Crônica de 1918,

Ficção pandêmica

Com notável atualidade, novela experimental de 1976 narra o impacto da gripe espanhola em Curitiba

22mar2020 - 16h57 | Edição #32 abr.2020

No rastilho pandêmico da Covid-19, reler O mez da grippe pode ser experiência aterradora, mas também instrutiva. Clássico da literatura de invenção brasileira, escrito/composto por Valêncio Xavier em 1976 e publicado em 1981, esse livreto de oitenta páginas, identificado pelo autor como “novella” e reconhecido por Décio Pignatari como a narrativa mais avançada feita no Brasil, exige interpretações quase sempre motivadas por sua aparência gráfica, de romance-colagem, em detrimento da potência política da ambientação, que tem espantosos pontos de toque com a atualidade.

A trama armada com recortes de notícias e anúncios de jornal se dá entre os últimos dias de outubro e 3 de dezembro de 1918, coincidindo com a negociação do armistício da Primeira Guerra Mundial e a chegada da epidemia de gripe espanhola a Curitiba. Na cidade circulam os personagens, representados por falas que são entregues em conta-gotas, à medida que acompanham a ordenação diária das manchetes retiradas do Commercio do Paraná e do Diario da Tarde (a ortographia no livro é a da epocha). Com isso, temos o principal narrador dessa obra polifônica, a narrativa pública ditada pela imprensa, lado a lado com comunicados oficiais, correspondidos por fragmentos de relatórios do “Sr. Dr. Trajano Reis, director do Serviço Sanitario”.

A contrapelo da narrativa pública, temos vozes isoladas e anônimas, à exceção dos depoimentos de “Dona Lúcia” colhidos entre 1975 e 76 e que cumprem a função de atribuir veracidade. Destaca-se a voz de “um infeliz demente” em surto no Hospício N. S. da Luz (verídica, atestada por notícia sobre quatro assassinatos cometidos por ele) e a do homem que estampa a capa da primeira edição, um tarado de bigodinho que vaga pelas ruas esvaziadas pela gripe, invade a residência de um jovem casal alemão contaminado e estupra a mulher inconsciente e febril. O relato do criminoso é elaborado através da voz lírica que atravessa o romance, disposta em fragmentos ao modo de um poema —

Mesmo na imobilidade da febre
suas coxas se entreabrem lentas
como a pedir que eu penetre sua gruta
com minha língua de sangue em chama

— e se encerra com a certeza da impunidade. De fato, a tentativa de descrever a leitura de O mez da grippe é sempre frustrante, pois o encanto visual está no quebra-cabeças que resulta da justaposição de imagens e textos que o torna tão desafiador e próximo da linguagem cinematográfica. Para sua efetiva fruição, a presença do leitor como jogador dedicado é fundamental. Infelizmente, a última edição comercial, O mez da grippe e outros livros, de 1998, da Companhia das Letras, está fora de catálogo. A editora curitibana Arte & Letra planeja reeditá-lo isoladamente em fac-símile.

Para além de coincidências

Contudo, existem níveis de leitura menos explorados pela ampla atenção crítica recebida pela obra. Dialogando com o presente, para além de coincidências, há o fato de o estopim da epidemia ter ocorrido em um casamento (em Paranaguá), para o qual do “Rio de Janeiro vieram assistir ás bodas alguns syrios, que estavam com o mal incubado”(algo semelhante ao acontecido na Bahia em 7 de março, quando quarenta convidados foram contaminados pela Covid-19 num casamento). Mas há diferenças na narrativa pública entre 1918 e 2020.

Mais concentrada no final da guerra que em orientar a população, a imprensa se dedica a colher a repercussão da derrota alemã para os Aliados entre a numerosa colônia germânica paranaense, enquanto a chegada da gripe apenas se insinua em seções menos privilegiadas dos jornais. Jeca Rabecão, cronista popular e circunstancial, ironiza no mais perfeito portunhol o desprezo da Saúde Pública diante da epidemia iminente, que se reflete no ceticismo da população acerca da letalidade do vírus: 

La influenza española
Esso todo, la gran grita,
No tiene casi que nada
No passa, cosa esquisita:
De una… gran españolada. 

À gran grita, talvez a fim de coibir o pânico, a ficção do Estado responde com censura: um artigo no Diario da Tarde de 22 de outubro não é publicado, restando apenas as colunas em branco e o título (“A influenza”). Enquanto isso, eclode a polarização política por meio da “ousadia boche” dos cidadãos de origem alemã, em resposta ao apoio de Wenceslau Braz aos Aliados: o alemão Rodolfo Damm defeca em frente ao Diario da Tarde e escarra na porta da redação; no Theatro Hauer, um “germanophilo” é preso após xingar Braz, então presidente da República. O próprio estupro cometido contra a mulher alemã pode ser interpretado como contraparte dessa polarização.

Segundo o autor argentino Ricardo Piglia, a ficção do Estado entra em ação quando os políticos necessitam determinar o que é real e quais são os limites da verdade. A teima de Jair Bolsonaro em identificar a Covid-19 como “uma fantasia” ou algum complô bolado pelos chineses parece atender ao que o escritor entende como o poder se sustentando sobre mecanismos da ficção para se perpetuar; afinal, “o Estado também é uma máquina de fazer crer”. Piglia lembra que a ditadura argentina (1976-84) diagnosticou a oposição de esquerda como um vírus que havia corrompido o país e precisava ser eliminado, e o Estado militar se autodefinia como o único cirurgião capaz de uma intervenção drástica. 

Se a oposição política decorrente do final da Primeira Guerra Mundial funcionou como fator de distração para o essencial, o despreparo do Serviço Sanitário ao lidar com a epidemia, as manifestações patéticas e irresponsáveis de Bolsonaro têm idêntico efeito de cortina de fumaça, com potencial impacto de danos ainda impossível de ser calculado. Com a espetacularização orquestrada de cada ato insano cometido pelo presidente, a nova censura se metamorfoseia numa espécie de ficção endêmica, cujos sintomas seriam o negacionismo de uma verdade que — malgrado as instituições aparentemente continuarem funcionando — parece importar cada vez menos.

Quem escreveu esse texto

Joca Reiners Terron

É autor de A morte e o meteoro (Todavia).

Matéria publicada na edição impressa #32 abr.2020 em março de 2020.