Encontro de Leituras,
O amor em ruínas
A portuguesa Tatiana Faia lança no Brasil seus poemas inspirados na paixão trágica do imperador Adriano pelo jovem grego Antínoo
15abr2026 • Atualizado em: 16abr2026 | Edição #105A poeta portuguesa Tatiana Faia é uma viajante. Nascida em Portugal, vive e trabalha na Inglaterra e, sempre que pode, retorna à Grécia. Em maio, estará no Brasil como convidada do festival Poesia no Centro, que acontece de 15 a 17 de maio em São Paulo.
O eterno retorno à Grécia não é acaso. Estudiosa de literatura clássica, doutorou-se em literatura grega antiga com uma tese sobre a Ilíada de Homero. Traduziu para o português os Hinos homéricos, obras do filósofo judeu helenista Fílon de Alexandria (século 1 da Era Cristã) e o livro O monograma, do poeta grego Odysséas Elytis, Nobel de Literatura em 1979. Ainda traduziu obras de autores como Herman Melville e Anne Carson (também estudiosa e tradutora de poesia grega) e é uma das editoras do blog de literatura Enfermaria 6.
‘Estava a tentar chegar ao estranhamento. Contar uma história estranha, difícil, irresolúvel’
Autora de seis coletâneas de poemas e um livro de contos, Faia lança agora no Brasil, pela Editora 34, Adriano, publicado em Portugal em 2022 pela não (edições). Composto por quatro poemas e um posfácio que incita o leitor a reler tudo, o livro narra o amor trágico entre o imperador Adriano e o jovem Antínoo, no século 2 d.C. Peça-chave na estruturação do livro, a paixão entre os dois é também um artifício que permite à poeta escavar meticulosamente espaços distantes, vestígios materiais, relações fragmentadas e memória, de modo a ressignificar o tempo e os cânones da literatura, num registro contemporâneo e simultaneamente erudito.
Em entrevista por e-mail para a Quatro Cinco Um, Faia comenta seu processo criativo, o cânone na contemporaneidade, e a erudição e a sensualidade que estão no seu poema sobre a paixão do imperador romano pelo rapaz grego, morto tragicamente aos vinte anos.
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Sabendo que queria ser escritora, você foi estudar letras. No Brasil, há um chiste que diz ser esse o jeito de matar um escritor, mas com você deu muito certo. Por quê?
Não é certo que tenha dado muito certo, mas não penso que seja o jeito de matar um escritor. Aquilo que me parece relevante nesse tipo de educação, se é que educar um escritor é possível, é que seja um percurso bastante acidentado e permita que cada um encontre a sua oficina e uma forma de a habitar — e, no fim, encontre ainda aquilo a que [Federico García] Lorca chamava “duende”. Parece-me que tive a sorte de isso poder ser encontrado nos livros que eu queria ler enquanto estudava. Mas, se tivesse ido estudar agronomia, talvez hoje fosse capaz de escrever boa poesia bucólica. Quem poderá dizer o que se perde com educar um escritor?
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Por que escavar o amor trágico entre Adriano e Antínoo?
Era uma história que tinha uma grande força para mim. Essa atração talvez tenha começado cedo, na adolescência, na paixão pelo livro inevitável Memórias de Adriano, de Marguerite Yourcenar — é uma história cujas fulgurações e rarefações em outros escritores eu continuei a revisitar ao longo de diferentes períodos da minha vida. Para lá de Adriano, havia a minha própria vivência na cidade que é cenário do livro, histórias dos meus amigos e de seus lugares, em Atenas.
O que eu queria interrogar nesse livro, penso, é que intensidade pode ao certo sustentar e manter acesa, sem diminuições, as coisas que são fonte de um significado que oblitera a autodestruição na trajectória de uma vida. A história de Adriano e Antínoo é uma crónica de amor, desejo, perdas e assimetrias, que era o lugar do qual essa interrogação precisava de começar.
Você é pesquisadora, editora e tradutora de Anne Carson (que também traduziu os clássicos antigos), incorpora em seus poemas as indagações filosóficas de Yourcenar e “escava” a biografia do imperador Adriano. Há um sentido filosófico ou estético que você busca alcançar? O quanto disso tudo também é intuição?
