Marina Helou (Lia Lubambo/Divulgação)

Educação,

De volta à vida real

Sem condenar a tecnologia, Marina Helou propõe antídotos para os riscos do mundo virtual à infância e à adolescência

03ago2026 • Atualizado em: 31jul2026

Vivemos em um mundo digital. E, ao que tudo indica, isso não tem mais volta. Quem está formando os nossos filhos?, livro de estreia da deputada estadual Marina Helou (psb-sp), não demoniza o novo mundo, mas nos faz pensar como as telas e a internet foram ocupando espaços na nossa vida sem que houvesse, da nossa parte, nenhuma reflexão a respeito. Digo “da nossa parte” porque, como a autora demonstra, da parte das big techs houve muita reflexão e construção estratégica.

Uma estratégia pensada para nos viciar. Sim, porque o modelo de negócio precisa da nossa atenção irrefletida e permanente para se sustentar. Essa lógica é muito bem explicada no livro Attensity!, um manifesto organizado pelo coletivo The Friends of Attention — um grupo de dezoito artistas, acadêmicos e ativistas formado em 2018 durante a Bienal de São Paulo ­—, no qual a economia digital é descrita como processo de human fracking (numa analogia com a exploração do petróleo): a extração sistemática da atenção humana por plataformas desenhadas para transformar concentração, emoções e comportamento em valor econômico. Ou seja, nossa atenção é extraída para ser monetizada.

Apesar de o modelo ser desenhado para viciar a todos, como o cérebro de crianças e adolescentes ainda está em processo de desenvolvimento e é mais suscetível a adicção, os prejuízos para estes são muito maiores. Mas que prejuízos são esses?

Na primeira parte do livro, Helou destaca impactos problemáticos do uso indiscriminado das telas em sete frentes: aprendizagem e capacidade de atenção; desenvolvimento de competências socioemocionais e relacionais; saúde mental; formação de valores; dessensibilização em relação às violências; prática de crimes on-line; e acentuação de desigualdades.

A autora Marina Helou (Lia Lubambo/Divulgação)

Os dados apresentados, desde a diminuição da capacidade cognitiva até o maior índice de suicídio entre jovens, são assustadores. No entanto, o objetivo do livro não é gerar pânico, mas propor reflexões e caminhos de solução. Nesse sentido, a autora faz questão de retirar o peso da culpa que costuma cair sobre o comportamento de crianças, adolescentes, pais e mães. Em relação aos primeiros, ela chama atenção para o fato de que não são “preguiçosos” ou “desatentos”, mas viciados; de que foram condicionados a ter uma atenção fracionada, sob descarga permanente de dopamina; e de que, sem a ajuda dos adultos, dificilmente conseguirão sair dessa situação.

Em relação a pais e mães, avalia que alguns ainda não compreenderam os malefícios de deixar os filhos soltos na internet e que outros, apesar de cientes, têm medos compreensíveis e se sentem impotentes diante da situação. Entre os medos, Helou menciona a preocupação de que os filhos fiquem “para trás tecnologicamente”, de que não possam ser monitorados se não estiverem conectados ou de que sejam alijados da turma por não ter acesso a essas tecnologias. Ela legitima cada um deles, mas os contesta e oferece alternativas.

A autora reúne dados de neurociência, educação e saúde pública e os traduz em um texto gostoso de ler

Além de não culpabilizar os pais nem os filhos, a autora não cai na armadilha de simplesmente condenar o uso da tecnologia ou reduzir a discussão ao problema do tempo de telas. A questão não diz respeito a como nossos filhos estão aprendendo, mas o que estão aprendendo e com quem. O texto é repleto de evidências sobre como a gradual transferência da formação emocional, moral e social das crianças para ambientes digitais, organizados por interesses comerciais e não educativos, vem produzindo consequências perversas.

Temos uma geração inteira crescendo sem exercitar a empatia, a convivência, a frustração e o autocontrole, e isso é altamente perigoso não só para as crianças e adolescentes, mas para a sociedade. Ao deslocar o foco da tecnologia para a formação humana, Helou transforma um tema aparentemente restrito às famílias em uma questão de interesse público, de responsabilidade coletiva, como deve ser.

Não se trata de convencer o leitor de que há um grande problema a ser enfrentado, mas de mostrar que sua dimensão exige a atuação coordenada de famílias, escolas, poder público e plataformas digitais. A responsabilidade é nossa, os adultos da história.

Mergulho

Marina Helou, o leitor perceberá, fez um mergulho profundo no tema. Leu estudos nacionais e internacionais, ouviu especialistas, reuniu diferentes áreas — psicologia, neurociência, educação e saúde pública — e pesquisou como diversos países vêm enfrentando esse desafio. Ao escrever o livro, facilitou o trabalho que pais, professores, educadores e formuladores de políticas públicas teriam e que raramente têm tempo ou disposição para realizar.

Felizmente, esse conhecimento não foi traduzido em um texto acadêmico, mas em uma linguagem simples e gostosa de ler. Essa talvez seja a principal virtude da autora. Helou passa de uma lembrança pessoal a uma pesquisa científica sem que o leitor perceba a transição. Alterna com naturalidade episódios vividos como mãe e como parlamentar com a apresentação de estudos científicos. Os dados não interrompem a narrativa; aparecem como parte dela. Tratar com leveza um assunto cercado de paixões e disputas ideológicas não é fácil, mas Helou o faz com maestria. É como se ela dissesse ao leitor: “vem comigo que vou te mostrar o caminho”. E o caminho proposto passa por consciência, responsabilidade e atitude.

Se a tecnologia ocupa um espaço excessivo na formação das crianças, a resposta não está apenas em restringi-la, mas em fortalecer aquilo que nenhuma tela é capaz de oferecer. Dessa forma, os cinco “antídotos” propostos são recuperar a brincadeira livre, que estimula criatividade, autonomia e capacidade de lidar com frustrações; incentivar a leitura, que desenvolve atenção, imaginação e empatia; promover o contato com a natureza, essencial para o equilíbrio físico e emocional; reconstruir a vida em comunidade, ampliando, para além do ambiente familiar, as relações de pertencimento; e cultivar o senso de propósito, para que crianças e adolescentes encontrem significado nas próprias ações e nos vínculos que estabelecem com os outros. Mais do que uma lista de recomendações, esses cinco antídotos expressam a convicção de que a melhor forma de enfrentar os riscos do mundo digital é oferecer uma infância rica em experiências humanas reais.

Marina Helou deixa clara a complexidade do problema e explicita que não pretende responder a todas as questões, dar todas as soluções ou apresentar uma fórmula mágica. Antes, lembra que educar continua sendo uma responsabilidade humana e que nenhuma tecnologia, por mais sofisticada, pode substituir essa tarefa. E isso já é um grande feito.   

A Tinta-da-China Brasil é o selo editorial da Associação Quatro Cinco Um

Quem escreveu esse texto

Luciana Temer

Advogada e presidente do Instituto Liberta, é autora de Educar para proteger (Editora Senac).

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