Bagagem Literária, Escrever melhor,
Todo mundo pode aprender
Gílson Rampazzo compartilha lições de sessenta anos de ensino de escrita criativa
28out2025 | Edição #99Manuais de escrita criativa ainda têm frescor de novidade no Brasil. É que até hoje há quem defenda conceitos furados como “vocação” para afirmar que “escritor se nasce” — tese que nada mais é do que a manutenção de privilégios. Mesmo graduações, cursos e oficinas de escrita criativa são relativamente recentes aqui, ao contrário do mundo hispânico, francófono e dos EUA, país que já no século 19 profissionalizava escritores e revelava o primeiro autor de um manual de escrita: Edgar Allan Poe.
Seu A filosofia da composição, em que descreve os meandros da criação do poema “O corvo”, é pioneiro no gênero. Mas tem um problema básico: o uso de exemplos pessoais — a sua poesia — como mapa de “bem escrever”. Há outros manuais por aí que citam trechos de livros dos próprios autores para fundamentar procedimentos. Sem contar os guias caga-regras que elencam mandamentos, como o clássico Decálogo do perfeito contista, do uruguaio Horacio Quiroga — como se fizesse sentido propor receita única para uma arte tão mutante quanto a literatura.
Somando-se a títulos como Escrita em movimento: sete princípios do fazer literário, de Noemi Jaffe; Escrever ficção: um manual de criação literária, de Assis Brasil; e Escrever é humano: como dar vida à sua escrita em tempo de robôs, de Sérgio Rodrigues (todos pela Companhia das Letras); além de Bagageiro (José Olympio), de Marcelino Freire, chega uma avis rara no gênero, Registros e vivências no ensino de redação: uma autobiografia pedagógica, de Gílson Rampazzo.
O mestre e escritor paulista de 82 anos, autor do romance Os deuses chutam lata na Consolação (Ateliê), faz jus ao subtítulo ao narrar sua vida como estudioso da escrita ao longo de seis décadas dando aulas de redação no Colégio Equipe, em São Paulo. Sempre vestido dos pés à cabeça em azul ton sur ton (até seu automóvel é azul), o característico bigode ruivo, cabelo cortado na régua e dividido com exatidão (de um lado o socialismo, de outro o Corinthians), a figura carismática inspirou gerações de interessados em se conectar com as entranhas da literatura. O POV (point of view, no jargão da internet) de quem senta a bunda na cadeira e escreve, sem esperar pelas musas. Como diz o escritor Joca Reiners Terron, escrever nada mais é do que fazer uma infinita lição de casa.
Palco e política
Nascido em Americana (SP), Rampazzo chegou em São Paulo nos anos 60 para estudar letras na USP, onde virou unha e carne com José Miguel Wisnik. Enquanto estudava, fazia bicos no teatro da PUC-SP, o Tuca, em montagens como a de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, e aproximou-se de gente da intelectualidade, como Chico Buarque, Roberto Freire e Frei Betto. Passou a dar aulas de redação num curso de supletivo, em seguida no cursinho do vestibular da USP e depois no cursinho do Colégio Equipe.
Aí deu-se o episódio que marcaria sua vida. Em 1969, auge da ditadura militar, Rampazzo atuava no movimento estudantil e, como a maioria dos alunos de letras, simpatizava com o socialismo — porém longe de partidos ou organizações. Para completar, morava numa república com outros colegas politizados. Essas circunstâncias, somadas ao fato de viver em seu prédio na Vila Buarque um terrorista trapalhão, caíram na orelha da polícia política, que sequestrou Rampazzo e sumiu com ele por um mês, durante o qual foi barbaramente torturado.
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Pessoas próximas ao professor conheciam o episódio, que ainda não havia sido tema de sua escrita. Agora, memórias desconcertantes — presos fazendo a “brincadeira do copo”, um torturador homicida seguidor do kardecismo — são reveladas no papel. O evento traumático agudizou a atuação pedagógica de Rampazzo, que transformou a democratização da escrita numa missão, mais que estética, política e transformadora.
O professor foi trocando o pneu ao mesmo tempo que acelerava seu carro azul: chegou a uma teoria do ensino de escrita criativa enquanto dava aulas, tateando lições, atuando de modo performático, usando a experiência no teatro. “Meu objetivo passou a ser criar situações propícias ao surgimento do novo, do inesperado; precisava surpreender os alunos”, conta. Inegociável é a tese de que “qualquer pessoa pode redigir bem”, mesmo aquelas com raso repertório literário. Numa aula, pediu que os alunos contassem suas fantasias. Um deles, office boy, saiu com um relato de viagem dentro de um frango assado. O pobre passava tantas horas assando em ônibus apertados que o jeito era devanear com a comida favorita… “Parece estranho, mas são os alunos que ensinam o professor a dar aulas”, diz Rampazzo. Invertendo papéis, intuiu: ao contrário da dissertação, que trata de conceitos, o aluno deveria partir do concreto na direção do abstrato — das coisas materiais ao campo das ideias.
Rampazzo propõe começar pela poesia, definida como “forma de redação que usa a palavra em sua totalidade” — acepção próxima daquela de Ezra Pound, “o máximo de significado com o mínimo de linguagem”. Sua originalidade está em compartilhar teorias descobertas na prática, em sala de aula. Intuitivo, adapta à sua obsessão conceitos da psicanálise junguiana e da semiótica: trabalhar a palavra material. Parece simples. Só que ainda é novidade.
A originalidade do autor é compartilhar teorias descobertas na prática, em sala de aula
Em pleno 2025, as melhores universidades não oferecem uma disciplina de escrita criativa, nem sequer nos cursos de letras. Tendo em vista que qualquer IA redige um texto razoável, só pessoas mais treinadas em garimpar achados disruptivos — na forma e no conteúdo — é que vão sobressair da manada de textos robotizados. Para isso é crucial exercitar técnicas de redação, como a de planejar a estrutura narrativa, já na escola. Rampazzo dá aulas no ensino médio desde 1970. Daí o título de mais longevo mestre de escrita criativa do país, ao lado de escritores como Raimundo Carrero e João Silvério Trevisan.
No livro, além de entrelaçar a experiência em sala de aula com suas propostas de escrita — famosas pelo humor anárquico e absurdo —, Rampazzo conta do laboratório de escrita criativa que manteve no Museu Lasar Segall, em São Paulo. O curso, livre e gratuito, partia do poema para a cena, a crônica e por fim a prática do conto breve. Registros e vivências no ensino de redação é livro que se lê com prazer enquanto se aprende, indicado também a escritores, educadores e pesquisadores de processos criativos. Demolindo o velho mito da literatura enquanto criação solitária, Rampazzo demonstra, com rigor e paixão, que a escrita é arte solidária.
Matéria publicada na edição impressa #99 em novembro de 2025. Com o título “Todo mundo pode aprender”
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