Crítica Literária,

A história em estilhaços

Voltado tanto a iniciantes como a iniciados, ensaio sobre Walter Benjamin sublinha relações entre sua obra e a história

28nov2018

Walter Benjamin é uma das figuras intelectuais do século 20 mais lidas, comentadas e interpretadas, tendo influenciado decisivamente o pensamento de uma série de outros nomes, como Hannah Arendt, Jacques Derrida e Giorgio Agamben. É possível ainda acrescentar algo à vasta fortuna crítica que sua produção acumulou desde sua morte, em 1940? 

O breve e profundo livro de Jeanne Marie Gagnebin — lançado em 1982, ampliado em 1993 e agora reeditado com atualizações — mostra que sim, e o faz de modo próximo ao procedimento crítico de Benjamin: não com a intenção declarada de encontrar a “verdade” ou dizer coisas “inéditas”, e sim a partir do meticuloso trabalho de seleção e montagem de dados que, às vezes, estão à vista de todos. 

Gagnebin é especialista na obra do autor, tendo publicado livros que são referência no campo (como Limiar, aura e rememoração, Lembrar escrever esquecer e História e narração em Walter Benjamin), e sua abordagem em Os cacos da história alia com habilidade o caráter denso dos aspectos teóricos com a leveza da exposição didática. O livro está dividido em quatro breves capítulos temáticos, unidos, contudo, por um mesmo fio narrativo, mesclando obra e vida de Walter Benjamin para mostrar as linhas principais de seu pensamento. Essa mescla ou oscilação entre vida e obra, aliás, é um dos elementos-chave para melhor se aproximar de sua obra: “Benjamin insiste”, escreve a autora, “na manutenção necessária de uma distância entre a ordem do político e a ordem transcendente da reflexão teológica (judaica) ou crítica (marxista)”. 

Nascido em 1892 em Berlim, em uma família abastada, Walter Benjamin estuda literatura e filosofia, engajando-se no movimento estudantil desde cedo. Tenta conciliar, em suas leituras e escritos, a metafísica da mística judaica e o materialismo da teoria marxista, uma tensão exemplificada por suas estreitas relações de amizade com Gershom Scholem, de um lado, e Bertolt Brecht, de outro. Sua postura idiossincrática diante da tradição e das referências do passado não garante receptividade no meio acadêmico alemão nos anos 1920, e seu orientador sugere que ele não apresente sua tese de livre-docência para que não seja reprovado (a tese era o livro que hoje conhecemos como A origem do drama barroco alemão). “À grande decepção de Benjamin seguiu-se um alívio equivalente”, escreve Gagnebin, “ele desejava, de fato, mas também temia a entrada para o mundo acadêmico alemão da época, tão tradicional e tão respeitável, e igualmente tão competitivo e tão hipócrita”. Esse desvio, que ocorre em 1925, será decisivo tanto para a vida como para a obra de Benjamin. 

Benjamin aglutina temporalidades em seus escritos e mistura a crítica cultural com filosofia, textos literários e comentários sobre filmes

Fora da universidade, Benjamin se estabelece como crítico literário, escrevendo em jornais e revistas, falando no rádio, escrevendo livros — publica Rua de mão única, coletânea de fragmentos, em 1928. É nesse corpo a corpo com a literatura contemporânea, especialmente a francesa (lê André Gide, traduz Marcel Proust), que Benjamin vai burilar suas ideias teóricas acerca do passado e da história. 

Seu “conceito de experiência”, escreve Gagnebin, “tem uma origem literária: é tomado à busca proustiana e ao modelo da narração”, pois “na lembrança proustiana se abre uma dimensão de infinito que ultrapassa a limitação da memória individual”. Benjamin não só vai contra o tradicionalismo vigente na universidade como oferece novas ferramentas, leituras e objetos, da alegoria à reprodutibilidade técnica, ampliando o cânone também em direção a autores contemporâneos de língua alemã, como Robert Walser e Franz Kafka. 

Paris

A instabilidade da vida de Benjamin se torna ainda mais dramática a partir de 1933, com a ascensão de Hitler. Ele é obrigado a deixar Berlim e se estabelece em Paris, mas não demora para que lá a situação também se torne impossível — em 1939, Benjamin é levado prisioneiro para um campo de internamento. O livro de Gagnebin nunca falha em explorar as reciprocidades que existem entre os eventos na vida de Benjamin e a elaboração teórica e conceitual em sua obra, algo bastante pronunciado nas teses de Benjamin Sobre o conceito de história. Nessas teses, escreve a autora, Benjamin mostra que “o trabalho do historiador materialista é arrebatar ao esquecimento a história dos vencidos e, a partir daí mesmo, empenhar-se numa dupla libertação: a dos vencidos de ontem e de hoje”. 

A situação de Benjamin nesse período final de sua vida nos é muito familiar: ele observa boa parte do “povo alemão” abraçar o fascismo por conta de uma ignorância deliberada diante das lições do passado. “As ruínas da história acusam e continuam a crescer”, escreve Gagnebin em seu comentário à nona tese. 

Mas o pensamento de Benjamin não se restringe à reflexão sobre suas próprias vivências e seu contexto histórico imediato — embora esses sejam, como tantos, pontos importantes para a fruição de sua obra. Benjamin aglutina temporalidades em seus escritos, assim como mistura a crítica cultural com filosofia, leitura minuciosa de textos literários e comentários sobre imagens e filmes. 

A argumentação de Gagnebin acompanha essa estratégia benjaminiana, variando seus exemplos e abordagens, desde o tema mais complexo da alegoria, por exemplo (“uma mulher com os olhos vendados e segurando uma balança como representação da justiça”), até a indicação prosaica de uma lista de despesas enviada por Benjamin ao Instituto de Adorno e Horkheimer — “ternos (um por ano); sapatos (dois pares por ano); lavanderia”. Esse duplo registro, do teórico ao prosaico e vice-versa, torna a leitura não só desafiadora, mas também prazerosa e informativa. 

Em suma, trata-se de um livro que serve tanto para quem já conhece Walter Benjamin, pois faz relembrar e organizar, como para aqueles que iniciam o contato com ele, pois dá acesso aos pontos principais de sua vida e obra, com bibliografia e cronologia ao fim da edição, úteis e completas.

Quem escreveu esse texto

Kelvin Falcão Klein

Professor da Unirio, é autor de Wilcock, ficçaão e arquivo (Papéis Selvagens) e Estratégias de visualidade na literatura: o Olho Sebald (Editora UFMG).