Talvez mesmo o que é muito erudito seja intuição, uma paixão de ver, de tentar perceber as coisas nos seus muitos ângulos e dimensões.
Adriano atinge uma difícil convergência entre erudição e sensualidade contemporânea que propicia um estranhamento de coisas há muito conhecidas. É isso mesmo?
É um pouco, no sentido em que erudição e sensualidade (talvez ela não tenha mudado tanto entre a antiguidade e a contemporaneidade) não são mutuamente exclusivas. Muito pelo contrário. Mas essa dicotomia entre uma coisa e outra talvez explique o estranhamento. E é, de facto, ao estranhamento que eu estava a tentar chegar. Contar uma história estranha, difícil, irresolúvel.
Você diz não saber se é uma poeta que escreve contos ou uma contista que escreve poemas. Diz também que não sabe como finalizar nem cortar a narrativa. É por isso que consegue construir um tipo de tensão estética peculiar entre a contenção poética e a prosa narrativa?
É possível que seja esse o efeito, mas não é de todo deliberado. O que eu quero dizer é que talvez eu esteja buscando aquilo que, em filosofia da linguagem, se convencionou chamar de forma de vida. Naquilo que escrevo, quero buscar e ser levada pelo espaço que os próprios textos constroem, que sejam eles a se decidir, consoante as necessidades por eles criadas. A imaginação é a mais imediata das formas de liberdade. E espero que essa impressão passe para o leitor.
Você diz que a escrita é um exercício de liberdade capaz de gerar estranhamento ao que já está posto há séculos e, assim, evocar o novo. Em Adriano, o novo advém da mistura de gêneros literários e de um passado a ser vivenciado no presente com certa naturalidade propiciada por pormenores do cotidiano atual?
Vou responder com uma provocação. Tive uma vez um encontro, subindo uma escada na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com a pessoa que na altura era minha professora de literatura medieval. Aproveitei o facto de quase ter esbarrado nela para dar voz ao meu inevitável ódio, à época, pela poesia trovadoresca, a coisa que ela nos ensinava.
‘Nostalgia, ansiedade e obsessão são para mim os impulsos que permitem escrever’
Ela perguntou-me o que eu estudava e eu expliquei que letras clássicas. Ela se riu imenso, quase incontrolavelmente, e disse que alguém como eu, justamente, devia saber que as pessoas são muito iguais independentemente de tempo ou lugar. Esse riso ficou comigo. Então, não tanto a paixão pelo novo quanto a paixão por entender, com o estranhamento que olhar o antigo permite, e que pode ser transplantado para o modo como olhamos o que julgamos ser mais próximo e mais novo.
Depois de um tempo de distanciamento, você revisa o que escreveu? Sua poesia é um registro poeticamente elaborado sobre o que você vê e não consegue esquecer?
Sim. Sempre. E preciso desse teste de tempo. Talvez isso seja um eco de Rilke, que, num livro que eu acho um pouco chato, Cartas a um jovem poeta, diz que não devemos perder tempo a escrever nada que não sintamos uma profunda necessidade de escrever. É esse o meu método para chegar aí. Essa linha vermelha, um pouco nostálgica. Nostalgia, ansiedade e obsessão são para mim os impulsos que permitem escrever.
Qual tem sido sua ligação com os poetas e com a poesia brasileira?
O primeiro poeta que publicou um poema meu numa revista, por assim dizer, a sério, foi Ricardo Domeneck, na Modo de Usar & Co. A poesia do Ricardo segue sendo uma referência importante para mim. Hilda Hilst foi uma revelação avassaladora — tem até um livro meu, Leopardo e Abstracção, que tira o título de um poema dela. Muitos outros poetas brasileiros seriam de acrescentar a essa lista.
Enfermaria 6 [blog de literatura que edita] está um pouco parado, mas é um projeto que perdura. A ideia era criar um espaço em que gente dos dois lados do Atlântico se pudesse ler, e daí saiu até uma antologia intitulada A Terceira Margem, com novos poetas portugueses e brasileiros.
CORREÇÃO > O Festival Poesia no Centro 2026 acontece entre 15 e 17 de maio. Em outra versão deste texto, a realização constava como entre 16 e 18 de maio.
Matéria publicada na edição impressa #105 em maio de 2026. Com o título “O amor em ruínas”
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