Literatura,

Delírios digitais

A ilusão dos encontros e as armadilhas do mundo on-line são temas do novo romance do argentino Alan Pauls

07mar2022 - 04h51 | Edição #56

O novo romance de Alan Pauls, A metade fantasma, marca um bem-vindo retorno do autor que não publicava ficção desde 2013. À semelhança de O passado, seu conhecido romance de 2003, vencedor do Prêmio Herralde, que está sendo simultaneamente relançado pela Companhia das Letras, A metade fantasma também lida com o relacionamento amoroso de um casal e com a multiplicidade de estratégias de construção subjetivas nas sociedades contemporâneas.

A etimologia de “fantasma” nos leva em direção às ideias de “imagem”, “aparição” e “ilusão”; leva também por um caminho mais sombrio, aquele do “espectro” e da “assombração”, projeções inquietantes geradas pela “fantasia alterada”. Savoy, o protagonista, lida com uma série de fantasmas ao longo da trama, até o surgimento dessa que imaginamos ser a “metade fantasma”, Carla, seu interesse amoroso. Carla, contudo, só aparece depois de transcorrido o primeiro quarto do romance — antes disso, Savoy persegue uma porção de aparições materializadas nas mais variadas tralhas que ele adquire, compulsivamente, em um inovador e popular site que aproxima vendedores e compradores.

O principal não é o que está na superfície, e sim aquilo que cozinha em fogo baixo no subterrâneo da trama

A internet e especialmente essa “plataforma de comércio eletrônico que encabeçava os rankings de novos empreendimentos elaborados por periódicos mensais de economia e negócios” transformam a vida de Savoy. Ele escolheu viver de aluguel — e mudar com frequência de endereço — para ter a chance de observar, na ocasião do pagamento, ainda que brevemente, as rotinas alheias. Com a plataforma, ele passa a ter acesso a “um além”, “uma sobrevida radiante e sustentável para sua vocação de etnógrafo de vidas alheias”, pois “nunca lhe faltariam motivos para se meter na casa dos outros”. Já não teria que mentir, fingir ou “prometer nada que não tivesse a intenção de cumprir”, como fazia quando visitava apartamentos que não tinha intenção de alugar.

Savoy tem o desejo do encontro, mas não o do envolvimento. Reconhece e admira a complexidade que reside nos outros, mas não tem interesse em aprofundar esse conhecimento — ele se satisfaz com a captura fugaz de uma miríade de fragmentos sem contexto:

“Um par de tênis de couro branco, chamativo como botas de astronauta, um voucher para estofar de novo duas poltroninhas também descobertas on-line (que nunca chegou a comprar), um jogo de meia dúzia de facas de cozinha japonesas (acompanhadas de um curso básico para fazer sashimi) e um cabideiro para escritório dos anos cinquenta de cor bordô, com um porta-guarda-chuva e um pé de alumínio amassado, cópia pobre, mas digna, do original em que, quando menino, costumava pendurar o blazer e a maleta escolar toda vez que passava pelo escritório de seu pai ao sair do colégio”.

O insistente uso que Savoy faz da plataforma tem algo de esportivo ou, como ele mesmo define, etnográfico. Os incontáveis objetos que compra servem de pontes em direção às vidas alheias, possibilitando os encontros frequentemente pitorescos que coleciona sem razão aparente (os artefatos em si ficam esquecidos). O que ele coleciona são as aparições, as ilusões de intimidade que apreende em cada casa que visita com a desculpa de buscar o objeto comprado. O que lhe importa é a dimensão “fantasmática” desses encontros, aquilo que não está pronto, que não tem um sentido fixo e determinado (pois são essas sensações que permitem o trabalho posterior da imaginação e da narração).

Metades

São múltiplos os níveis mobilizados por Pauls para refletir — de forma sutil, usando a ficção, o burilamento dos detalhes — sobre a ilusão dos encontros, sobre a perfeição impossível das metades. Esse tema está impregnado até mesmo na forma do romance, que pode ser dividido em quatro partes, moduladas a partir da dinâmica de atração e repulsão entre Savoy e Carla: na primeira, Savoy está sozinho e testando o terreno das interações on-line; na segunda, encontra Carla e eles compartilham a vida (e Buenos Aires) por um tempo; na terceira, Carla viaja (ela é house sitter de atuação internacional) e eles se falam por Skype; na quarta e última, Savoy rompe com sua tendência sedentária e se desloca para surpreender Carla em Berlim.

A estrutura do romance nunca parece estar completamente balanceada, como se seu centro energético estivesse sempre se deslocando, por mais que o leitor reconheça as várias oposições e espelhamentos que sugerem uma harmonia. Savoy, por exemplo, no início do contato com Carla, “sabia de sobra quanta ilusão de óptica havia no enamoramento, quanta distorção e até mesmo erro havia nos alardes de perspicácia dos quais gostava tanto de se gabar”, um saber que, no fim das contas, pouco lhe serve. Adiante, com ambos já distantes fisicamente, acompanhamos “suas conversas virtualmente intermináveis”, “seu intercâmbio de bobagens cotidianas, seu simulacro de sincronia”. Viam-se e era “como se um rosto, não dois, se encontrasse com seu duplo num espelho”.

O estilo de Pauls também ajuda a contar a história, ao mesmo tempo que conta outra paralela, a descrição da composição de um relato. Por um lado, o estilo pausado, detalhista e pouco afeito aos movimentos bruscos é fundamental para que a odisseia de Savoy e as tralhas inúteis sobressaiam por contraste: o que está na superfície não é o principal, e sim aquilo que cozinha em fogo baixo no subterrâneo da trama — as escolhas, as renúncias, os afetos e as transformações (mais o lóbulo da orelha que os grandes painéis representativos, como queria Giovanni Morelli; mais os lapsos e atos falhos que as afirmações peremptórias, como ensinou Freud).

Por outro lado, o estilo de Pauls em A metade fantasma — e reconhecemos uma mudança com relação a O passado, mais “cinematográfico” —, composto de volteios e digressões, postula uma ficção que contamina a visão de mundo do leitor com uma espécie de frequência baixa, que irradia pouco a pouco, em descompasso com a velocidade estonteante da tecnologia. Não é por acaso que Savoy passa parte da história imerso em uma piscina, nadando: é a imagem de um mundo próximo ao “real”, mas com gestos mais lentos e uma visibilidade difusa, que demanda atenção e cuidado de quem se aproxima. 

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Cartografias da disputa: entre literatura e filosofia (Editora UFPR).

Matéria publicada na edição impressa #56 em fevereiro de 2022.