Imagem de Finis Operis (1973), de Sebastião Nunes (Divulgação)

Literatura brasileira,

Mamaluco pop na provocação

Aos 87 anos, o marginal Sebastião Nunes prova que sempre foi acessível para quem tem senso de humor e não se contenta com o lugar-comum

08abr2026

Finalmente Sebastião Nunes chegou ao mainstream. No caso, à mais prolífica editora de poesia do país, a Círculo de Poemas, selo da Fósforo, que traz edição definitiva da Antologia mamaluca. Será que, como Nicanor Parra, Tião, hoje com 87 anos, precisará viver até os 101 para que sua voz antiestablishment entre pelo cânone?

Improvável, mas necessário. Sebunes Nastião — um de seus inúmeros pseudônimos, trocadilhando com nasty, termo inglês para safado — fincou bandeira em um limbo entre poesia, prosa, artes visuais, agitprop, colagem de imagens e inventividade tipográfica. Anarquista ferrenho, nunca entrou em clube que o aceitasse como sócio. Verbovisual, é até complicado apresentá-lo ao leitor, no espaço de uma resenha, com a mesma docilidade crítica com que se analisa um poema, dado que, em sua obra, a expressão gráfica — o significante — já contém significado. Por exemplo: ele adora diagramar poemas fesceninos usando elementos rococós e vinhetas sofisticadas, casando baixa e alta cultura — e esculhambando ambas. 

O escritor Sebastião Nunes (Maria Zelia Versiani Machado/Divulgação)

E o conteúdo não alivia. Perturba, incomoda, irrita: “estética de provocaçam”, define. É assim desde 1968, ano da assinatura do AI-5, quando já tirava sarro de militares e capitalistas e enchia de sexo as páginas que, por falta de editores com culhão, publicava às próprias custas S/A, como diria Itamar Assumpção. Foi também assim em 1995, quando distribuiu à socapa um falso caderno “Mais!”, cópia adulterada do finado caderno cultural da Folha de S.Paulo, colocando na capa uma foto sua nu, fumando cachimbo, e enchendo páginas com poemas malvados — o jornal da Barão de Limeira não curtiu a zoeira e ameaçou processar. 

Inventor

Recusado por inúmeras editoras e publicações, devido ao dilúvio de palavrões & putarias endereçados à direita e à esquerda, espinafrando tanto Igreja, Exército e família quanto intelectuais e artistas convencionais, Tião foi obrigado a inventar o crowdfunding. Sim, nisso foi pioneiro no Brasil. Enviava escritos a um mailing e pedia dinheiro para se publicar. Funcionou: pelo menos dez livros surgiram. Foi um árduo caminho até chegar à brava editora Altana, que publicou, nos anos 2000, em um anticomercial formato de 21 por 28 centímetros, seus petardos Somos todos assassinos e História do Brasil

Ele também se autopublicou na Dubolso (que editou Humberto Werneck, editor sênior desta Quatro Cinco Um, o ainda desconhecido e brilhante Otávio Ramos e o único livro de poesia de Sérgio Sant’Anna). Palavras como “guerrilha”, “independência” e “underground” soam como clichê para dar conta de uma trajetória artística tão coesa quanto furiosamente livre. E tudo o que Sebastunes Nião mais detesta é o lugar-comum.

Imagem de Aurea mediocritas (1987-1989), de Sebastião Nunes (Divulgação)

Como acontece com muitos artistas de vanguarda, a chegada ao mainstream comprova que ele não estava fazendo “literatura experimental” — estava já no futuro. O que ele criava há cinquenta anos se parece bastante com os memes anônimos e colagens bizarras em visual vaporwave que hoje infestam a internet. “O aspecto visual da poesia do Tião, com seu paste-up com xerox, clipping dialogando com o cartunesco, ficou completamente datado, mas não no sentido do envelhecimento e sim no de um clássico”, afirma o poeta e prosador mato-grossense Joca Reiners Terron.

“Já em respeito ao satírico, é um dos nossos grandes, na linhagem fundada por Gregório de Matos, passando por Millôr Fernandes e chegando a Glauco Mattoso, seu irmão na poesia brasileira contemporânea”, enumera Terron. De fato. Perigoso subversivo das formas clássicas, o paulistano Mattoso acha que o rótulo de provocador se lhe assenta magnificamente. “Tião Nunes é um dos ícones da poesia postmoderna e postconcreta”, escreve o célebre sonetista cego, em sua grafia própria. “Juncta a visualidade à informalidade, a inventividade à marginalidade. É craque na textualidade, como naquelle emblemático caso do poeta que, ao urinar, vê que seu penis cahiu na privada”, pilheria o podólatra poeta. 

Palavras como ‘guerilha’ e ‘underground’ soam clichê para dar conta de uma trajetória tão livre

Enquanto a Antologia mamaluca da Círculo de Poemas reúne quase tudo o que Sebunes publicou entre 1968 e 1989, a recente seleta Delirante lucidez, organizada pelo designer e escritor paulista Gustavo Piqueira, percorre os trabalhos até 2017. O lindo volume da Lote 42/Casa Rex vale por um laboratório de miscigenação de gêneros — uma aula magna em nastiãofilia. “Sem se prender a regras, foi da desconstrução do objeto livro a formatos ultratradicionais. Da quase total predominância da imagem a textos puros. Da extrema erudição aos mais escancarados palavrões. Estar diante de seus livros é admirar a obra de um criador radical como poucos”, define Piqueira.

