Cinema,
O morro dos latidos
Nova adaptação do clássico de Emily Brontë comprova que O morro dos ventos uivantes se nega a ser domesticado
27fev2026 • Atualizado em: 03mar2026Toda vez que um clássico da literatura é adaptado para o audiovisual, uma multidão de puristas, curiosos e desavisados corre para os cinemas. A nova adaptação cinematográfica de O morro dos ventos uivantes, dirigida e roteirizada pela britânica Emerald Fennell, vencedora do Oscar de Melhor Roteiro Original por Bela vingança (2020), suscita mais um desses eventos.
Na história do audiovisual, o romance de Emily Brontë já foi transportado para diversos cantos do mundo e transmutado em diferentes instâncias. A primeira adaptação aconteceu em 1920, ainda na era do cinema mudo, 73 anos depois da publicação do livro. O filme foi gravado em Haworth, vilarejo inglês onde as irmãs Brontë cresceram e onde se passa a história. Em uma adaptação pop da MTV para a televisão, do início dos anos 2000, o morro dá lugar ao farol The Heights e a trama é ambientada na Califórnia, embora filmada em Cabo Rojo, Porto Rico. Ao longo de quase um século, foram dezenas de versões, algumas mais fiéis, outras “livremente inspiradas”.
Na mais recente, protagonizada pela atriz Margot Robbie, Fennell recria o clássico à sua maneira, lançando mão da artificialidade como principal ferramenta narrativa. Figurinos vitorianos, casas seculares e paisagens pantanosas são substituídos por elementos pouco condizentes com o Reino Unido da época do romance. Catherine Earnshaw, interpretada por Robbie, aparece em vestidos rocambolescos e maquiagens que facilmente poderiam ser vistas no carnaval carioca. O Penistone Crag, formação rochosa fictícia essencial na geografia do livro, ganha formatos plásticos e o céu, cores artificiais. Os cenários lembram os da versão de Tim Burton para Alice no País das Maravilhas (2010).
A adaptação de Fennell se assemelha a uma espécie de fanfic da obra original — o que não deixa de ser uma aproximação plausível, considerando depoimentos da diretora contando ter reconstruído o clássico de acordo com as memórias de sua primeira leitura, na adolescência. Críticos e fãs torceram o nariz para a escalação do ator Jacob Elordi, um homem branco, para o papel de Heathcliff, que é descrito no livro, pelo menos cinco vezes, como um cigano ou forasteiro de pele escura. Há registros, inclusive, de que o pai de Emily Brontë, Patrick Brontë, tinha ligações com o movimento abolicionista, o que reforça a hipótese de ter sido uma escolha da autora racializar o personagem.
A adaptação de Emerald Fennell se assemelha a uma espécie de fanfic da obra original
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A escolha de Elordi foi justificada com o seguinte argumento: a diretora criou o Heathcliff que imaginou quando teve o primeiro contato com a obra. O apagamento da identidade racial do personagem, entretanto, é antigo. Até hoje foram poucos os diretores que construíram Heathcliffs adequados às descrições de Brontë.
A fórmula da fanfic aparece também na potencialização do elemento erótico: a consumação que alguns leitores buscam após tantas tensões românticas sugeridas pelo romance. Mas a produção parece acanhada, até mesmo receosa, de bancar qualquer uma das insinuações de sadomasoquismo e outras práticas fetichistas. Cão que ladra não morde.
Gótico enroscado
Fennell cria seu próprio O morro dos ventos uivantes e se vale de aspectos, práticas e referências do período vitoriano para inventar um universo gótico sui generis. O lettering que apresenta o título do filme é fruto de um stop motion, produzido durante nove dias, com fios de cabelo humano (incluindo o dos atores Robbie e Elordi) se enroscando para formar a expressão “Wuthering Heights”, o título original. O elemento cabelo aparece também em bonecas, no limiar entre a homenagem e a maldição, que a personagem Isabella Linton — talvez a mais interessante do filme — confecciona usando os fios da protagonista deixados na escova. No século 19, não era raro encontrar, em casas vitorianas, animais empalhados, flores prensadas e ornamentos feitos de cabelo humano.
