Crítica Literária,

Crítica plebeia

Ensaios de escritora argentina investigam a escrita que se rebela contra a petrificação dos discursos

19out2022 - 13h11 | Edição #64

O ensaio literário recebe ínfima atenção das editoras brasileiras, em particular aquele produzido por ficcionistas. Em nossa história, esse gênero foi praticado amiúde por poetas, ainda que o assunto não fosse necessariamente poesia. Penso em O balanço da bossa e outras bossas, de Augusto de Campos, sobre canção popular e música erudita. Ou nos ensaios de Sebastião Uchoa Leite, Décio Pignatari, Paulo Leminski e Nelson Ascher, que abordavam da política à “volkswagenização” do conto como o fusquinha dos gêneros literários. No concernente aos quadrinhos, poucos países podem se ufanar de terem à disposição ensaios tão inventivos e complexos quanto os que Uchoa Leite dedicou a Krazy Kat ou The Spirit. Nada desse nível foi publicado em anos recentes.


A arte do erro, da poeta e romancista argentina María Negroni, uma plebeia do pensamento crítico

Não me refiro nessa falta ao artigo acadêmico ou às diversas encarnações da não ficção, reportagem ou perfis de figuras públicas, políticos e celebridades. Isso temos (o) bastante. Também não conclamo por mais ensaios de críticos cujo contracheque venha da universidade. Antonio Candido será reeditado integralmente a partir do ano que vem. Flora Süssekind tem um catatau de seiscentas páginas no prelo. Contudo, o que falta ser produzido por aqui são livros como A arte do erro, da poeta e romancista argentina María Negroni, uma plebeia do pensamento crítico. Livros sem chancela, liberados da afecção representada pela categorização da literatura em gêneros ou do cercadinho da tese acadêmica.

Em nosso vizinho de baixo abunda o ensaio pessoal — escrito por poetas, prosadores, críticos ou tudo isso junto, já que na Argentina todo escritor também nasce crítico —, cujo principal sentido é investigar aquilo que seu autor privilegia: linhagens, a oposição, a claque a favor e a rebimboca da parafuseta. Só nesta temporada saíram coisas fascinantes de Martín Kohan (vanguarda e retaguarda), J.P. Zooey (literatura e pós-humanismo), Hernán Vanoli (literatura e algoritmo), Diego Vecchio (literatura e telepatia), Laura Wittner (viver e traduzir) e uma coleção de ensaios breves acerca do gosto pela leitura com, entre outros, Alan Pauls e María Moreno. Os livros de Negroni figuram entre os mais singulares da fornada.

O ensaio pessoal atenta aos cantos pouco iluminados, trazendo para o olhar do leitor o que passaria batido

Poucas atividades humanas são tão condicionadas ao erro quanto a literatura. Todo erro gera problemas, e é aí que reside seu interesse. A propósito, Bachelard demonstra que é preciso propor o problema do conhecimento científico (ou vá lá, artístico) em termos de obstáculos. Segundo sua teoria, um obstáculo pode, em vez de dificultar a progressão de nosso entendimento, resultar num valioso revelador de processos que entram em jogo na experiência cognitiva. O conhecimento indica que, como escreveu Juan José Saer, áreas de treva são os lugares de onde melhor se vê.

A psicanálise confirmou que lapsos e atos falhos demonstram a existência de uma forma de conhecimento que se baseia no erro, que toma como ponto de referência as sombras e os obstáculos. Também cabe nos escritores a carapuça de Wittgenstein endereçada aos filósofos, ao afirmar que alguns deles sofriam da perda de problemas e tudo lhes parecia demasiado simples. Em consequência, aquilo que escreviam se tornava incomensuravelmente trivial e superficial.

María Negroni dedica dezesseis breves ensaios a Rimbaud, Walter Benjamin (de quem é notável herdeira), Emily Dickinson, Bruno Schulz, Robert Walter e Yves Bonnefoy, apenas para ficar entre os mais conhecidos. Em cada um, investiga a escrita que “busca sempre o mesmo: rebelar-se contra o automatismo e as petrificações do discurso, que cancelam o direito à dúvida, limitando às criaturas o acesso à sua própria inadequação”. 

Para a escritora, o erro se confunde com o apelo do desconhecimento de causa que reside na própria acepção da palavra, “desvio do caminho considerado correto, bom, apropriado; desregramento”, conforme o Houaiss. O destaque é meu, para enfatizar essa palavra determinante para a poética de Rimbaud, poeta no qual Negroni identifica, na errância que o caracterizou: após abandonar a poesia, Arthur passou a errar, da Charleville natal para Londres, da Europa para Chipre e da ilha para a Abissínia —, o modo ideal de investigação. 

O jovem dos pés alados, como o chamou Verlaine, assim como o exílio do poeta Juan Gelman nos anos de chumbo da ditadura argentina, designam o errar peripatético daquele que se perde na própria deambulação: “Não existe outro mistério que não este: cada linha diz o que diz, como uma forma de invocar aquilo que não diz e, assim, dá um salto para o contrário e pode encontrar o absoluto, esse vazio (cheio de nada) que se alcança — às vezes — através do caminho do fracasso”.

O erro de escrever

Essa perda parece subjacente à própria escolha entre escrever e não escrever, tema do ensaio dedicado a H.A. Murena, poeta contemporâneo de Borges, obscurecido pela sombra do mestre, também por seu apego à poesia mística num período pouco afeito à turbulência metafísica. Desde a epígrafe de Murena que abre o volume, “muito jovem apostei/ a vida/ no erro de escrever”, Negroni sugere que a opção pela escrita em vez do silêncio se trata de evento dos mais transcendentes. A esta disposição, “a esta aventura sigilosa de pensar para além do uso […], a literatura deve sua felicidade”. 

O ensaio pessoal atenta aos cantos pouco iluminados, trazendo para o olhar do leitor o que ficaria esquecido ou passaria batido. Como uma colecionista ao modo de Benjamin, a poeta argentina enumera e organiza seus arquivos, às vezes dedicando volumes exclusivos a alguns deles. Esses pequenos museus enfeixados entre capa e contracapa — Elegía Joseph Cornell, Objeto Satie e Archivo Dickinson ­— pertencem ao melhor de sua obra, à qual A arte do erro serve como eloquente introdução. 

Quem escreveu esse texto

Joca Reiners Terron

É autor de A morte e o meteoro (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #64 em outubro de 2022.