Cinema,
Mágica no absurdo
Publicação de O agente secreto eleva gênero ‘livro de roteiro’ a objeto de arte
11mar2026 • Atualizado em: 14mar2026“O novato é casado e/ou aprecia a companhia de mulheres?” não consta. Foi um caco inventado na hora, pelo próprio Kleber Mendonça Filho, para a atriz Geane Albuquerque, na cena que vemos no corte final de O agente secreto. Fora a famosa linha de Elisângela — que virou meme, camiseta e fantasia de Carnaval —, o filme inteiro está dentro do roteiro lançado pela Amarcord.
Pela leitura, percebe-se o trabalho de montagem. A edição tornou o filme mais sutil para os fãs e mais hermético para alguns detratores — críticos que exigem tudo explicadinho e se esquecem que mesmo o roteiro de obras-primas como O grande Lebowski, dos irmãos Coen, não segue uma lógica cartesiana. No caso de O agente secreto, o ritmo vagaroso, cruzado por hiatos, elipses e cortes bruscos, pede um espectador atento, capaz de ver mágica no absurdo.
Livros de roteiro ainda são fortuitos no Brasil. Na Argentina acham-se aos montes pelas livrarias — e veja a qualidade dos roteiros dos filmes dos hermanos. Nem todo mundo é Godard para filmar ao sabor do acaso e da inspiração. E nem todo grande filme é escrito 100% pelo próprio diretor. Por esses e outros motivos, esta edição eleva o gênero “livro de roteiro” a objeto de arte — e torço para que abra caminhos e que outros mais sejam publicados.
Além de demonstrar que tudo o que vemos na tela tinha sido escrito e até desenhado pelo diretor, o roteiro inclui dezenas de frames e um belo ensaio de Victor Jucá, responsável pela fotografia still. Inclui também um longo prefácio de KMF devassando o quebra-cabeças que é este cordel pulp; reproduções das reportagens originais sobre a Perna Cabeluda; e ainda um excelente posfácio escrito por Wagner Moura (além de ter o molho, o baiano escreve bem), que conta como surgiu sua amizade com o diretor, há vinte anos, em Cannes.
O ator vencedor do Globo de Ouro dá destaque ao cuidado até nas microcenas, como a laboriosa sequência do telegrama, que requeria uma ida à Brasília só por uns segundos de tela. Moura sublinha o impacto de Emilie Lesclaux na produção: “Emilie sabe que filmar o périplo do telegrama e carteiro em Brasília ou gastar uma grana na pós-produção para que um gato tenha duas cabeças é parte do que faz o Kleber um cineasta com um ritmo e um universo únicos”.
Wagner Moura sugere que Armando tem muito do diretor: a ânsia de reparar traumas do passado
Se a frase de Elisângela entrou depois, há também o que ficou de fora. No filme, o enigmático desaparecimento de Fátima — a mulher de Marcelo/Armando — parece ter sido por uma doença misteriosa; no roteiro se evidencia como morte mandada. Também não aparece na tela o jornalista meio-irmão de Armando. Outros pequenos movimentos e cenas de ligação foram limados do corte final.
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No essencial, está tudo lá: as idas e vindas na cronologia, as mudanças súbitas de atmosfera, as descrições minuciosas de locações e personagens, e diálogos saborosos como “— Raparigou? — Rapariguei”. Moura, para quem o roteiro pode ser lido como um romance, sugere que o protagonista tem muito do próprio diretor, seja a fala mansa, seja a indignação frente à injustiça, seja a ânsia de reparar traumas do passado através do embate corajoso com os registros históricos.
Outros aspectos do filme são iluminados por este livro. No prefácio, KMF conta como escreveu o roteiro em uma época recente bem complicada.
O agente secreto começou a ficar de pé no isolamento da pandemia, vendo o Brasil sob a versão mais bovina do bolsonarismo. O texto foi se escrevendo só, fenômeno que me dá uma sensação de alegria e muita malícia, mesmo de safadeza.
Ele revela ter temido que a produção — desde o início pensada para ser estrelada por Moura — tivesse um disfarce natural de filme de época, distante do país contemporâneo. Por que esse disfarce? “Me sentia ressabiado dos ataques políticos pessoais que sofri de tanta gente reaça nos lançamentos brasileiros de Aquarius e de Bacurau”, lembra o diretor.