Trifurcação

Tudo começou em 1968. O miúdo Tião, nascido em Bocaiúva (MG) e morando em Belo Horizonte, tinha trinta anos e tentava o direito enquanto trabalhava com publicidade, seu amado e odiado ganha-pão. “Estava sozinho de noite, deitei na sala e resolvi montar um poema. Era texto, montado com letraset, ilustração, fotografia, recortes de imagens fotográficas e rabiscos de desenhos meus em cima. Foi o primeiro poema que deu certo. Quando acordei, bêbado feito uma vaca, disse: meu caminho é esse aqui, essa mistura de texto, desenho e fotografia”, conta ele no livro de Piqueira. Via-se numa trifurcação do concretismo, do dadaísmo e do beatnikismo. Daí saiu Última carta da América, o autoeditado primeiro livro — hoje chamaríamos “zine”. Sem conseguir divulgar sua poesia pelos meios convencionais, em 1970 o advogado imprimiu mil cópias de A cidade de Deus com uma vaquinha bancada por 150 amigos.

Imagem de Aurea mediocritas (1987-1989), de Sebastião Nunes (Divulgação)

“O Godard enunciou que ‘cultura é regra, arte é exceção’. O Sebastião Nunes é O Artista. Único”, afirma o prosador e performer mineiro André Sant’Anna. “Há muito tempo corre à frente de modas, tendências, estilos, movimentos, panelinhas, para inventar uma arte que não cabe na literatura. Da sacanagem pura ao poema mais triste que já li, suas obras feitas à mão são de deixar qualquer inteligência artificial de quatro, ruminando a própria ignorância”, continua Sant’Anna. 

Não é poesia que busca beletrismo babão, autoajuda instagramável ou monetização do trauma

“Suas referências, seu conhecimento e sua cultura valem os cadernos culturais de quaisquer jornais. É inacreditável que só vez ou outra mereça ganhar uma citação aqui ou ali — embora seja protocolar que artistas fora da cartilha crítica e acadêmica acabem invisíveis. A Antologia mamaluca foi a bíblia que me fez querer ser artista. Quero ser Sebastião Nunes quando crescer”, sonha o autor de Discurso sobre a metástase (Todavia, 2021). O poema mais triste que Sant’Anna já leu é “Bolero para Nubia Lafayette”, de Poesias em estilo New Romantic ou mesmo Pornô Nouveau (1988):

Na mesa do bar tem uma garrafa aberta.
Na garrafa tem um pouco de cerveja. 
Em cima da mesa tem um copo quase vazio.
Em volta da mesa tem quatro cadeiras.
Três cadeiras estão vazias. 
O bar também está quase vazio.
Na outra cadeira está sentado um homem.
Um homem sofrendo como um filhodaputa.

Por este imagético poema vê-se o óbvio: Tião é universal como um bolerão sertanejo. Múltipla em conteúdo e forma, sua poesia comunica-se direta e clara, feito slogan publicitário — apesar de, paradoxalmente, ele odiar com todas as forças a sociedade de consumo e a classe média, antimusas em vários livros. Talvez aí resida a razão de narizes torcidos e muxoxos vindos de gatekeepers de universidades, editoras e festas literárias. Não é poesia que busca dó de peito, beletrismo babão, nhenhenhém confessional, autoajuda instagramável ou monetização do trauma. Pior dos pecados no mundinho literário, ele não se leva a sério, como em “Oh que estúpido que fui”, d’A velhice do poeta marginal (1983):

quebrei minha panelinha literária
no dia em que nasci.
voaram cacas, caquinhos e cagões
fedendo como nunca vi. 
desde então sou poeta solitário
corajoso forte e temerário
orgulhoso pra caralho
mas no borralho,
quem me empresta nova panelinha?
quero que me puxem o saco, 
exijo ser chamado gênio, 
preciso cagar regras. 
ai que saudades de uma cagadinha
na minha literária panelinha. 

Antídoto

“Quando percebi que a obra do Sebastião Nunes recebia pouca atenção da academia, escrevi uma tese de doutorado”, conta o jornalista mineiro Fabrício Marques, que organiza e posfacia esta nova antologia. “Em 2004, sua poesia radical já era necessária, mas, hoje, mais que nunca: sua obra é um antídoto poderoso contra os homens do poder e contra o estado de coisas que vivemos no Brasil e no mundo — com a ascensão da extrema direita, o recrudescimento do fascismo, o desprezo pela democracia, a banalização da morte em casos como os protagonizados pela polícia de migração nos EUA, o advento dos extremos climáticos. Sebastião Nunes, precisamos de você”, pede Marques. 

Imagem de Zovos (1974-1977), de Sebastião Nunes (Divulgação)

Nem tudo é crítica social ou sacanagem erudita, porém. Antologia mamaluca permite observar que esse aficionado por vinhetas de caveiras também dedilha sua sátira em tom elegíaco, biografando artistas através de suas patologias. É o caso do belo Papéis higiênicos: estudos sobre guerrilha cultural e poética de provocação (1985), em que narra, em texto e imagem, a vida do poeta tuberculoso Ascânio Lopes, do pintor cirrótico Elias Augusto de Deus, do poeta hipocondríaco Augusto dos Anjos e do próprio pai, o aventureiro Levi Araújo Nunes, que lhe ensinou que “preguiça e irresponsabilidade são grandes virtudes, mas exigem coragem e astúcia”. Se as velhas gerações ignoraram Tião, que as novas sejam mais espertas e saquem esta ética poética:

que diferença faz? séculos ou mitos ou segundos:
grandes ilusões rastejam entre lagartixas.

Quem escreveu esse texto

Ronaldo Bressane

É escritor, jornalista, professor de escrita, editor da revista de literatura e artes visuais Morel e autor de Escalpo (Reformatório).

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