A preocupação com a domesticação do selvagem era frequente no período e foi incorporada no longa de Fennell. Contudo, ao reproduzir essa ideia em cenografia, figurino e maquiagem, a diretora se confunde com seu simulacro estético, provocando uma aura de falsidade nos personagens. Só se salva desse ar “industrializado” a figura de Isabella Linton, que, na releitura, ganha uma personalidade excêntrica, combinando aspirações ingênuas e desejos tórridos de submissão. Para cima e para baixo com seu lulu da pomerânia adestrado, ela aparece como uma “cachorrinha” do cruel Heathcliff — lugar de gozo que conquista por ajudá-lo a reconquistar Cathy. É uma inversão curiosa da ideia de submissão, com a pessoa submissa no controle da situação.
Os cachorros, no romance, são figuras importantes que aparecem volta e meia como representação de seus donos. A criada Nelly, guardiã da memória das duas famílias, compara Heathcliff a um cuco ou pardal, espécies que costumam pôr seus ovos no ninho de outros pássaros para que estes criem seus filhotes. A metáfora do cuco é incorporada de forma inteligente no filme, a partir dos ovos que são deixados furtivamente por Cathy sob os lençóis de Heathcliff, como parte de uma brincadeira infantil. O quebrar dos ovos, liberando o conteúdo plasmado do interior, conecta o sentimento de Heathcliff de ser um intruso — referência que os leitores do romance vão captar — ao desejo de Catherine, que se alastra.
Cortes e fusões
O romance de Emily Brontë foi publicado em 1847, em dois volumes, sob o pseudônimo Ellis Bell. Na primeira metade, acompanhamos a chegada do Sr. Lockwood, personagem periférico que serve de ouvidos para a história narrada por Nelly sobre duas famílias que viveram naquelas terras: os Earnshaw, em Wuthering Heights, e os Linton, em Thrushcross Grange. Na outra metade, acompanhamos a segunda geração das famílias.
Como em adaptações anteriores, Emerald Fennell escolheu trabalhar apenas com o primeiro volume, cortando a segunda parte do enredo. Além disso, a diretora optou por “fundir” os personagens Sr. Earnshaw e Hindley Earnshaw, o que impede o espectador de ter contato com um elemento central da trama: a predileção do Sr. Earnshaw pelo órfão Heathcliff, adotado por ele, em detrimento do filho de sangue. No livro, funciona como pontapé para o efeito dominó da história de vingança e ressentimento que contamina todos dali em diante.
A sensação de reclusão é o que aprisiona e também o que atiça cada um dos personagens de Brontë. A adaptação de Fennell, entretanto, parece ignorar essa condição, obrigando-os a interagir de forma exaustiva e deixando pouco espaço para nos sentirmos isolados. Estar ilhado em Wuthering Heights ou em Thrushcross Grange dá a impressão de ser apenas um tremendo tédio.
Aí talvez resida uma das grandes questões do filme. Esse tédio — que, no livro, remete a uma melancolia desesperada e um apetite insaciável pelo desconhecido — foi transformado, no longa, em um sentimento plácido e simplório. Isso justifica as tiradas cômicas da adaptação, que alterna entre um tom ácido, conquistando risadas, as promessas eróticas não cumpridas e um Heathcliff plano. Apesar das cenas repetitivas em que vemos cicatrizes em suas costas, faltam fissuras no personagem de Jacob Elordi — fissuras que nos permitam adentrar seus tormentos, uma sina que, no romance, vai muito além de reles fetiche.
É como se o filme ostentasse uma grande placa com a inscrição “cuidado, cão bravo”. Mas, ao entrar, nos deparamos apenas com o comportado lulu da pomerânia de Isabella. Muitos latidos; falta mordida.
