configurando uma mesma metáfora, já que essa representação platônica do eros é justamente aquilo que transborda do corpo?”. Ao que Constâncio respondeu: “A poesia tem um enraizamento no corpo. Se, por um lado, com Platão a filosofia começa a ser a ideia de que nós precisamos pensar puramente o inteligível, por outro, a ideia do Fedro é que a poesia é indispensável. A imagem poética é o que nos põe em contato com essa coisa que não é uma coisa”.
A Coleção Ensaio Aberto é resultado de uma parceria originada no âmbito do Programa de Internacionalização da Capes (CAPES-PrInt) entre a Universidade NOVA de Lisboa e a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Os livros são publicados pela editora Tinta-da-China, em Portugal, e pela Tinta-da-China Brasil, com apoio da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT – Portugal).
Porque você leu Filosofia
A arte da recusa
Em conferência de 1978, Foucault mostra como a crítica exige coragem de se contrapor, o que torna revelador que tenha caído em desuso
JANEIRO, 2026
