A Feira do Livro, Educação,

Educadores afirmam que antirracismo não é sentimento, mas ação

Ednéia Gonçalves e Eugênio Lima defenderam discussão coletiva e método para enfrentar o racismo nas escolas

02jul2024 - 12h14 • 10jul2024 - 12h20
Fotografias de Matias Maxx.

A primeira mesa desta segunda (1º) n’A Feira do Livro 2024 inaugurou a faixa de programação Praça de Aula, voltada sobretudo a profissionais da educação e uma das novidades desta edição do festival literário. A socióloga e educadora Ednéia Gonçalves conversou com o educador, pesquisador da cultura afro-diaspórica e DJ Eugênio Lima sobre “Racismo e antirracismo nas escolas”, com mediação da escritora e jornalista Bianca Santana.

No encontro, eles ressaltaram que a educação é um dos setores que mais reproduz o racismo na sociedade e para enfrentá-lo é preciso primeiro admitir esse estado de coisas. A superação do problema depende da mudança de currículos, pensamentos e atitudes, defendeu Gonçalves. “O antirracismo não é um sentimento, é ação”, disse.

Coordenadora executiva da ONG Ação Educativa, que atua na formação de gestores, professores e estudantes na área dos direitos humanos, Gonçalves defendeu que uma educação antirracista deve questionar o próprio lugar da educação na sociedade. O primeiro passo, afirmou, é discutir abertamente o problema. “Se falamos da necessidade de educação antirracista hoje é porque a educação que temos é racista”, disse, para em seguida lembrar da noção, reproduzida por muitas décadas no ensino oficial, de que a abolição da escravidão foi “obra de brancos heróis”, em vez de consequência de “um contexto econômico e impulsionada sobretudo por abolicionistas negros e quilombolas”.

Para Lima, escolas que buscam publicizar um tipo de selo ou rótulo antirracista acabam evitando o debate mais profundo da questão. “As escolas precisam assumir o racismo antes de quererem entrar numa ‘liga antirracista’”, afirmou, comparando com clubes de futebol que desejam entrar na elite do esporte: “Tem que jogar a segunda divisão antes de subir para a primeira”. O pesquisador condenou o silêncio que constantemente acompanha o assunto e disse que um grande desafio inicial é reunir pessoas racializadas, negras ou indígenas para discutir as experiências de racismo por que passam. 

“O campo progressista também acreditava que o Brasil não tinha racismo e que isso não precisava ser discutido”, disse. O caminho, segundo ele, passa pela formação de comissões antirracistas como a do Colégio Equipe, de São Paulo, que Lima integra como pai de aluno e colaborador. 

O pesquisador apontou ainda que a contratação de profissionais negros para níveis hierárquicos mais altos nas escolas, como coordenação e ensino, é um avanço. “Como crianças não vão interiorizar uma ideia de desumanização e subalternização se virem os negros só em papéis inferiores?”, perguntou. “Ambientes muito brancos fomentam o racismo.” 

Discurso e método

Gonçalves e Lima falaram ainda de outras formas de transformar o discurso antirracista em prática cotidiana nas escolas. A socióloga destacou a necessidade de aperfeiçoar currículos para incluir perspectivas africanas desde a Antiguidade. 

“O apagamento da história anterior à escravização, não estudar um continente inteiro, não é só um desenho imperfeito, é perigosamente errado”, disse. Ela lembrou que não faltam livros sobre a história da África, “escrita pelos africanos”, e também citou como exemplo o trabalho do antropólogo brasileiro-congolês Kabengele Munanga, autor de obras fundamentais sobre negritude e racismo. 

Em outro momento ilustrativo, respondeu uma pergunta da plateia sobre a diferença entre bullying e racismo, advertindo que não se pode confundir os dois nem enfrentá-los da mesma maneira. “Bullying é uma violência sistemática, contínua e permanente sobre um indivíduo. Racismo é um sistema baseado em uma relação hierárquica entre grupos, pessoas, populações. É coletivo”, explicou. 

“No bullying o indivíduo deve ser acolhido, o foco é na proteção dele. Já quando uma pessoa sofre racismo, tem que ser acolhida mas deve-se acolher todos”, continuou. “Quando acontece um caso de racismo não basta chamar as famílias para conversar e suspender quem praticou. Isso é para o bullying. Quando há racismo você tem que parar a escola inteira.”

Ao indicar que a reação ao racismo deve ser coletiva, Gonçalves ressaltou também que as famílias negras estão cada vez mais exigindo isso. “É um trabalho que deve ser feito permanentemente, não só quando ocorrem os eventos. E muitas vezes a atitude é de bullying mas o embasamento é racista”, disse a educadora. “Tem que ver esse caráter duplo.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Vitor Pamplona

Jornalista e roteirista, traduziu As aventuras de uma garota negra em busca de Deus (Bissau Livros)