Jessie Buckley e Paul Mescal em cena de 'Hamnet: a vida antes' (Universal Pictures Brasil/Divulgação)

Cinema,

Diante da dor dos outros

Hamnet é tanto sobre Shakespeare e sua maior tragédia quanto sobre Agnes, a mulher do dramaturgo que foi ignorada nos livros

16jan2026 • Atualizado em: 05fev2026

A noite anterior foi mal dormida. Acontece diante das grandes coisas. Aconteceu na véspera de eu assistir a Hamnet: a vida antes de Hamlet. É possível que o leitor se espante com o meu exagero. Eu também acho despropositada essa excitação, mas estou habituada a essas intensidades. Tudo que carrega a palavra Shakespeare, assim mesmo, substantiva, me dá frio na barriga e na espinha, arrepios e tremores. Já é algo condicionado. Lá está a palavra, e me surge um sentimento delirante de posse, como se fosse meu aquele William. 

Em minha defesa, o fanatismo não é incomum. Quando a luz acende e nos apaixonamos por algum autor, pode acontecer de vivermos essa fantasia de obsessão. Uma vez, um acadêmico me perseguiu por meses, me importunando, porque eu andava próxima demais de Virginia Woolf. Apesar do tempo que ele me fez perder e da sua deselegância, aquilo me serviu, ao menos, para rir do ridículo — o meu próprio ridículo, quando pensava em Shakespeare. Por tudo isso, até que dormir mal na véspera de assistir a Hamnet me parece razoável.

Cena de Hamnet: a vida antes de Hamlet (Universal Pictures Brasil/Divulgação)

Normalmente, quando assistimos a um filme adaptado de algum livro, caímos na tentação de fazer comparações ou estranhar cenas que se antecipam ou que não estavam nas páginas. Esse é um exercício, além de inútil, pouco inteligente e nem um pouco sensível. No caso de uma obra canônica e tão diluída como a do inglês, esprememos passagens de Rei Lear, Romeu e Julieta e Ricardo III de onde bem quisermos, porque é possível que aquilo satisfaça perfeitamente nossa demanda particular de análise, seja política ou psicológica. 

Hamnet me pareceu ser uma proclamação de liberdade bem construída e sedutora, justamente porque se interessa por um ângulo que pouco me ocupa: a biografia de Shakespeare e sua família. É possível que, também por isso, ao ver o filme, eu tenha me libertado da tola presunção de comparar a exatidão ou as minúcias das pesquisas, já que o seu grande valor é, para mim, preencher com muita sensibilidade vários dos buracos dos quais a biografia do autor é composta. 

O filme também trata da impossibilidade de conciliar a escrita e a vida familiar e doméstica

Possivelmente, a obsessão contemporânea em traçar fatos que identificam e reduzem o autor e o seu entorno seja a razão pela qual muitas análises do filme, baseado no livro homônimo de Maggie O’Farrell, sejam construídas a partir de uma investigação sobre o que aconteceu ou não. Ainda que isso não seja um fascínio para mim, não deixa de ser interessante ver construído todo um corpo a partir do quase nada, como fizeram tão astutamente O’Farrell e a diretora Chloé Zhao. 

Um dos elementos que mais me chamam a atenção no longa é a superstição como norma, às vezes envolta em saberes ancestrais. Em vilarejos da Inglaterra elisabetana, período em que Shakespeare escreveu predominantemente, a superstição era tão viva e colorida como na América Latina. Morrer, por exemplo, esse sopro imprevisto e alimentado por todo tipo de crendice, é sensivelmente explorado numa cena crucial em que, acompanhando a irmã Judith doente, Hamnet tenta despistar a morte, deitando-se ao lado dela, respirando o mesmo ar contagioso. Assim, quando a morte chegar, a irmã terá mais chance de ser salva, já que eles, crianças nascidas dentro da mesma hora — bela expressão usada em Noite de reis para definir os gêmeos —, são tão parecidos que podem confundir a visitante temida. A morte, então, escolhe o menino, interpretado de forma dolorosamente bonita por Jacobi Jupe e cujo irmão, Noah Jupe, de fato faz o papel de Hamlet na cena final do filme, no palco.

Paul Mescal em Hamnet: a vida antes de Hamlet (Universal Pictures Brasil/Divulgação)

Hamnet é repleto de referências às peças de Shakespeare e esse é um aspecto muito comovente, que amarra o que sabemos com a emoção do reconhecimento de passagens. Há Romeu e Julieta, Macbeth, há um lampejo de Ofélia quando Agnes, na cozinha de casa fabricando remédios, ensina à filha que alecrim significa recordação, frase que faz parte do discurso de Ofélia e suas plantas na sua cena derradeira em Hamlet.

Hamnet é um filme também sobre a impossibilidade de priorizar a escrita e seu estímulo constante com a vida familiar e doméstica. Shakespeare, interpretado por Paul Mescal, está sempre em trânsito entre Londres e Stratford, e por isso alterna entre deixar a família e deixar o teatro, nessa triste melodia entre falta e anseio. É justamente esse movimento do marido que Agnes vê como abandono da família, e isso passa a ser o fio de tensão entre o casal. 

Feiticeira

É um pouco apressado dizer que Hamnet fala sobre Shakespeare e as motivações para escrever sua tragédia mais longa. O filme é tanto sobre o autor e Hamlet quanto sobre Agnes, a mulher do dramaturgo tão ignorada nos livros, assim como são ignoradas as redes de apoio que sustentam os artistas. Vivida pela magnífica Jessie Buckley, ela é considerada uma feiticeira que herdou da mãe uma leitura sobrenatural e instintiva da vida, mas paradoxalmente muito concreta. Afinal, lê o futuro pelas mãos, faz poções e remédios, conhece ervas, plantas e animais, ainda que tenha que caber nos hábitos pretensiosamente civilizados da casa da família Shakespeare. 

Mas é a aparente incompatibilidade entre Will e Agnes que faz culminar a beleza do filme: a incapacidade dela em conceber que a vocação do marido não substitui a casa, a família e, muito objetivamente, o luto pela morte de Hamnet. O ressentimento de Agnes, que desconhece por completo o que é o teatro, o que é escrever, o que é Londres, é acreditar que é dela a dor mais forte pela perda do filho. Só quando se vê diante de tudo que ocupa o marido tão ausente é que ela enxerga, no palco, que a dor inteira dela é também a dor dele e de toda uma plateia, num momento sublime em que a arte abraça a vulnerabilidade coletiva e estende uma mão ao sofrimento comum. 

Jessie Buckley em Hamnet: a vida antes de Hamlet (Universal Pictures Brasil/Divulgação)

Dizem que Shakespeare, de fato, fez o papel do pai morto de Hamlet na estreia da peça, por volta de 1601, e a cena é reproduzida no filme diante de um The Globe repleto como testemunha do encontro impossível, provando que a arte é a única maneira de ultrapassar a morte. Toca-se num corpo morto, enterra-se um corpo morto, mas a morte, inescapável, não há espada que a acerte. 

O rosto desnorteado de Agnes diante de Hamlet é a expressão do espanto de que a subjetividade não está só na natureza como força ancestral, mas também no que se faz dela, no artifício, permitindo que entre nela, como em quem assiste, o que de mais humano existe na literatura. 

A morte, essa herança, é uma dor que, afinal, se sente junto. A única variação é a hora. O resto é silêncio.

Quem escreveu esse texto

Nara Vidal

Escritora, é autora de Mapas para desaparecer (Faria e Silva), Eva (Todavia) e Shakespearianas: As mulheres em Shakespeare (Relicário).