Historicidade
Olhar o regime de exceção dos anos 1970 com nossa sensação de parêntese infinito — na pandemia sob o bolsonarismo — é informação valiosa, que ilumina um enredo atravessado por diversos regimes de historicidade, para usar o conceito do filósofo francês François Hartog. O tempo suspenso da pandemia, na imagem do filósofo Jacques Rancière — ou mesmo no exagero crítico de Giorgio Agamben, que viu o isolamento sanitário como um regime de exceção —, nos permitiu sentir na pele o presentismo, conceito criado por Hartog para definir a contemporaneidade.
No presentismo, o passado é evocado em forma de memória, não como modelo e, sim, como algo a preservar ou a reparar. O futuro, por sua vez, deixa de ser promessa positiva e passa a ser visto como ameaça permanente — crise climática, incerteza econômica, instabilidade política.
O resultado é um presente que se dilata e se fecha sobre si mesmo, dificultando tanto a aprendizagem a partir do passado quanto o planejamento do futuro. Impregnado por outro regime de historicidade — este bem brasileiro: a época do Carnaval, em que as convenções são relativizadas e suspensas —, O agente secreto fala não só de 1977 como também dos anos 2020, quando ele efetivamente termina. Como se o Brasil estivesse preso no mesmo looping, condenado a não sair do passado: um país ainda colonialista, escravagista, racista, machista, violento e atrasado pelo arbítrio do conservadorismo e das lutas internas. Cineasta preocupado com os desvios da história, como se nota no documentário Retratos fantasmas (2023), o filho da historiadora Joselice Jucá recorda:
Foi escrevendo o roteiro que percebi como o conservadorismo do Brasil no século 21 era uma versão nostalgia cor-de-rosa da ditadura civil-militar do século 20. Não só a ditadura retardou a sociedade em 30 anos, como deixou milhões de brasileiros confusos sobre o que significa viver num pais democrático. Com o agravamento da crise moral em 2018, marcado pela eleição de Bolsonaro, o Brasil retirou do almoxarifado ideias aposentadas durante os 40 anos de redemocratização. É como se a geração da meia-idade quisesse reviver sua juventudade dos 1960 e 1970. Eu via isso e imaginava um shopping center moderno, as lojas falidas e a fonte de água ainda ligada. Na praça de alimentação, um estranho baile de debutantes, a música de Ray Conniff e da Jovem Guarda tocando numa caixa bluetooth com luzes irritantes. Kombis, Jipes e Rurais do exército estacionados na entrada. Os figurantes com cabelo de laquê e brilhantina fantasiados com roupas cheirando a naftalina. Era esse o clima do país pós-golpe da era Temer/Bolsonaro.
Surrealismo
Muitas vezes, o grande cinema aparece na condução dos atores, no domínio do ritmo e da cinematografia, na criatividade da edição, na escolha da trilha sonora e no design de arte. E, muitas vezes, a ideia genial que vemos na tela não foi concebida antes no papel. Não é assim que acontece no cinema de Kleber Mendonça Filho, que, como jornalista, crítico e curador, detém um repertório cinematográfico extenso e é guiado pela razão — embora traga muita emoção em suas produções. Há frames de O agente secreto que citam outros filmes e há frames que nunca foram vistos antes, como a aparição da gata de duas cabeças, de La Ursa ou do defunto no posto de gasolina. Paradoxalmente, essas cenas podem ser colocadas na conta do surrealismo. E não falo só do passeio surpreendente da Perna Cabeluda pelo Parque 13 de Maio.
‘O agente secreto’ fala de 1977 e dos anos 2020, como se o Brasil estivesse preso num looping
O início do cinema é influenciado pela explosão das vanguardas. E o olho cortado por uma navalha, cem anos atrás, em Um cão andaluz, de Luis Buñuel e Salvador Dalí, expressa um enunciado caro ao surrealismo: a justaposição de elementos incongruentes no mesmo contexto. Líder surrealista, André Breton encontrou essa fórmula no uruguaio Isidore Ducasse, o Conde de Lautréamont: “Belo como o encontro entre um guarda-chuva e uma máquina de costura sobre a mesa de dissecação”, enuncia o protagonista em Os cantos de Maldoror.
No começo do roteiro de O agente secreto, lemos a seguinte indicação: “Uma PAN nos mostra o tubarão de papo pra cima, com a perna saindo da barriga como uma cesariana interrompida”. “Absolute cinema”, diria Scorsese. Ou poesia, diria Lautréamont — belo como o encontro de um tubarão e uma perna humana numa mesa de dissecação.
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