A Feira do Livro, Educação,

A literatura precisa chegar pela fruição, afirmam especialistas em formação de professores

Com mediação de Marisa Lajolo, Diana Navas e Ana Barbara dos Santos falaram do papel do professor como leitor e formador de novos leitores

06jul2024 - 14h27 • 06jul2024 - 14h43
Fotografias de Matias Maxx

Os professores, figuras centrais na formação de leitores, costumam ficar em segundo plano no debate sobre sua própria formação. Esse foi o tema de “Formar leitores, formar professores”, a quinta mesa do Seminário Livro, Leitura, Literatura e Bibliotecas, que reuniu a professora de literatura e crítica literária Diana Navas e a professora e formadora de professores Ana Barbara dos Santos n’A Feira do Livro.

A mediação foi da pesquisadora, crítica literária, professora universitária e escritora Marisa Lajolo, que abriu a conversa resgatando a recente censura ao livro O menino marrom (Melhoramentos, 1986), de Ziraldo, em algumas escolas no interior de Minas Gerais, devido a uma pressão dos pais por seu conteúdo supostamente “agressivo”. 

Marisa Lajolo

Segundo Lajolo, não há razão para censurar o livro, que discute as cores através da relação entre dois amigos, um negro e um branco. “Ziraldo se colocou inúmeras vezes contra a censura. O livro conversa com o leitor, o faz ver coisas que talvez ele não quisesse saber. Trata sobre um tema importante de forma madura e sofisticada.”

Lajolo diz que uma formação se faz pela leitura múltipla de todos os tipos de livros. Mas o que é mais necessário, segundo a especialista, é o tempo para esse exercício e as trocas feitas a partir dele. “As obras devem ser discutidas por outros profissionais de educação, tecendo uma rede de conversa.”

Motivada pelo encontro, a professora Diana Navas refletiu sobre quem era como leitora e como professora. “Aprendi muito mais sobre igualdade, acesso e liberdade com Dom Quixote do que com compêndios sobre esses temas. Como professores, devemos nos perguntar qual livro nos formou como leitor, porque isso diz sobre como formaremos outros leitores.”

Diana Navas e Ana Barbara dos Santos

A professora da PUC-SP contou ainda que é comum que professores se afastem de leituras prazerosas. Segundo ela, a formação deve trabalhar títulos que vão além de uma literatura firmada na historiografia. “A literatura precisa chegar aos professores pela fruição, não deve estar sempre atrelada a algum significado ou finalidade”, disse Navas.

Livros na mão

A forma como o universo digital vem se aproximando das escolas — e o embate entre os meios impressos e digitais no fomento à leitura — foi outro ponto da conversa. Segundo Ana Barbara dos Santos, a experiência com o livro ainda está muito firmada no campo sensorial, e o objeto dá conta de uma complexidade que o digital não alcança. 

“Um livro físico não se faz somente com a parte textual, há a parte gráfica, a ilustração, o design. O professor precisa ter repertório para analisar essas outras linguagens e esses outros tipos de leitura”, disse Santos. Essa materialidade é ainda mais presente na literatura infantojuvenil, frequentemente colocada como uma literatura “menor”, segundo Marisa Lajolo, que estuda o tema.

A importância de se aproximar do digital e também de ter mais atores envolvidos nesse fomento à leitura foi abordada na conversa. “Sou viciada no livro impresso, são meus alunos que sabem tudo do digital. Como professores, devemos entender que talvez saibamos pouco sobre esse universo. É aí que os jovens podem nos ajudar a nos adaptar”, disse Lajolo.

Segundo Navas, o professor de português não deve ser o único a se responsabilizar pela formação de leitores — professores de outras áreas, bibliotecas, familiares e a escola em geral devem ser membros ativos dessa construção, e também os responsáveis pela educação de bebês e crianças menores, acrescentou Santos. “Embora tratados apenas como ‘bebês e crianças’, a leitura feita por mediadores para essas faixas etárias se comprova essencial para o desenvolvimento, principalmente se contar com a participação dos pais.”

As convidadas ainda criticaram a falta de infraestrutura, bibliotecas e espaços de leitura nas escolas municipais e estaduais, assim como a falta de profissionais especializados na organização e cuidado dos acervos que, muitas vezes, acabam sendo abandonados. E enfatizaram a importância de melhorar o acesso aos livros. 

“A falta de tempo e as burocracias dificultam, principalmente quando estamos tentando tornar a literatura presente em todos os espaços”, disse Santos. 

“Para torná-los mais presentes, é preciso esquecer algumas convenções. Se o livro sumiu, que bom! Isso significa que alguém está lendo. Se o livro estragar, ótimo! Significa que está sendo manuseado”, afirmou Navas.

A Feira do Livro 2024

29 jun.—7 jul.
Praça Charles Miller, Pacaembu

A Feira do Livro é uma realização da Associação Quatro Cinco Um, organização sem fins lucrativos voltada para a difusão do livro no Brasil, e da Maré Produções, empresa especializada em exposições e feiras culturais. O patrocínio é do Grupo CCR, do Itaú Unibanco e Rede, por meio da Lei de Incentivo à Cultura, da TV Brasil e da Rádio Nacional de São Paulo.

Quem escreveu esse texto

Jaqueline Silva

É estudante de Jornalismo na ECA-USP e estagiária editorial na Quatro Cinco Um.