Cinema,

Entre filmes e memórias

Num misto de biografia, crítica e bate-papo, Tarantino descreve sua formação cinéfila e imagina tudo o que poderia ter sido, mas não foi

01mar2024 - 00h00 • 20mar2024 - 16h58 | Edição #79

Surgido na cena independente do cinema estadunidense em 1992 com Cães de aluguel, Quentin Tarantino mal tinha completado trinta anos quando chocou e encantou espectadores e críticos com sua sátira perturbadora de filmes policiais embalada num estilo que remetia a produções similares da Ásia, especialmente de Hong Kong. Pouco tempo depois, com Pulp fiction: tempo de violência (1994), o já balzaquiano realizador criou um fenômeno pop, levou Palma de Ouro no Festival de Cannes e Oscar de roteiro original e nunca mais deixou de estar no cenário audiovisual como presença barulhenta, influenciadora e às vezes controversa.


Especulações cinematográficas, de Quentin Tarantino, faz um apanhado cinéfilo de uma década marcante na produção dos Estados Unidos

Atualmente desenvolvendo seu décimo longa-metragem, The Movie Critic, anunciado como o derradeiro de sua carreira, Tarantino tem se enveredado também pela escrita. Em 2021 lançou o romance Era uma vez em Hollywood, espécie de novelização de seu filme homônimo de 2019, publicado no Brasil pela Intrínseca com tradução de André Czarnobai num simpático formatinho de bolso. Seu trabalho literário seguinte mergulha naquilo que mais mobiliza Tarantino: filmes. Até demorou para que ele, quase aos 61 anos, mergulhasse na grande paixão de sua vida, naquilo que o forma como pessoa, artista e agitador cultural e algo no que, a essa altura, ele mesmo já contribuiu com possibilidades renovadas de criação. 

Especulações cinematográficas sai no Brasil também pela Intrínseca e traduzido por André Czarnobai. O livro leva a sério a máxima de Oscar Wilde de que “toda crítica é uma autobiografia”. O que Tarantino faz ao longo de quatrocentas páginas, com bastante espontaneidade, é relacionar muito diretamente sua formação cinéfila em Los Angeles, especialmente ao longo dos anos 70, com vida pessoal, gostos artísticos, afetos e ressentimentos familiares e algumas revelações íntimas. Longe de ser um livro de fofocas (isso deixamos para o treteiro Como a geração sexo, drogas e rock’n’roll salvou Hollywood, de Peter Biskind, citado por Tarantino), Especulações cinematográficas é um misto de apanhado cinéfilo de uma década marcante na produção dos Estados Unidos e um memorial empolgado e carinhoso de quem soube aproveitar ao máximo a efervescência do período se enfurnando em salas de cinema de quaisquer cantos da cidade que estivessem exibindo os filmes que o jovem rapaz queria ver.

Tarantino cria ótimas pérolas de percepção e oferece, ainda, uma surpreendente leitura sociológica

Na verdade, nem todos ele necessariamente queria ver. O livro abre num prólogo intitulado “O pequeno Quentin assistindo a grandes filmes” e expõe o cotidiano do autor entre os sete e os onze ou doze anos acompanhando a mãe, Connie, e os namorados de ocasião em constantes sessões de classificação adulta. “Se eu fizesse uma lista de todas as imagens violentas e bárbaras que vi entre 1970 e 1972, a maioria dos leitores ficaria chocada”, comenta. Tarantino explica que a mãe preferia levá-lo com ela a deixá-lo em casa com alguma babá, sob a condição de que ele se comportasse e ficasse quieto ao menos durante as exibições. Na volta para casa, tudo bem, ele podia perguntar o que quisesse — e perguntava todo tipo de coisa, exigindo algumas retóricas da mãe (mas sem mentiras: ela era sempre sincera nas respostas) ao mesmo tempo em que já apresentava a inquietação que o levaria a fazer, no futuro, filmes igualmente inquietantes.

Do que os adultos gostam

Na distância da maturidade, Tarantino percebe o quanto soube aproveitar a possibilidade de estar entre adultos para aprender e apreender o que eles faziam, do que gostavam, como interagiam e o que lhes interessava. 

Nessas experiências, o pequeno Quentin testemunhou todo tipo de reação ao que assistia e, mesmo sem dominar tudo que se passava na tela, captava a vibração da plateia, a atmosfera construída em algumas cenas e o efeito delas na sensibilidade dos colegas de sessão. Nem sempre era algo exatamente positivo. “Às vezes, isso trazia à tona um lado muito feio das plateias”, comenta ele, ao falar da reação coletiva a filmes com pegada reacionária ou que debochavam de minorias sociais.

Juventude transviada — ‘Azul quase transparente’ é retrato vívido de geração dos anos 1970

Entre o primeiro e o último capítulo do livro, ambos de pegada mais pessoal, Tarantino empilha, em ordem cronológica, uma série de filmes e sessões que o marcaram entre 1968 e 1981, quando ele tinha entre cinco e dezoito anos. O primeiro que comenta é Bullitt (Peter Yates, 1968), e o último é Pague para entrar, reze para sair (Tobe Hooper, 1981). Mesclando crônica, crítica, reportagem e, como o título adianta, muita especulação, o autor nunca se atém apenas ao longa-metragem destacado. Por vezes, para chegar ao tema do capítulo, faz deliciosas digressões, ora descrevendo detalhadamente processos de produção (caso de Os implacáveis, Sam Peckinpah, 1972), ora repassando toda a carreira de um ator ou diretor (ao falar de Alcatraz: fuga impossível, Don Siegel, 1979), ou mesmo tendo por base o choque que algum título lhe causou (como Amargo pesadelo, John Boorman, 1972).

Quem escreveu esse texto

Marcelo Miranda

É jornalista, crítico e curador de cinema.

Matéria publicada na edição impressa #79 em março de 2024.