‘Qual é o meu papel neste país em que a gente vive’, questiona Neca Setubal

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‘Qual é o meu papel neste país em que a gente vive’, questiona Neca Setubal

Referências na filantropia no país, Neca Setubal e Inês Lafer falam sobre a responsabilidade individual e alertam sobre o ponto de não retorno na questão social

30jun2024 - 14h38 • 10jul2024 - 13h28
Fotografias de Filipe Redondo.

A socióloga Neca Setubal conversou com a psicóloga Inês Lafer, na tarde deste sábado (29), sobre os desafios do país, na mesa “Transformação social”, n’A Feira do Livro. O bate-papo foi mediado pela jornalista Carol Pires.

“O grande desafio é sair da emergência e pensar: ‘qual é o meu papel neste país em que a gente vive?’”, disse Setubal, referindo-se ao desejo pessoal de uma sociedade mais coletiva. 

A socióloga Neca Setubal

Segundo a socióloga, parte da sociedade tem dificuldade de ser solidária no dia a dia. “Naturalizamos as pessoas em situação de rua, tem gente que não quer nem ver, que desvia o caminho. Naturalizamos que quem ganha 20 mil reais já faz parte da categoria do 1% mais rico do Brasil”, afirmou.

Liderança do terceiro setor no país, Setubal ajudou a fundar instituições e projetos sociais dedicados à melhoria dos indicadores de educação, sustentabilidade e desenvolvimento. Seu livro de memórias, Minha escolha pela ação social: sobre legados, territórios e democracia, foi lançado pela Tinta-da-China Brasil, selo editorial da Associação Quatro Cinco Um, durante A Feira e retraça o contexto político do Brasil desde a época de sua formação em ciências sociais, na década de 80, até hoje, e como o debate público na sociedade brasileira amadureceu.

“Na pandemia, a gente teve que enxergar as desigualdades de uma forma mais concreta. Isso aconteceu e a sociedade se mobilizou”, disse Setubal. “De novo, a gente se mobiliza nas emergências. E a filantropia brasileira, rapidamente, muito mais rapidamente do que os governos, se mobilizou.”

Diálogos políticos

O período de isolamento social também intensificou a polarização política no Brasil. O diálogo, então, pareceu ficar impossível. Para Lafer, idealizadora da plataforma Confluentes, que reúne doadores individuais e ONGs dedicadas ao combate das desigualdades, a ação social pode ser a chave para reconstruir o debate público brasileiro.

“A filantropia consegue dialogar com a política pública, servindo, inclusive, como ferramenta de pressão externa da sociedade”, disse a psicóloga. “Hoje, em algumas políticas no Congresso você precisa de pressão externa da sociedade para que governos e deputados tomem decisões ou elaborem leis mais republicanas.” Lafer disse ainda que a sociedade perdeu espaço de diálogo, de fazer política sem o outro “dizer tchau ou te cancelar”.

A psicóloga Inês Lafer é idealizadora da plataforma Confluentes

“Acredito que o desafio é mais de método do que de conteúdo. [A extrema direita] teve método na erosão do diálogo ao atacar a imprensa, ao atacar inclusive a filantropia, as ONGs, que são conceitos difíceis de explicar e não são amplamente compreendidos”, disse Lafer. “Precisamos trazer a filantropia para o debate político.”

Setubal complementou o argumento: “Sem dúvidas existe muita corrupção, políticas equivocadas, mas vamos pensar que também existem as que estão dando certo. Caso contrário, serão uma série de desculpas para não fazer nada.”

Ponto de não retorno social

Outra discussão que a socióloga trouxe foi o “ponto de não retorno”, termo utilizado para referir-se a um estágio crítico em um processo no qual as condições mudam tanto que se impossibilita reverter ao estado anterior.

“Falamos do ponto de não retorno na questão climática, acredito que no social também é assim. Se não trabalharmos essas questões, perdemos essa luta. E tem que fortalecer a democracia”, disse ela. “Três coisas para mim são fundamentais: fortalecer a democracia, trabalhar no combate às desigualdades e mudanças climáticas.”

“Vivemos um momento histórico muito desafiador, um momento de múltiplas crises. Para sair disso, temos que pensar na construção de políticas públicas inovadoras e que vão, de alguma forma, trazer novas esperanças e que vão fortalecer a democracia.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.