A Feira do Livro, Educação,

‘Para combater o racismo, precisamos contar nossa própria história’, diz professora indígena Kerexu Mirim 

Kerexu Mirim e Luiz Ketu debateram como a educação e literatura indígena e quilombola pode ajudar a combater o preconceito nas escolas

03jul2024 - 14h48 • 10jul2024 - 11h49
Fotografias de Matias Maxx.

A educadora Kerexu Mirim e o pesquisador Luiz Ketu subiram ao palco d’A Feira do Livro nesta terça-feira (2) para trazer notícias das escolas indígenas e quilombolas. Com mediação da antropóloga Tatiane Maíra Klein, eles defenderam a existência de escolas diferenciadas para indígenas e quilombolas e refletiram sobre como a informação pode ajudar no combate ao racismo e outros preconceitos. 

“A escola do jeito jurua [termo guarani para ‘não indígena’ ou ‘homem branco’] impactou de maneira negativa nossa vida, porque tirou um pouco do nhandereko [modo de viver, em guarani]”, disse Mirim, que é professora há dez anos. “A escola do branco veio com uma ideia fechada do lugar do saber, como se nossos antepassados não tivessem conhecimento.”

Essas escolas trazem no currículo atividades de preservação cultural, integrando elementos tradicionais como língua, história e práticas culturais, e educação contextualizada, com exercícios que fazem parte do cotidiano indígena e quilombola. Elas também fomentam a participação comunitária, envolvendo a comunidade na gestão da escola e no desenvolvimento do currículo.

No Brasil, o direito à existência de escolas diferenciadas para indígenas e quilombolas está fundamentado em diversas leis e decretos, entre elas a Constituição Federal, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) e o Plano Nacional de Educação (PNE). No entanto, apesar das diretrizes visando assegurar que essas escolas sejam implementadas, Mirim e Ketu afirmaram que isso não acontece na prática.

“A lei número 10.639 [de 2003, estabelecendo as diretrizes e bases da educação nacional para incluir no currículo oficial a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira] teve impacto positivo, mas nem tanto, porque vivemos num país racista com resquícios do colonialismo”, disse Ketu. “O racismo rege a base estrutural, então estará presente nos espaços de poder para manutenção de hegemonia, e isso acontece também na educação.”

Segundo o pesquisador, que também é professor e conhecido por projetos educacionais no Quilombo São Pedro, no Vale do Ribeira, os quilombolas da região enfrentam uma burocracia paralisante. “Como se não bastasse a questão territorial, temos os embates na educação. Quando garantimos a lei na esfera federal, temos embate na estadual, depois na municipal”, contou, fazendo questão de citar leis para mostrar o quanto procedimentos administrativos podem ser demorados.

O pesquisador e professor Luiz Ketu

“Quem tem fome tem pressa. E nós temos pressa de acessar espaços de produção de conhecimento, academias, o campo da ciência, universidades. Como que a gente entra nesses campos e faz provocações dentro desses espaços?”, disse Ketu. “A base não permite que a gente avance. Os quilombos têm muito a nos ensinar e as academias têm muito que aprender com os quilombos.”

Já a professora Mirim, que vive na Terra Indígena Tenondé Porã, na região de Parelheiros, zona sul de São Paulo, defendeu que no momento delicado de mudanças climáticas e sociais é necessário “pensar em sociedade”. 

“Não nascemos para viver na cidade, então se formos para grandes centros estamos nos iludindo. Não queremos competir com outras pessoas. Ouvimos a frase de que ‘tem que ir para a escola para ser alguém na vida’, mas a gente já é alguém desde que estamos na barriga de nossa mãe. A ideia de se tornar ‘alguém’ fortalece essa escola de capitalismo e individualismo”, disse Mirim.

A educadora Kerexu Mirim

“Na aldeia a gente não fica na frente dos alunos, ficamos no meio. Temos um modo de vida diferente. Ensinamos as crianças a mexer na terra, a ver como uma árvore cresce, não só a escrever. Ensinar como o mundo funciona de verdade.”

Compartilhando saberes 

A tecnologia da escrita desempenha um papel fundamental no compartilhamento e preservação de saberes ao longo da história. Mirim, que vem de uma família de escritores, publicou A índia voadora (2005) de forma independente quando tinha nove anos. 

A história teve origem em uma viagem de helicóptero que fez da aldeia até a prefeitura de São Paulo durante a inauguração do CECI (Centro de Educação e Cultura Indígena) de Tenondé Porã, em 2004. Seu pai, o escritor Olívio Jekupé, autor de Conversa de fim de tarde (Ciranda na Escola, 2023) e outros títulos, sempre incentivou a escrita.

“Pela manhã, quando eu era pequena, meu pai perguntava o que sonhei. Ele procurava histórias assim. Quando eu contava o sonho, ele dizia que era uma boa história, que eu deveria escrever”, contou Mirim.

“É muito importante um indígena contar como vive, porque sempre vemos livros de não indígenas falando sobre nossa vida. Agora, na licenciatura, consigo ver como as crianças desenvolvem a escrita. A escola tem que realçar os talentos da criança, incentivar a contar sua própria realidade.”

Um dos autores de Roça é vida (Iphan, 2020), sobre o sistema agrícola tradicional quilombola, e Na companhia de Dona Fartura, uma história sobre cultura alimentar quilombola (ISA, 2022), Ketu acredita que a escrita é uma maneira de repassar conhecimentos ancestrais.

“Um ancestral virar livro é como um registro. Na cultura quilombola não temos muitos registros, mas há muita técnica e sabedoria, como no roçado, plantio e colheita. Isso era transmitido pela fala, pelas lembranças. Mas como não temos mais dinâmica de sentar em volta da fogueira, contar as histórias, porque hoje é outro ritmo, a nossa ferramenta de luta é a escola”, disse Ketu. “Precisamos ter livros, registros em português, em guarani, em todas as línguas e dialetos indígenas. Estamos fazendo o trabalho de registrar.”

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

João de Mari

É jornalista e editor assistente da Quatro Cinco Um.