A Feira do Livro, Educação,

‘O Brasil precisa ser lido e relido o tempo todo’, diz escritor Sacolinha

Vó Geralda e Ana Clara da Silva também defenderam espaços de leitura e o papel do livro na transformação social e construção da própria história

04jul2024 - 16h24 • 04jul2024 - 17h18
Fotografias de Matias Maxx.

Os escritores Vó Geralda e Ademiro Alves de Sousa, o Sacolinha, subiram ao palco d’A Feira do Livro com a educadora Ana Clara da Silva na quarta-feira (3) para debater a importância dos espaços de leitura, principalmente nas regiões periféricas.

Na conversa mediada pela historiadora Taina Silva Santos, eles falaram de suas trajetórias de longa data fomentando a leitura entre grupos e em regiões menos abastecidas de livros e literatura. 

Entre 2010 e 2012, Sacolinha — autor de Onde estavam meus olhos?: ainda sobre leveza (Vasto mundo, 2023), 85 letras e um disparo (Ilustra, 2006), Estação Terminal (Nankin, 2010), entre outros — fez parte do projeto “Uma janela para o mundo – Leitura nas Prisões”, realizado nas penitenciárias federais de segurança máxima para incentivar a leitura e auxiliar a remissão da pena do preso. 

O autor Sacolinha

“A surpresa foi que eles [os presos] liam muito porque passavam o dia todo sozinhos, tinham que ler e se exercitar. Então liam de uma forma desenfreada somente para passar o tempo. O projeto, então, trabalhou para a contextualização do Brasil nessa leitura”, contou Sacolinha. Além disso, a cada livro lido e resenhado, os detentos recebiam três dias de remissão da pena.

Morador de Suzano, na região metropolitana de São Paulo, o escritor agora conduz o projeto “Literatura e paisagismo – Revitalizando a quebrada”, que faz intervenções em espaços públicos com literatura, grafite e plantio de árvores. O dinheiro para comprar tintas e pagar os grafiteiros vem da venda de seus livros, que tem parte da receita revertida para a iniciativa: a cada quarenta exemplares vendidos, um muro é revitalizado.

Projetando fotos desse trabalho nas televisões do Palco da Praça, Sacolinha exibiu um de seus resultados favoritos. Um muro com cores vibrantes, que traz estampados os dizeres “Quando eu era criança vivia correndo atrás das pipas. Hoje, que sou grande, as pipas caem em meu quintal” — trecho de um de seus poemas.

“Nem todo mundo acessa a literatura pelos livros, então faço com que as pessoas leiam o Brasil assim como tento fazer todos os dias”, disse Sacolinha. “Não mude da periferia, mude a periferia.”

Espaços culturais na periferia

A educadora Ana Clara da Silva também compartilhou sua atuação em um espaço cultural periférico, o Bloco do Beco. O projeto social nasceu a partir de um cortejo carnavalesco em 2002 para preservar e valorizar a cultura do carnaval de rua. 

Hoje, funciona como um dos principais dispositivos culturais do Jardim Ibirapuera, na periferia da zona sul de São Paulo, e conta com um ponto de cultura, o IbiraLab, pensado para impulsionar a produção e distribuição de conteúdos audiovisuais, e a Biblioteca Comunitária Luiza Erundina — homenagem à ex-prefeita de São Paulo que cedeu o terreno aos moradores.

Fundada em 2021, a biblioteca foi o primeiro centro cultural da região. Silva contou como o apoio da comunidade, sobretudo com voluntariado, foi fundamental na criação do espaço e ainda é fundamental para manter o projeto vivo.

A educadora Ana Clara da Silva

“Não tinha espaço de convivência antes da biblioteca comunitária. Agora fazemos mediação de leitura para crianças de sete a catorze anos, e trabalhamos na alfabetização a partir da sondagem com escolas da região”, contou Silva. “Não é só a questão dos livros, tem que ter a preocupação social e cultural.”

Além de atuar para ampliar o acesso à literatura, sobretudo a infantil e infantojuvenil, o espaço conta com aulas de maracatu, sarau com poetas e produção de textos pelas crianças. Segundo Silva, a biblioteca comunitária é também uma maneira de “oferecer outro caminho, a partir do afeto” aos jovens moradores. “A presença do Estado, na imagem da polícia militar, é muito forte no bairro. A polícia já entrou na biblioteca durante uma oficina”, relembrou. “O único momento que o poder público entrou na biblioteca foi com a PM.”

Memória viva do sertão

Aos 83 anos, a escritora Geralda de Brito Oliveira, a Vó Geralda, foi ovacionada pelo público ao contar parte da sua história. Criada na Fazenda Menino, na cidade de Arinos, em Minas Gerais, a autora lançou A porta aberta do sertão: histórias da Vó Geralda (Relicário), no qual reúne diversas de suas memórias. 

Em 1968, Vó Geralda chegou na fazenda para dar aula no ciclo de alfabetização e, pouco depois, passou a administrar a propriedade rural. Na época, com sete filhos, foi acusada de abrigar integrantes do Partido Comunista Brasileiro, que pernoitavam ali, durante a ditadura militar. 

A autora Vó Geralda

Na Feira do Livro, ela contou como militares atuavam na perseguição de pessoas pobres e mulheres do sertão, tema ainda pouco explorado na literatura. A publicação de suas memórias é considerada um marco na construção da história da região, registrando os horrores daquele tempo, entre eles sua detenção pela polícia.

“Minha mãe dizia que era melhor morrer do que dizer uma mentira para os oficiais. Durou cinco dias o [meu] interrogatório. Me levaram para o ‘matador’ e eu pensava ‘não tenho nada a perder, a família da fazenda cuidará dos meus filhos’”, relembra. 

“Eu não sabia nem o que era comunista. Mesmo assim me mandaram ajoelhar, pedir perdão para Deus. Fechei os olhos e só lembro de ver a pólvora. Mas não morri. Levantei, me levaram de volta para casa. O major do exército não acreditou que eu estava viva.” 

O lançamento do livro contou com um evento, em junho, na Fazenda Menino, onde Vó Geralda viveu e que hoje é também um dos destinos de uma travessia turística, O Caminho do Sertão, que percorre andanças de Riobaldo, personagem de Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa.

Hoje, Vó Geralda tem dez filhos, 32 netos e 31 bisnetos. “Uma grande geração”, como ela disse. “Estou feliz em cumprir o desejo do meu coração ao ter um livro contando essas histórias.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.